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Desde o finale da primeira temporada de Westworld, um dos fatores que mais gerou ansiedade nos fãs foi a expectativa de ver, ao menos um pouco, dos outros parques da Delos, mais especificamente o Shogun World, do qual já havíamos visto relances com os anfitriões samurai duelando na parte administrativa do parque. O desfecho de Virtù e Fortuna elevou essa expectativa às alturas, finalizando com um desses guerreiros japoneses correndo em direção ao grupo de Maeve. Levando em conta a estrutura narrativa assumida nessa temporada, era de se esperar que nesse quinto episódio veríamos a continuação desse evento e Akane no Mai nos entrega justamente isso, mas não da maneira que esperaríamos, ou até gostaríamos de ver.

Em essência, trata-se de um episódio filler. Tirando um ponto ou outro, absolutamente nada que acontece durante todo o capítulo, de fato, pode ter um grande impacto na trama geral da temporada. De todos esses acontecimentos, aqueles que eu destacaria de importante são: o final com Teddy e o novo séquito que Maeve pode ter conseguido ao controlar a mente dos guerreiros do Shogun (e nisso incluo a geisha e o ronin). Esse, no entanto, não chega a ser o maior dos problemas do episódio, que poderia muito bem ter se dado o luxo de contar uma história fechada em si própria – poderia não ser algo imprescindível para a temporada, mas, ainda assim, poderia ser algo gratificante para aqueles que simplesmente apreciam uma boa história. De fato, os showrunners Lisa Joy e Jonathan Nolan poderiam muito bem terem feito uma grande homenagem aos clássicos de Akira Kurosawa através desse ocidental olhar sobre o oriente.

Qualquer possibilidade de vermos isso, contudo, já é jogada por água abaixo nos minutos iniciais. Logo cedo o capítulo, como de costume, se divide em focos distintos, um permanecendo com o grupo de Maeve e outro com Dolores e Teddy – vamos ignorar a cena completamente perdida e desnecessária com Bernard, já que não há qualquer desculpa para essa estar presente em Akane no Mai. Pode parecer óbvio, mas não, aparentemente, para os planejadores dessa temporada – e não me refiro unicamente ao roteiro de Dan Dietz, já que ele deve seguir ordens de cima – que intercalar cenas em Westworld com as de Shogun World simplesmente não funciona. Essa mudança da água para o vinho gera constantes estranhamentos, amplificados ainda mais pela mudança de noite para o dia de cada núcleo, que quebram nossa imersão inúmeras vezes ao longo da exibição.

critica westworld 2x05 akane no mai

Estamos falando de duas linhas narrativas que, ao menos por enquanto, não dialogam minimamente entre si, muito diferente do que vemos quando os arcos de Dolores e William são intercalados, por exemplo. Testemunhamos, pois, incontáveis rupturas na linha de raciocínio que soam mais intrusivas que intervalos comerciais. Tudo isso para contar o máximo de história possível no tempo que a emissora destina à exibição do seriado. Faltou ousadia, planejamento ou até mesmo bom senso por parte dos showrunners, que poderiam ter encurtado o episódio (fazendo dele, portanto, menos cansativo do que é) e dispensado as histórias paralelas – essas poderiam ser contadas em outro momento.

É criada, portanto, uma aberração, visto que o núcleo de Maeve conta com uma história com início, meio e fim perdida no meio de eventos à ela nada relacionados. Assim sendo, nos é tirada qualquer chance de aproveitar um bom conto e ficamos exclusivamente com a percepção de estarmos diante de um grande filler, com poucos pontos que, de fato, se salvam.

Em todo caso, existem alguns aspectos positivos que não podemos ignorar em Akane no Mai. O primeiro deles é todo o design de produção invejável, que nos transporta para essa visão ocidental sobre o oriente. E por que digo visão ocidental? Pois o texto de Dan Dietz faz um excelente trabalho em juntar praticamente todos os clichês (e digo isso como um elogio) em nossa visão sobre o Japão: samurais, ninjas, geishas, honra inabalável e mais. Não estou dizendo que esses não sejam importantes elementos importantes da cultura do país, mas, quando colocados todos juntos em uma narrativa de menos de uma hora, é impossível não enxergar o delicioso estereótipo, que deixa bem claro que tudo isso foi criado por algum homem ocidental da Delos.

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O mais impressionante é enxergar como a história foi capaz de inserir esses elementos de maneira orgânica na trama, excluindo o fato, claro do exército do shogun aparecer segundos após os ninjas terem deixado o local. É demonstrado um belo respeito à cultura oriental, também, pelo fato dos diálogos serem majoritariamente falados em japonês, ao invés de atores japoneses falando inglês. Claro que isso acaba servindo à narrativa, já que a Delos buscaria criar a experiência mais imersiva possível e ter samurais falando inglês não iria agradar os convidados mais preciosistas. Aliás, já falando das intenções da empresa por trás de Westworld e Shogun World, esse capítulo mais que provou o quanto a experiência do parque ‘oriental’ é mais visceral, dialogando, assim, com outro lado da cultura nipônica, mais especificamente com o gore, visto tanto em específicas produções cinematográficas, quanto em mangá e animes.

Entramos, pois, em outra das falhas desse quinto episódio: a direção de Craig Zobel, que certamente não sabe aproveitar tudo o que lhe foi dado aqui. Zobel não valoriza nem um pouco o já elogiado design de produção e tampouco sabe se espelhar em produções japonesas em suas sequências de ação ou naquelas mais violentas. Não digo que a HBO precisaria contratar um diretor do país, mas faltou audácia em Zobel de, ao menos, tentar se espelhar nos clássicos do Cinema japonês ou até mesmo nos contemporâneos realizadores do país. Claro que seria mais que interessante ver esse episódio dirigido por alguém como Takashi Miike, mas nem perto disso testemunhamos ao longo desses longos cinquenta e oito minutos de exibição.

Dito isso, Akane no Mai traz seus acertos, mas eles são quase todos ocultados pela mediocridade que domina todo o episódio, que mais parece ter sido feito no piloto automático. Pouquíssimo inspirado, temos aqui um total desperdício do que poderia ter sido uma triunfal introdução ao Shogun World, que tem como melhor sequência um espelhamento de outra cena da primeira temporada – um divertido desdobramento (especialmente ao som do arranjo de Paint it Black), mas que rapidamente perde a força, seja pelo roteiro repleto de interrupções e quebras de imersão, seja pela direção preguiçosa de Craig Zobel, que faz desse tudo o que um episódio de Westworld não deveria ser: simplesmente básico.

Westworld – 02×05: Akane no Mai (EUA – 2018)

Criado por: Jonathan Nolan, Lisa Joy
Direção: Craig Zobel
Roteiro: Dan Dietz
Elenco: Evan Rachel Wood, Ed Harris, Tessa Thompson, Luke Hemsworth, Thandie Newton, James Marsden, Jeffrey Wright, Rodrigo Santoro, Fares Fares, Simon Quarterman
Emissora: HBO
Gênero: Aventura, Drama
Duração: 58 min.