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A segunda temporada de Westworld tem se mostrado bastante hesitante, com bons episódios intercalados com outros abaixo da expectativa. Phase Space, sexto capítulo da temporada, no entanto, veio como exceção, demonstrando uma série de problemas mesmo após o decepcionante Akane no Mai. Desde já procuro deixar claro que o problema maior não está na trama geral em si e sim na forma como ela é contada, caindo nas mesmas ciladas de seu antecessor e da outra grande atual série da HBO, Game of Thrones – ao menos em partes. Mesmo com isso em mente, ainda não podemos dizer que essa temporada esteja perdida (ainda estamos na metade), mas já levanta dúvidas sobre o futuro desse segundo ano.

Um dos maiores problemas de Akane no Mai foi a intercalação entre os núcleos de Dolores e Maeve, criando constantes rupturas na narrativa, gerando um visual geral extremamente contrastante que, em última análise, acaba criando estranhamento em nós, espectadores. Além disso, os dois arcos pouco dialogam entre si, mesmo ambas sendo anfitriãs buscando a liberdade – o caráter da jornada de Maeve é consideravelmente mais pessoal, enquanto que Dolores mais aparenta estar lutando pelo seu ‘povo’. Essa falta de um cuidado maior por parte do roteiro, em colocar as duas histórias paralelamente, em um capítulo só, é explicitada aqui em Phase Space, ao passo que o episódio termina com o desfecho desse arco em Shogun World, algo que facilmente poderia ter sido deixado para o episódio anterior, fazendo alguns pequenos deslocamentos.

O resultado é uma conclusão anticlimática, apressada e, claro, insatisfatória, que mais passou a impressão de tudo no mundo dos samurais, ninjas e geishas não passar de um grande filler. Nem mesmo o duelo entre os dois samurais conseguiu trazer algum pingo de satisfação, visto que a coreografia parece ter sido feito às pressas, sendo um tanto sem inspiração. Assim sendo, o capítulo da semana de Westworld tem início com um fim e, a partir daí, seguimos para uma sucessão de ‘meios’, em um episódio que carece da estrutura básica de início, meio e fim.

critica westworld 2x06 phase space

“Mas estamos falando do capítulo de uma série e não de um filme”. Sim, claro. É de se esperar que a história em si não seja fechada, que pontas soltas sejam deixadas ao longo do caminho, mas grandes séries como Família Soprano, Mad Men, Breaking Bad, Fargo e a ainda não finalizada Better Call Saul mais que provaram que cada um de seus episódios pode manter uma estrutura com princípio, meio e fim ao mesmo tempo que montam um quadro maior. Isso traz aquela velha sensação de recompensa ao terminar cada episódio, não sendo necessários cliffhangers baratos para manter a audiência cativa – como tem sido o caso em Westworld nesse seu segundo ano (vide o samurai correndo no fim de um episódio, Teddy tendo sua personalidade alterada em outro e, agora, Ford aparecendo naquele mundo em realidade virtual). Tudo, dessa forma, se baseia nos momentos finais, jogando para o escanteio todo o resto.

Prova disso é o quão acelerado foi o ritmo de todo núcleo de Maeve nesse capítulo, que encontrou sua filha da forma mais ‘sem graça’ possível, sem qualquer peso dramático, com os roteiristas dependendo mais de plot twists (a outra mãe aparecendo) do que do desenvolvimento emocional de seus personagens. O simples fato dela encontrar sua filha já deveria ter trazido o velho arrepio, a sensação de que chegamos a um ponto importante da história da personagem, mas a realidade não poderia estar mais distante disso e em meros instantes qualquer drama que poderia se desenvolver ali é substituído por índios atacando o local, fazendo tudo voltar ao agitado, porém nada inspirado normal.

Não bastasse isso, temos constantes trocas para outros núcleos em um episódio claramente lotado, intercalando entre Maeve, Dolores, Bernard e William, jogando fora a estrutura mais funcional (porém não infalível) de duas subtramas por semana. Mais uma vez, é perdida a emoção de cada cena, ao passo que poucos arcos dialogam entre si diretamente – aliás, a óbvia conexão entre Dolores e William e seu comum destino foi jogada fora, já que a anfitriã simplesmente esqueceu de para onde ia antes de reencontrar seu pai.

Ao menos, individualmente, o núcleo de William funciona, principalmente em razão da atuação de Ed Harris, que transmite grande peso à interação com a filha de seu personagem, deixando clara toda a dor que guarda dentro de si através das lágrimas contidas. Mas isso não vem como grande surpresa, já que o Homem de Preto vem se mostrando um dos mais fascinantes personagens da série desde a primeira temporada, possivelmente o único com um destino claro dentre todos os outros.

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Bernard, por sua vez, busca entender o que acontece no parque e mais serve como um guia para as grandes revelações da temporada do que um personagem orgânico em si. Não há objetivo por trás de suas ações, apenas um excesso de roteirismos que o levam do A para o B, algo ainda mais comprometido pela insistência do texto em trabalhar com diversas linhas temporais distintas de maneira confusa, não porque isso é relevante para o seriado em si, mas para criar a sensação de que estamos vendo algo inteligente, quando nada, na realidade, foge muito do óbvio (afinal, Ford ter guardado sua consciência no parque já era mais que óbvio, afinal, ele conversa com William desde o primeiro capítulo, ‘pulando’ de anfitrião em anfitrião).

Por fim, Dolores também continua com sua história no modo automático, gerando um pouco de surpresa em razão das ações do novo Teddy, mas nada além disso. Mais um arco que vive através do cliffhanger, como foi mostrado com a explosão do trem.

Assim sendo, Westworld, através de Phase Space, mostra que se preocupa mais com seus ganchos e plot twists do que com a trama geral e até mesmo as individuais em si. Temos aqui um capítulo sem início, meio e fim, que, ao término da exibição, não consegue trazer qualquer tipo de reação, a não ser o sono de ter acompanhado esses personagens, quase todos carentes de objetivo, por uma aproximadamente hora. Essa série realmente precisa se reencontrar.

Westworld – 2X06: Phase Space (EUA – 2018)

Criado por: Jonathan Nolan, Lisa Joy
Direção: Tarik Saleh
Roteiro: Carly Wray
Elenco: Evan Rachel Wood, Ed Harris, Tessa Thompson, Luke Hemsworth, Thandie Newton, James Marsden, Jeffrey Wright, Rodrigo Santoro, Fares Fares, Simon Quarterman
Emissora: HBO
Gênero: Aventura, Drama
Duração: 60 min.