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A atemporalidade das peças de Arthur Miller é um ponto sempre muito importante a ser levado em consideração quando alguém resolve mergulhar fundo em seus textos. Ainda que Morte de um Caixeiro Viajante configure-se como uma de suas investidas mais famosas, trazendo inúmeros temas para uma autorreflexão bruta e realista por parte público, é em As Bruxas de Salem que o dramaturgo encontra sua real identidade, criando um microcosmos que mistura passado e presente através de uma narrativa sobrenatural e analítica. Além disso, faz-se necessário entender que as criações de Miller procuravam analisar a sociedade norte-americana de modo a encontrar um real significado para “sonho americano” – lema de vida carregado por grande parte da população; desse modo, não é nenhuma surpresa que os diálogos que arquiteta sejam carregados de uma perspectiva sociológica muitas vezes mascarada por arquétipos cênicos.

Toda essa extensa estrutura foi relida para as telonas em 1996 pelo diretor Nicholas Hytner. Apesar de conseguir manter a poesia das sequências mais dramáticas e de conseguir utilizar de elementos teatrais para compor sua própria subjetividade honrosa, talvez o grande problema do longa-metragem seja sua existência. Falando com tais palavras, parece que o produto final é sinônimo para desperdício e desnecessidade, e não é exatamente isso o que procuro dizer: em uma visão mais distanciada, tal obra é satisfatória dentro de seus limites, mas em nada contribui para uma possível nova interpretação da peça ou mergulho dentro do místico universo que cria.

O filme se inicia com uma sequência angustiante, na qual inúmeras garotas correm em direção a uma enevoada floresta para se encontrarem com a escrava africana Tituba (Charlayne Woodard), a qual prometeu ajudá-las em alguns feitiços amorosos. Cada jovem traz um pequeno souvenir, por assim dizer, para que seus pretendentes possam se apaixonar por elas – e nesse meio há a figura pálida e inexpressivamente assustadora de Abigail Williams (Winona Ryder), cuja personalidade inclina-se para o adultério e para a vingança (afinal, ela deseja a morte da esposa de seu “futuro homem”). Toda a construção imagética é pautada numa montagem brusca e que reflete o inebriante sentimento de confusão e tensão que se alastra à medida que as moças começam a dançar em torno de uma fogueira; o uso de cores mais frias ressalta a morbidez da cena, inclusive quando contrastado com a acidez do sangue que eventualmente dá às caras.

E é com a resolução desse pequeno prólogo que as coisas começam a desandar. Uma das garotas mais jovens acaba tendo um ataque de pânico e fica desacordada por vários dias, atraindo a atenção do Reverendo Parris (Bruce Davidson), que também presenciou as personagens em questão dançando nuas no meio da floresta. A partir daí, percebemos que a narrativa toma um rumo mais religioso e tradicionalista que conversa com os valores cristãos da época, marcada pela imigração da comunidade inglesa para a América e a continuação de sua cultura conservadora. E levando em consideração o período (final do século XVII), teremos sim uma grande influência da mentalidade pós-Inquisição, que perdurou durante vários anos e foi um dos maiores responsáveis pela condenação em massa da cidade de Salem.

Abigail é a encarnação do individualismo; ainda que pregue valores católicos e porte-se como uma “moça de respeito” aos olhos daquela comunidade patriarcal, ela pensa apenas em si mesma e como pode agir em prol de salvar-se da forca. Ela, pois, consegue convencer grande parte das jovens que a acompanharam para a floresta e começa uma rede de mentiras, dizendo-se portar a Luz de Deus e ter sido escolhida para limpar o vilarejo dos malefícios do Diabo – ou seja, ela começa a mentir. E se há algo que Miller, responsável também pelo roteiro, sabe fazer de melhor é manter-se fiel às raízes que resolve explorar, principalmente através do diálogo e dos acontecimentos. Em compensação, ainda que o ritmo narrativo ganhe sua constância, Hytner não consegue seguir o mesmo compasso e perde-se inúmeras vezes, ora nos apresentando a sequências mais dinâmicas, ora a mais monótonas, sem encontrar qualquer equilíbrio.

Além disso, sabemos que o filme traz sua essência teatral de forma bastante clara e inadequadamente profusa; desse modo, após chegarmos a meados do segundo ato, passamos a encarar uma crescente monotonia e repetição de fatos que seria compreensível caso o diretor optasse pela estética do “teatro filmado”. Sua pobre perspectiva tenta ousar indo além do óbvio, mas acaba rendendo-se a zona de conforto e opta por planos gerais que enquadrem a maior parte dos personagens em detrimento de algo mais intimista e claustrofóbico, visto que os personagens estão enclausurados em uma grande bolha de falso moralismo e hipocrisia exacerbados. O máximo que ele consegue, e que também insurge como uma saída repetitiva, é a câmera deslizando pelo cenário e mudando o foco do público para o que deseja ser visto – mas ainda assim é algo muito restritivo e modelador.

O conflito principal emerge quando uma parcela da comunidade ousa enfrentar o poder incontestável da Igreja, a qual é representada tanto pelo Reverendo quanto pelo Juiz Danforth (Paul Scofield). Tal grupo é inconscientemente liderado pela transgressora figura de John Proctor (Daniel Day-Lewis), um fazendeiro com bastante afinidade pelas causas nobres e que percebe em Abigail uma complexa mesquinhez cujas consequências tornam-se drásticas. Através de todas essas mentiras, Proctor acaba perdendo tudo, inclusive sua esposa Elizabeth (Joan Allen) para acusações sem fundamento e que servem como base para condenar mais da metade dos habitantes à forca. Ele eventualmente encontra a sua ruína e sua aceitação em um momento de epifania social chocante e que leva a um dos gloriosos momentos do filme: o frame final.

Mais uma vez, os problemas aparecem nas técnicas fílmicas – e agora alastram-se para alguns diálogos preguiçosos. Há certo momento que se passa em um dos inúmeros julgamentos em que a ré tenta se defender e é brutalmente atacada por comentários que, ao invés de serem pejorativos, tornam-se cômicos por não terem qualquer nexo com a história ou com a ambiência em questão.

Em suma, As Bruxas de Salem é uma obra monotonamente aceitável. Apesar de toda o estruturalismo poético que reside em seu arcabouço, a falta de identidade e de preocupação estética fala mais alto. O triste e até mesmo irônico é pensar que Miller tenha participado ativamente da produção do longa e que o produto final não seja consideravelmente boa o bastante para fazer jus ao seu legado.

As Bruxas de Salém (The Crucible, EUA – 1996)

Direção: Nicholas Hytner
Roteiro: Arthur Miller, baseado em sua própria obra
Elenco: Winona Ryder, Daniel Day-Lewis, Paul Scofied, Joan Allen, Bruce Davison, Rob Campbell, Jeffrey Jones, Karron Graves, Frances Conroy, Charlayne Woodard
Gênero: Drama Histórico
Duração: 124 min

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