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Contém spoilers

A primeira temporada de Westworld estabeleceu o estilo de narrativa em tempos distintos, todos, de uma forma ou outra, se complementando entre si, de forma a praticamente obrigar o espectador a montar esse grande quebra-cabeças, não muito diferente do que alguns personagens fazem dentro da série. Sob muitos aspectos somos mergulhados nas mentes dos anfitriões, que devem buscar a verdade por trás das diversas camadas de ilusões construídas por Ford, Delos e quem mais for responsável pela construção e manutenção do(s) parque(s). Como não poderia deixar de ser, Reunion, segundo capítulo mantém essa estrutura, mas dispensa ainda mais a linearidade, já levando em conta os eventos que acompanhamos na semana anterior.

O roteiro de Jonathan Nolan e Carly Wray deixa isso bem claro já nos minutos iniciais. Novamente vemos a introdução com Arnold e Dolores, muitos anos antes do tempo presente da série, que, supostamente, é a revolução dos anfitriões. A identidade da temporada se mantém assim, construindo, através do passado, quem Dolores é hoje, mas o texto se dá o direito de pular algumas etapas, dando a entender que estamos em um tempo distinto daquele trecho visto em Journey into Night. Dolores contempla a realidade, enquanto que Arnold, também o faz, sendo lembrado, através de uma linha de diálogo apenas, que aquela ao seu lado não é uma pessoa completa de verdade.

 

Assim sendo, o que vemos ao longo desse episódio, nas sequências em flashback, é o amadurecimento da anfitriã – cada trecho nitidamente moldando sua personalidade no futuro, enquanto ela escuta, absorve tudo ao seu redor, por mais que esteja ‘congelada’. Retomamos a questão da tomada de consciência, o labirinto, temática da primeira temporada – nesses momentos temos justamente a inteligência artificial percorrendo esse labirinto e cada informação oferecida o coloca um passo mais perto da saída. Nolan e Wray colocam a personagem ao lado de diversos outros, sempre pessoas diferentes, mostrando o quanto cada um contribuiu para o estopim dessa revolução.

critica westworld 02x02 reunion

Nem só de Dolores, contudo, é feito esse episódio. O outro grande foco, claramente, é o Homem de Preto, ou William, que mais uma vez caminha para a mesma direção que a anfitriã por quem se apaixonara, só que dessa vez não mais juntos. Em lados opostos, a narrativa da temporada parece estar construindo um grande embate entre essas duas partes e não poderia ser algo mais dramático. Ambos os personagens tiveram sua inocências quebradas, ambos foram forçados a enxergarem o mundo como ele é e, claro, ambos amaram um ao outro. Em dado momento, William (sua versão mais jovem) diz que Dolores (e todos os outros anfitriões, por conseguinte) são espelhos dos ‘visitantes’ e aqui vemos exatamente isso: ela é o perfeito reflexo do Homem de Preto, não apenas no tempo presente, como em toda a sua trajetória.

Sabiamente, o texto soube focar exclusivamente nesses dois personagens (com as devidas interações com outros, claro, como é o caso de Maeve), permitindo, assim, que a história progredisse mais agilmente. Evidente que, em breve, veremos o que fizeram Bernard e Maeve durante esse tempo, mas essa divisão semanal aumenta a sensação de estarmos vendo a série, de fato, andar para a frente, impedindo aquela velha fragmentação narrativa exagerada que assola diversas séries por aí. Além disso, ao manter a atenção somente nesses dois núcleos durante esse episódio, é deixado bem claro o quanto essas duas histórias estão intrinsecamente conectadas, especialmente se levarmos em conta que William, provavelmente, apenas enterrou seus sentimentos por Dolores e não os extinguiu por completo, como é deixado entender durante os flashbacks – vide os olhares dele para ela ao longo do capítulo.

Para isso tudo funcionar, claro, se faz necessário um bom trabalho de montagem, um encadeamento que não cria rupturas e sim complementa a história de maneira orgânica. Felizmente, acertam em cheio nesse quesito, a tal ponto que sentimos como se os personagens estivessem se lembrando desses trechos específicos quando os assistimos.

É curioso, portanto, que exista uma certa linearidade dentro dessas linhas do tempo intercaladas e o melhor disso é que o roteiro sabe nos oferecer as necessárias informações para que não fiquemos perdidos, seja um nome sendo chamado (é o caso de Arnold, nos minutos iniciais), ou a aparição de determinado personagem. Isso sem levar em conta, claro, a própria aparência dos indivíduos. Aliás, o penteado de Dolores e do próprio William (basta vê-lo na festa, perto do fim do capítulo) e suas roupas diretamente contribuem para essa noção de passagem de tempo, explicitando o desenvolvimento deles, como pessoas, ao longo desses anos retratados.

critica westworld 02x02 reunion

Chegamos, enfim, à arma que é mencionada ao término do episódio, que claramente funciona como o macguffin desses dois núcleos intercalados. Similarmente ao labirinto e à nova narrativa de Ford da temporada anterior, esse item há de definir um ponto a ser atingido por esses dois (grupos de) personagens, mais uma vez retomando a ideia de um conflito direto entre Dolores e William.

Nesse ponto, o passado ganha ainda mais importância, com a revelação de que ele mostrou tal arma para a anfitriã há anos. Assim sendo, vemos algo similar àquela linha narrativa da primeira temporada, que mostrava a jornada dos dois juntos, quando o Homem de Preto ainda não havia assumido esse ‘manto’. Mais importante, no entanto, é que nós, como espectadores, ganhamos algo para criarmos expectativa sobre, ao passo que essas duas subtramas assumem um objetivo único.

Com isso, Westworld retorna ao seu primor, com um episódio, nitidamente superior ao inaugural dessa segunda temporada, que mostra como os showrunners, Lisa Joy e Jonathan Nolan, sabem dar a devida atenção, para os personagens certos, nos momentos ideais. Trata-se de um capítulo sobre Dolores e William, que nos leva de volta ao triste passado envolvendo os dois e que, ao mesmo tempo, os coloca em direção um ao outro. Desde já, Reunion nos faz ansiar pelo futuro da temporada e por um possível encontro entre esses dois grandes personagens da série, que podem, ou não, vir a ser a ruína um do outro – se é que já não o foram.

Westworld – 02×02: Reunion (EUA – 2018)

Criado por: Jonathan Nolan, Lisa Joy
Direção: Vincenzo Natali
Roteiro: Jonathan Nolan, Carly Wray
Elenco: Evan Rachel Wood, Ed Harris, Tessa Thompson, Luke Hemsworth, Thandie Newton, James Marsden, Jeffrey Wright, Rodrigo Santoro, Fares Fares, Simon Quarterman
Emissora: HBO
Gênero: Aventura, Drama
Duração: 58 min.

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