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A nossa jornada com Yorick Brown finalmente chega ao fim. Depois de sessenta fascículos, Brian K. Vaughn conclui seu projeto mais autoral até aquele ponto de sua carreira em 2008 quando Saga ainda era apenas um projeto de sonhos. Em uma aventura editorial que durou seis anos até o término completo de Y: O Último Homem, foi possível ver todo o potencial que o autor demonstrava a cada novo capítulo em sua fascinante história na Vertigo.

Nesse último e quinto volume que, detalhe, ainda não foi publicado pela Panini no Brasil, acompanhamos a culminação final da jornada sacrificante de Yorick para encontrar Beth e descobrir as origens da praga que devastou todas as criaturas que portavam o cromossomo Y da face da Terra. E os prognósticos de um mundo que pode encarar a extinção da raça humana.

Quanto Maior é a Promessa

Existe um certo senso comum bastante sábio que atormenta a mente criativa de qualquer realizador de entretenimento. Criar um pontapé inicial para uma narrativa é o menor dos desafios, afinal em Y: O Último Homem tudo que Brian K. Vaughn teve que fazer era explorar aquela frase muito comum envolvendo “ser o último homem da Terra”.

Quando levado na literalidade como é no caso dessa narrativa, é evidente que temos um cenário apocalíptico bastante forte e que foge muito bem do clichê tema dos zumbis, permitindo mostrar as mais diversas consequências de um mundo sem homens. Entretanto, para que isso seja crível, é preciso alguma explicação, no mínimo, lógica para um acontecimento de magnitude gigantesca.

Vaughn, no caso, optou pelo caminho mais difícil ao mostrar todos os homens morrendo ao redor do globo no mesmo segundo. Ou seja, para responder essa questão de suma importância, é preciso que haja uma resposta tão convincente quanto. Infelizmente, não é isso o que ocorre.

O leitor rapidamente é agraciado com respostas bastante absurdas para um evento absurdo que, em primeiro momento, até cumprem o papel narrativo, jogando toda a simultaneidade do evento como uma vontade súbita da natureza decorrente de certo acontecimento biológico. Há muito foco na dra. Allison Mann e em sua história, trazendo os momentos mais íntimos de seu passado que realmente elevam a qualidade do trabalho dúbio que Vaughn havia apresentado no volume anterior.

A personagem cresce e seu núcleo se torna interessante a ponto de Yorick, inexplicavelmente, regredir seu desenvolvimento e se tornar um cara imaturo e irritante. Vaughn, pelo menos, consegue tornar esse primeiro clímax narrativo em algo elaborado juntando os pontos de completa provação para Mann e 355 que são obrigadas a superar o maior dos desafios enquanto esgotadas por toda a carnificina da jornada.

Funcionando muito bem como uma despedida das personagens, o arco termina satisfatoriamente e talvez seja o melhor da HQ até sua conclusão. Infelizmente, apesar de ainda manter alta qualidade em seu trabalho para os capítulos finais da saga, o roteirista apela tremendamente para juntar todos os personagens secundários importantes no mesmo local para oferecer a conclusão.

Embora haja alguns capítulos de enrolação focando novamente no núcleo das soldados israelenses e do grupo de Hero, Vaughn entrega momentos valiosíssimos entre 355 e Yorick, contrastando depois quando o rapaz finalmente encontra Beth no final da jornada. A diferença do tratamento, por mais sutil que seja, são créditos completos das sacadas visuais de Pia Guerra, dominando a arte em mostrar desolação, carinho, decepção e tensão sexual.

Toda essa junção de núcleos oferece sim o senso de urgência e perigo iminente que conseguem transformar a vida de Yorick ao ponto de ruptura na qual o herói precisa começar a traçar o próprio destino e lidar com as consequências terríveis do segundo clímax da obra, novamente desenhado com perfeição. No final, outra explicação é oferecida para os eventos que deram a origem à toda a jornada de Yorick, mas são tão impossíveis de acontecer quando à explicação anterior.

Vaughn sai pela tangente ao afirmar que em um mundo já afetado mentalmente por toda a guerra e caos, nada mais faria sentido, pois o equilíbrio foi completamente arruinado. Não explicação lúcida em mundo insano. Insanidade essa que acaba por dar o tom agridoce do epílogo da obra que, apesar de belo, possui formato incômodo com o autor decidindo pelo desfecho aberto e pouco digno para todo o desenvolvimento repleto de catarses para Yorick.

O Último Homem

Vaughn brilha ao manter o foco da narrativa com os momentos fortíssimos e emocionantes que atingem Yorick, Beth e 355 no final da história, mas essas pérolas são momentos mais seletos, pois o autor faz muita questão de focar em núcleos menos interessantes liderados por Hero e sua turma lidando com um lado antagonista totalmente exaustivo e esgotado.

Desse modo, Y: O Último Homem é uma ótima história, repleta de defeitinhos comuns que não chegam a incomodar, mas certamente era uma aventura com potencial maior. Analisando pelo o que o quadrinho é, se trata de uma ótima experiência para Vaughn que novamente brilharia no futuro com o maior acerto de sua carreira.

Y sempre será lembrada como uma ótima história, mas repleta de desenvolvimentos joviais e erros comuns que a impedem de ser absolutamente inesquecível. Um grande exemplo para provar como as histórias mais simples e básicas do “e se?” acabam por render verdadeiros momentos maravilhosos, mesmo que poluídos por más escolhas nutridas seja pela editoria ou por um autor ainda jovem demais. Assim como seu protagonista.

Y: O Último Homem – Volume 5 (Y: The Last Man – Book 5, EUA)

Roteiro: Brian K. Vaughn
Arte: Pia Guerra
Editora: Vertigo

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