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Se esperar um ano inteiro para conferir uma nova temporada de um seriado complexo, imagine esperar quase dois anos para revisitar a intrincada história de Westworld que enfim retorna neste domingo, 22 de abril. Já aviso de antemão que o primeiro episódio desta segunda temporada, Journey into Night, exige ferrenhamente que o espectador esteja com a memória muito fresca de todos os eventos principais de outrora.

Em uma breve sinopse sem spoilers, vemos um grupo de militares da Delos encontrando Bernard (Jeffrey Wright) desacordado no leito de um rio. Há um salto de duas semanas entre esse evento e a matança desenfreada que marcou os últimos minutos do episódio final da temporada anterior. Nisso, Bernard, já com estado físico muito debilitado, tenta auxiliar o grupo especial enviado para tentar desvendar esse enorme mistério da rebelião dos Anfitriões que agora não obedecem mais suas narrativas, além de terem o poder de matar os visitantes.

A Grande Caçada

A partir disto, é impossível não dar maiores detalhes do episódio e, assim sendo, a análise do mesmo fica impossibilitada. De modo geral, para quem não deseja saber mais adiante, temos um season première eficiente, mas de poucas surpresas, além de apresentar deficiências de roteiro pouco condizentes ao que havia sido apresentado até então. Há uma pequena porção de deus ex machina, além de uma sessão repleta de exposição em quase todas as cenas que temos a participação de Dolores (Evan Rachel Wood).

Aliás, focando no núcleo razoável de Dolores, temos as pistas que o time de roteiristas pretendem experimentar ao máximo com a posição da protagonista benevolente de outrora para se tornar líder de um movimento radical e bastante desumano. Na verdade, pistas é o que não faltam neste episódio e é a partir daqui que entraremos no campo dos SPOILERS.

Dolores é, obviamente, a personagem mais alterada desde a última vez que a vimos. Seu núcleo é o mais filosófico da obra, exacerbando existencialismo gratuito para todos os lados, o que certamente a torna bastante superficial de certo modo, afinal filosofar para suas vítimas humanas enquanto prepara uma execução a la Era Uma Vez no Oeste é algo muito caricato para Westworld. O curioso é o desfecho da cena que revela a possibilidade de Dolores estar seguindo apenas outro roteiro programado por Ford, já que quando um humano pergunta se ela não vê que eles estão arrependidos, ela responde com o marcante “Isso não me parece nada.”, frase que evidenciava os limites da inteligência artificial dos sintéticos.

Apesar de termos essa dica curiosa, não há muita graça no núcleo de Dolores, apenas servindo para atender as demandas de cenas de ação que revelam novas estratégias dos Anfitriões para eliminar os humanos do parque, além de suprir a exigência intelectual que o seriado carrega. De resto, transitamos em ritmo vagaroso entre as duas linhas temporais que os roteiristas estabelecem: uma mostrando o presente, duas semanas depois do extermínio, e outra dedicada a exibir o que aconteceu logo depois do assassinato de Ford.

É nela que vemos o maior desenvolvimento para Bernard que logo se vê em um grupo de sobreviventes ao lado de Charlotte (Tessa Thompson) que procuram meios de sobreviver e escapar do parque. Como o espectador já tem ciência de que Bernard sabe que é um androide diferenciado, sua situação delicada com Charlotte fica ainda mais tensa rendendo bons momentos de suspense, já que o homem está correndo contra o tempo para não morrer de qualquer maneira. Mesmo que ocupe a maior parte do episódio, pouco ocorre com o personagem além do esperado, apesar de termos a preparação de um enorme mistério que é poderoso o suficiente para encerrar o episódio.

Já o núcleo de Maeve (Thandie Newton) é um dos mais interessantes já que rapidamente a vemos em sua busca para reencontrar a filha. Porém como todo o centro de comando está em completo caos e matança, Maeve é forçada a se aliar com o roteirista chefe do parque, Lee Sizemore (Simon Quaterman). A interação entre os dois é bastante inteligente ao resgatar linhas de diálogo e até mesmo flertar com poderosas simbologias como a que envolve a nudez da qual discorri aqui, além de oferecer um jogo de papéis invertidos eficaz mostrando Maeve como a verdadeira poderosa do seriado até então. O único porém, é a inserção de conflitos desnecessários e redundantes dos quais os roteiristas apelam a pífios deus ex machina para salvar a personagem de algumas enrascadas.

Entretanto, apesar de termos bons rendimentos com Maeve e Bernard, o maior brilho do episódio continua com o Homem de Preto (Ed Harris) que simplesmente está adorando essa completa reviravolta em Westworld, encarando o desafio como a pura experiência que ele sempre quis. A maior surpresa é a motivação dada ao personagem persistir na sua busca de desvendar todos os segredos do parque. Isso nos leva diretamente ao tema desta temporada: The Door, ou seja, a Porta. Tudo o que é revelado dá a entender que Ford planejou um segredo gigantesco para o personagem desvendar, indicando de fato que tudo estava roteirizado desde o início e que o livre-arbítrio de alguns androides possa ser artificial.

O núcleo do Homem de Preto provavelmente será, mais uma vez, a melhor narrativa desta temporada de Westworld. Fora isso, ainda temos o altíssimo valor de produção do seriado com o olhar cinematográfico apurado do diretor Richard Lewis que consegue trazer atmosferas corretas para cada sequência, experimentações simples com câmera subjetiva, além de referenciar alguns westerns clássicos como o já mencionado Era Uma Vez no Oeste. Em certo momento, o diretor mostra os agentes militares executando alguns Anfitriões ainda amistosos de modo similar aos paredões nazistas.

O setor técnico que mais brilha, com toda a certeza, é o design de produção que posiciona uma infinidade de corpos e manchas de sangue em uma porção abundante de cenários mostrando um grau de violência do pós-combate bastante forte fazendo valer o slogan consagrado do caos reina”. Nesse começo satisfatório para estabelecer linhas narrativas com mistérios cheios de potencial, além de oferecer muitas hipóteses para teorias, apenas temo que a divisão temporal entre o presente e os flashbacks possam ser mantidos até o término desta temporada – o que seria uma decisão bastante equivocada em limitar o progresso real da narrativa até então, além de repetir um recurso usado brilhantemente na temporada anterior.

Westworld ainda tem tudo para se tornar o novo marco televisivo da HBO.

Obs: há uma nova abertura tão bonita quanto a original.

Westworld – 02×01: Journey Into Night (EUA – 2018)

Criado por: Jonathan Nolan, Lisa Joy
Direção: Richard J. Lewis
Roteiro: Lisa Joy, Roberto Patino
Elenco: Evan Rachel Wood, Ed Harris, Tessa Thompson, Luke Hemsworth, Thandie Newton, James Marsden, Jeffrey Wright, Rodrigo Santoro, Fares Fares, Simon Quarterman
Emissora: HBO
Gênero: Aventura, Drama
Duração: 70 min

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