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Brian K. Vaughn já não era mais um zé-ninguém quando lançou o primeiro fascículo de Y: O Último Homem em 2002. O roteirista já havia ganhado certa expressividade na Marvel fazendo boas fases com os personagens da Casa das Ideias, mas alcançou grande prestígio com a minissérie do Doutor Estranho contando a origem do personagem em O Juramento.

Isso catapultou sua carreira a ponto de conseguir convencer a Vertigo a investir em uma história de sessenta publicações que traria o clima de um apocalipse zumbi, apesar de nada ter a ver com zumbis. Com Y: O Último Homem, Vaughn traria uma incrível história envolvendo uma hipótese arrasadora: e se, de uma hora para outra, todos os portadores do cromossomo Y morressem na Terra?

Um Mundo de Mulheres

Com uma ideia tão interessante como essa, não é difícil acreditar que Y: O Último Homem seja uma obra, no mínimo, interessante. O leitor é convidado a acompanhar a história de Yorick Brown e seu macaco capuchinho Ampersand. Yorick, um artista de fuga amador, é desempregado e depende dos pais para sobreviver, mas já planeja seu futuro com a namorada a qual pretende pedir em casamento.

Vindo de uma família de destaque, ele é o único que ainda não encontrou seu propósito na vida. Mas o destino reserva um propósito muito além do que ele seria capaz de imaginar. Em uma tarde mundana, num horário qualquer, absolutamente todos homens morrem na Terra. Apenas Yorick e seu macaco sobrevivem.

Dois meses depois do acontecimento que devastou o mundo com grandes tragédias de infra-estrutura e falta de mão de obra para operar diversas áreas vitais da sociedade, a civilização está na beira do colapso. Yorick finalmente consegue chegar até Washington onde sua mãe trabalha como parlamentar democrata.

Com a reunião improvável dos dois, o resto que sobrou do governo e da civilidade, decidem mandar Yorick junto com uma agente especial para resgatarem a única geneticista que pode garantir a salvação da raça humana e criar uma vacina de uma possível mutação do vírus que matou os homens instantaneamente.

Em uma história cujo universo abre inúmeras possibilidades para criação de mitologia, Vaughn não faz feio. Através do Volume 1 que reúne as dez primeiras edições da publicação, o roteirista estabelece de modo satisfatório as regras do mundo que o leitor será imerso. Ao contrário do que muitos pensariam na felicidade de ser o último homem da face da terra, Vaughn apresenta uma visão mais realista envolvendo o perigo de ser um espécime valioso para diversos grupos radicais.

Mesmo que mantenha sempre o bom humor da história com as tiradas repletas de referências de Yorick, o rapaz ainda imaturo sofre diversos choques de realidade no caminho tendo que sobreviver a tentativas de sequestro e assassinato. A morte é uma companhia constante em Y: O Último Homem desde a primeira página. Vaughn é particularmente bem-sucedido em mostrar as diferentes feminilidades entre um grupo de mulheres e outros.

Muito disso vem através da forma que ele cria as situações de violência. Com descuidos e diversas vezes movidas pela paixão, as mulheres agem e depois reagem ao próprio feito com tremendo choque. O dom pela matança e carnificina só é nutrido e apreciado pelo grupo antagonista da obra, as feministas radicais intituladas de Amazonas. O autor demonstra a histeria coletiva sob a tutela de uma figura ditatorial misândrica que, a partir do momento que descobre a existência de Yorick, passa a caçá-lo por um longo caminho.

O interessante da história é que Vaughn raramente se vale dos momentos menos acelerados para expandir personagens que ele não pretende investir por muitas edições. Logo, há toques de maniqueísmo simplista no lado antagonista, mas isso é uma boa desculpa para introduzir uma reviravolta bastante impactante na experiência da leitura dessa primeira edição que certamente tiraria o prazer do leitor caso eu revelasse. Apenas aponto que os dois lados da balança entre o bem e o mal são equilibrados por uma sacada digna das narrativas trágicas gregas.

Como apontei, ler Y: O Último Homem é uma aventura apressada, pois as reviravoltas acontecem e mudam as regras do jogo a todo momento – Robert Kirkman se vale dessa estrutura em The Walking Dead do mesmo modo que Vaughn utiliza aqui. O protagonista é moldado por esses fatos até se tornar um novo personagem ao fim do volume. A jornada de transformação é clara.

O que realmente pesa contra a obra, apesar de ser divertida e muito interessante com diálogos bem escritos, são as personagens coadjuvantes. Tanto a agente especial como a cientista trazem arcos individuais que parecem dignos da atenção do leitor em primeiro momento, mas muito é jogado em cima disso com sequências de ação que visam explicar como as Amazonas sempre estão no encalço de Yorick.

Como as personagens são constantemente interrompidas, logo se tornam enfadonhas e com pontos estacionados em suas narrativas individuais. O mesmo acontece com um arco paralelo envolvendo agentes israelenses que procuram Yorick por um motivo nunca revelado. Simplesmente não há substância ou humanidade o suficiente para o leitor se importar com o desfecho desses arcos já tão rudimentares em seu estabelecimento.

Vaughn falha somente nesse aspecto, conseguindo manter o protagonista uma figura interessante e bastante conflituosa. Já na arte de Pia Guerra, há um grande show de traços fortes e contornos bem delineados mostrando perfeitamente a ação entre quadros, muito embora a desenhista não aposte muito no suspense, já que a diagramação do layout dos quadrinhos raramente foge do básico.

Onde Guerra está mais inspirada certamente é no primeiro fascículo, repleto de transições inteligentes e mudanças de linhas temporais claras para o leitor. A artista também merece crédito pelo trabalho árduo com sequências noturnas muito bem detalhadas com multidões reunidas capturando o caos e insegurança desse novo mundo.

Em geral, a arte é fascinante e pouco confusa já que a desenhista também dedica detalhes minuciosos na criação de seus personagens com diferentes cortes de cabelo, postura e figurino. É tudo realmente muito bem desenvolvido.

 

Uma Jornada longe de terminar

Y: O Último Homem já vai virar série de televisão com lançamento para um futuro próximo. A história é riquíssima e pelas exigências da narrativa, há pouco custo envolvido com locações nem tão complexas. Novamente, a força da história de uma outra mídia que deve agitar o mercado da televisão. Mas nem mesmo por isso que o leitor deveria adiar a leitura da HQ.

Com publicação recente no Brasil, Y: O Último Homem pode ser encontrado com pouco esforço. Certamente a história de Yorick, já em seu comecinho, é capaz de levar a diversas reflexões importantes sobre a realidade do mundo que nos cerca. E de como tudo pode ir pelos ares na mais improvável das mudanças.

Y: O Último Homem – Volume 1 (Y: The Last Man – Book One)

Autor: Brian K. Vaughn
Arte: Pia Guerra
Cores: José Marzán Jr.
Editora: Vertigo

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