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Contos de fada sempre povoaram o imaginário das pessoas. Afinal, é de se esperar que alguém tenha crescido ouvindo os clássicos de Hans Christian Anderson ou dos Irmãos Grimm, deitando-se à noite na cama e sonhando com mundos fantásticos, princesas e príncipes – e antagonistas assustadores. Mas o que acontece quando uma mente tão brilhante quanto a de Gregory Maguire decide transgredir todas as normas que conhecemos numa estória para nos fornecer uma perspectiva que ninguém havia pensado antes?

Em 1995, o escritor estadunidense supracitado decidiu resgatar o conto de O Mágico de Oz, criado por L. Frank Baum em 1900 que contava a vida e as aventuras da jovem Dorothy Gale e sua jornada inesperada à longínqua e misteriosa terra de Oz, na qual encontra diversas criaturas sedentas por cumprirem seus desejos – e outras não tão amigáveis assim. De qualquer modo, fomos apresentados a um ponto de vista e não sabemos o que estava acontecendo neste território desconhecido antes da chegada da garota; é exatamente sobre isso que Maguire pretende discorrer em Wicked – A História Não Contada das Bruxas de Oz. E as coisas não poderiam ser mais chocantes: pelo que tudo indica, a Bruxa Má do Oeste é revelada como uma vítima cujas ambições são suprimidas por um regime totalitário comandado pelo Mágico; a Bruxa Boa do Norte é na verdade uma patricinha fútil que não se importa com ninguém além de si mesma. E a sociedade oziana (gentílico adotado pelos habitantes de Oz, obviamente) está prestes a ruir em disparidades sociais e pobreza.

Tudo parece uma grande brincadeira de mau gosto ou uma sátira novelesca. Três anos antes da publicação de Wicked, Geoff Ryman já havia lançado sua obra, Was, mas como forma de manter o poder da fantasia e da arte, provocando em seus leitores meditações e divagações profundas sobre estas vertentes. Mas aqui as coisas são diferentes. A premissa principal resume-se mostrar os dois lados de uma mesma moeda e dizer que as pessoas que se portam como antagonistas na verdade não são piores que o restante de nós. Não digo que o autor trate a obra original com desrespeito, mas sim como um diamante a ser lapidado: os personagens aparecem, obviamente, mas em arcos diferenciados e, por vezes, assustadores, embebidos em pretextos que culminam em atos e escolhas quase inumanas. E apesar do tom dramático e provocativo, a narrativa de desenrola de forma tão fluida que nos faz mergulhar num universo novo em questão de segundos.

Em Wicked, como já citado, Elfaba (a futura Bruxa Má do Oeste) não é a antagonista, e sim uma criação mal compreendida que foi, de certo modo, abandonada pela família por ter nascido com a pele verde e por não poder entrar em contato com a água, além de ter dentes proeminentes que assustavam a qualquer um que ousasse chegar perto dela. Em contraposição, Glinda (a futura Bruxa Boa do Norte) emerge como uma socialite hipócrita obcecada pelo dinheiro e por status e cuja futilidade é exatamente o que Elfaba condenaa. O Mágico, por sua vez, é o grande vilão, pois ainda que Glinda não seja flor que se cheire, suas intenções não são ruins. Mas o governante na verdade é um déspota tirano que destronou a Rainha Ozma para tomar a força o poder e ameaçar exterminar aqueles que ousassem lhe impedir ou lhe contrariar.

Elfaba é o que podemos chamar de arquétipo do idealismo anárquico e da coragem dos rebeldes que deseja estampar na cara da sociedade todas as mazelas sob as quais ela vive. Logo depois de entrar na Faculdade de Shiz, nome concedido em homenagem ao centro comercial de Oz e local onde todos os seus valores são colocados em cheque ao conviver com pessoas tão supérfluas e que a maltratam, ela se envolve na luta pelos direitos dos Animais (com A maiúsculo mesmo), uma classe que se diferencia do restante dos animais por ter a capacidade de falar. Para tanto, sua vida começa a ser permeada por outros personagens de cunho moralista, como o Doutor Dillamond, um Bode que realiza experiências antropológicas, Madame Morrorosa, que trabalha secretamente para o Mágico, e Nessa – sua irmã e futura Bruxa Má do Leste – que se encanta com uma vida que nunca pôde ter por conta de seu passado.

