Bob Dylan ganhou o prêmio Nobel de Literatura de 2016. Confundiram-no com o Dylan Thomas? Foi uma indicação política? O prêmio já não é o mesmo? Vai saber. Não é assunto para coluna aqui no Bastidores. “Mas ele não escreveu nenhum livro”. Escreveu sim, e também publicou livros dos quadros que pintou. Mas ganhou, obviamente, por suas músicas.

Em suas músicas é o jovem arrogante repleto de sonhos [The Times They Are a Changin], o amigo invejoso [Like a Rolling Stone], o justo [Hurricane], o velho desiludido [Things Have Changed], o depressivo de meia idade [Love Sick], o bêbado feliz [Rainy Day Women #12 & 35], o ex namorado amargurado [Idiot Wind], o pai de família [If Not For You], o amante iludido [I Want You], o apaixonado agressivo [Beyond Here Lies Nothing], o viajante [Tangled Up in Blue], o culpado [Shelter From the Storm], o contador de histórias [Isis], o político [All Along the Watchtower], o esperançoso [Forever Young]. É judeu [Jokerman], ateu [Highway 61], cristão [Gotta Serve Somebody], religioso, perdido.

É compositor de folk, rock e blues. Conseguiu ser assim pois faz de sua personalidade inconstante uma belíssima moldura dourada – pendurando nesta diversos autorretratos. Assim como na capa do disco Self Portrait seus traços são confusos e irregulares até em seus olhos azuis.

O jovem caipira de Minnesota anunciou a mudança em The Times They Are a Changin’, e foi ele mesmo quem mudou, colocou flores no chapéu e maquiagem nos olhos; protestou contra o governo; e se encontrou protestando contra seus fãs e ele mesmo.

Colou os cacos de suas infelicidades e descortinou cenas em memórias e inconscientes: a porta que bate em Idiot Wind, o jornal estirado na mesa denunciando uma injustiça em Hurricane, os conselhos indesejados de amigos em Subterranean Homesick Blues, a luz se apagando em I’ll Be Your Baby Tonight, o término de relacionamento em Just Like a Woman, a depressão em Not Dark Yet, a benção em Forever Young. O vento, sua metáfora mais usada, pode ser o sopro da incerteza, dos novos tempos, do rancor, do ódio, da alegria, das boas novas; mas o que o desenha?

In the fury of the moment I can see the Master’s hand
In every leaf that trembles, in every grain of sand [Every Grain of Sand].

Repleto de questionamentos e sem desacreditar em Deus, tornou-se um mosaico de facetas coloridas. Com estas facetas transformou seus autorretratos em espelhos que refletem as amarguras, amores e dúvidas de muita gente. É um artista completo, um maravilhoso alento para todos os infelizes que caíram em suas cantilenas. Felizes são estes. Robert Allen Zimmerman… o espelho mais bonito presente neste mundo!

PS: E não é que ele ignorou a organização do Prêmio?

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Rose On A Hillside (Dylan).

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