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Chega até ser clichê começar uma crítica de filmes de super heróis com o primeiro parágrafo dedicado a contextualizar o “gênero” após o autor citar Bryan Singer e sua primeira investida na franquia em 2000. Todos sabemos de sua contribuição e de seu experimento que deu certo. Mas foi com X-Men 2 que o competente diretor provou que um filme de herói também pode ser um excelente filme de gênero. Obviamente isso já havia sido provado antes, em partes, por Richard Donner, mas foi com este que a pegada mais pé no chão de se lidar com super seres entrou em sintonia com a maturidade narrativa. 

A história tem início com um Noturno vítima de lavagem cerebral atacando o presidente dos Estados Unidos e falhando em sua tentativa de matá-lo – por roteirismo, claro. O evento moverá a trama adiante até a apresentação do vilão, William Styker, representando a resposta ao ataque com uma ofensiva antimutante, pegando elementos diretos de Deus Ama, o Homem Mata. Logo nessa sequência de abertura já é perceptível a melhora de Bryan Singer na encenação de suas sequências de ação, assim como Sam Raimi evoluiu do primeiro para o segundo Homem-Aranha e Joss Whedon do primeiro para o segundo Vingadores. Com a tendência de maior orçamento em continuações, Singer tem a liberdade para exibir toda sua criatividade.

Ainda apostando em movimentos clássicos, sem cortes excessivos, Singer nunca deixa o foco se perder durante o ataque do mutante azul, apostando em diferentes pontos de vista, sabendo aproveitar bem os poderes do personagem. A trilha escolhida, a ópera “O Fortuna de Carl Off” apenas ajuda a tornar a cena absurdamente memorável. 

Porém, engana-se quem pensa que a sequência de abertura é a única grande se comparada ao restante do filme. Há, pelo menos, 3 que, se não se equiparam, ao menos chegam perto. A fuga de Magneto de sua prisão de plástico com atuação hipnotizante de Ian McKellen (como esquecer o “No” do vilão ao perceber que há muito “ferro no sangue” do guarda?), o ataque a Mansão Xavier, tenso e mostrando um Wolverine mais selvagem e a luta final entre Wolverine e Lady Deathstrike, mais visceral e violento. 

E, como todo bom blockbuster, não é somente na ação que X-Men 2 se destaca dos demais mas no desenvolvimento dos personagens. O trabalho aqui realizado nesse sentido é digno de aplausos. Não só explorando o passado do Wolverine e sua relação com o antagonista, que só fica melhor para quem possui conhecimento extra fílmico – o que por si só já é melhor trabalhado do que toda a porcalhada de X-Men Origens: Wolverine, mas também com coadjuvantes como Pyro e sua virada para o outro lado lentamente construída, Homem de Gelo e Vampira, Noturno em excelente caracterização religiosa tendo de lidar com os seus feitos no início do filme e Tempestade que agora desempenha o papel de líder. Quem sofre mesmo é Ciclope de James Marsdsen, completamente jogado para escanteio. Por consequência, sua relação com Jean também não recebe o trato necessário. Outros mutantes como Colossus, alguns dos já citados coadjuvantes,  a vilã unidimensional, Lady Deathstrike, também são subaproveitados. 

O vilão, igualmente como os heróis, recebe uma motivação bem trabalhada, com bons diálogos, um plano de ação coerente e trabalho inspirado de Brian Cox. Entretanto, quem mais uma vez rouba a cena é a dupla composta peloo Magneto de Ian McKellen, com todo o charme característico, e Mística, agora obrigados a se aliarem com os X-Men. Suas cenas de interação com a equipe são excelentes e o espectador fica a todo momento atento a qualquer sinal de possível traição.

Singer também encontra espaço para se dedicar a momentos verdadeiramente tocantes e intimistas, reforçando a conexão com o público, como em uma na casa de Bobby Drake, o Homem de Gelo, em que este se assume um mutante para sua família e é recebido com olhar de reprovação fazendo uma alegoria a situações similares de jovens que se assumem homossexuais e a cena na fogueira com a equipe e Magneto. 

Entretanto, a obra não escapa de algumas falhas de roteiro como ter de engolir que Mística se passou todo esse tempo como Senador Kelly (do primeiro filme para esse) sem ninguém perceber algo de errado, a coincidência absurda de Tempestade parar o jato justamente no local em que se encontra Magneto, o sacrifício estúpido de Jean Gray no final visto que ela poderia ter feito o que fez de dentro do jato, a conveniência de Wolverine identificar os disfarçes de Mística no primeiro filme mas não nesse aqui e o final sem sentido com Xavier e os mutantes encarando o presidente com cara de mau sem nem mesmo explicar a causa do ataque de Noturno. Alguns podem relevar tais falhas e alegarem que não atrapalham a experiência. Para mim, tira o brilho do que poderia ter sido um roteiro quase impecável se melhor lapidado.

Falta também o investimento em cenas que fujam da ação blocada. Perceba que nunca vemos a equipe trabalhando junta. Todas as 4 sequências de ação que citei acima e todo o clímax são divididos em blocos específicos de personagens, fato que só seria mudado e lidado corretamente 11 anos depois em X-Men: Dias de um Futuro Esquecido.

X-Men 2 expande o que conhecíamos como filme de super herói antes de 2003. Bryan Singer prova que uma obra desse calibre pode sim ter cenas de ação fantásticas e ainda assim se preocupar com seus personagens, dedicando momentos sutis e verdadeiros para dar peso e empatia a eles – pelo menos a maioria. Existem falhas na escrita sim e que, talvez, exijam demais da suspensão de descrença do espectador, mas que são incapazes de mudar o fato de que a obra deixou o gênero na reta de Hollywood para ser explorado com narrativas mais densas e transformar o fantasioso das páginas dos quadrinhos em algo relacionável. Bryan Singer acertou novamente. Não com sua visão para filmes de ação mas com sua visão para bons filmes.                                   

X-Men 2 (X2: X-Men United, EUA – 2003)
Direção: Bryan Singer

Roteiro: David Hayter, Michael Dougherty, Dan Harris
Elenco: Hugh Jackman, Patrick Stewart, Ian McKellen, Brian Cox, Halle Berry, Famken Janssen, James Marsden, Anna Paquin, Rebeca Rominj, Allan Cumming, Shawn Ashmore, Bruce DAvison, Aaron Stanford
Gênero: Aventura, ação, super heróis
Duração: 134min.

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