Após encontrar as vertentes extremistas da luta social, a protagonista abandona a escola, torna-se uma anarquista e se esconde. Depois que seu amante, Fiyero, é assassinado por soldados do Mágico, ela se une a um grupo de monjas, para cuidar dos fracos e doentes. Mas, durante uma longa jornada que eventualmente a leva de volta para sua própria casa, Elfaba se torna tão desiludida e paranoica que, mais breve que o esperado, abraça seu destino como Bruxa Má do Oeste.

Elfaba é uma personagem completa: complexa e problemática como todo ser humano e, por isso mesmo, torna-se emblemática. Apesar de todos os personagens também serem assim, com ela a visão multidimensional é muito mais clara. Ela é supostamente a heroína e aquela para a qual devemos sempre torcer. Mas por mais que saibamos que ela não passa de uma vítima de uma sociedade intolerante, corrupta e preconceituosa, suas próprias ações denunciam a quebra dos paradigmas heroicos que conhecemos. Sua mente está em constante mudança e é bombardeada por excentricidades que a levam em caminhos opostos ao que deveria. Entretanto, sabe muito bem diferenciar uma escolha individualista de outra social. E obviamente não podemos esquecer sua inteligência – algo notável não só no seu modo de agir, mas também em suas reflexões sobre a vida e o mundo (seja no campo espiritual, seja no terrestre).

“Eu nunca uso as palavras humanista ou humanitário, pois me parece que ser humano significa ser capaz dos crimes mais hediondos da natureza.”

A riqueza de detalhes de Maguire para descrever Oz também merece destaque. Não espere encontrar descrições precisas de lugares, lendas e criaturas como nos livros de J.R.R. Tolkien por exemplo, pois nem mesmo os próprios ozianos parecem conhecer Oz realmente – tanto que existem inúmeras teorias sobre como o mundo foi criado, sobre Deus, sobre o surgimento dos Animais, entre outras coisas. A riqueza de detalhes que me refiro encontra-se exatamente nos elementos que acabei de citar. Tudo é extremamente mundano e ordinário; seja nas discussões e questionamentos sobre a vida (tanto no aspecto natural/terreno quanto no sobrenatural/divino), seja nos problemas das pessoas e o modo como elas reagem a eles, seja na ignorância e na falta de compreensão dessas mesmas pessoas ao não conseguir conceber o diferente e tratá-lo com hostilidade e intolerância: tudo isso faz com que você esqueça na maior parte do tempo que está lendo um livro de fantasia. E apesar de causar estranheza no início, essa abordagem inusitada te faz ficar cada vez mais fascinado com esse universo complicado e por vezes espantoso.

O maior triunfo do livro sem dúvida está em suas reflexões. Não apenas sobre natureza do bem e do mal, mas sim na abrangência dos diversos níveis da psiquê humana. Nenhum personagem é unilateral ou linear quando falamos do caráter, e isso faz com que tanto eles quanto o leitor questionem e duvidem de seus pensamentos e ações o tempo inteiro. Assim como todos nós, perguntam-se qual a escolha mais sensata a se fazer, ainda que isso contrarie os seus princípios ou os da comunidade em que vivem. Maguire tenta mostrar através da história de Elfaba que conceitos de personalidade não são definitivos, e que o certo e o errado não se resumem ao que nos ensinaram. Nós mesmos somos colocados à prova em cada parágrafo minuciosamente escrito pelo autor; depende apenas de nós englobar a sabedoria necessária para discernir e compreender tudo isso (confesso que várias vezes durante a leitura, parei e pensei: “caramba, isso faz muito sentido.”)

“Glinda usava suas contas de purpurina, e você usava sua aparência exótica e sua história, mas vocês não estavam fazendo a mesma coisa, tentando maximizar o que tinham para conseguir o que queriam? As pessoas que se dizem más normalmente não são piores do que o resto de nós. – Ele suspirou. – É com as pessoas que se dizem boas ou melhores do que o resto de nós que devemos nos preocupar.”

Wicked é o tipo de livro que te deixa intrigado, incomodado, desconfortável e em alguns momentos inconformado, como toda boa obra de arte, e isso torna sua leitura obrigatória. As recomendações em sua contracapa são verdadeiras: reserve um espaço para a obra entre “Alice no País das Maravilhas” e “O Senhor dos Anéis”. Pois uma fusão entre fantasia e realidade que consiga fazer o que este livro fez, definitivamente merece um lugar especial.

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