SPOILERS!

Isso será complicado, já aviso. 

» Siga o Bastidores no Facebook , Instagram e no Twitter para saber todas as notícias sobre cinema «

Interestelar é um filme que se baseia fortemente nos princípios atuais das ciências da Física moderna, além de mostrar teorias que ainda não foram comprovadas em experimentos científicos. Apenas suposições que vão nortear todo o futuro da Ciência nas próximas gerações.

Se discutiu bastante durante o frisson da estreia do novo longa de Christopher Nolan se Cooper tinha criado um paradoxo ao traçar seu próprio destino enquanto estava no Tesseract, dentro da singularidade do buraco negro de Gargantua. Logo, se ele mesmo guia a humanidade para a salvação, indicando o caminho para a NASA ,o jogando novamente em direção aos fatos que tínhamos visto até então, como que ele foi parar lá em primeiro lugar?

Logo, especula-se sobre universos paralelos ou realidades alternativas. Mas isso novamente seria jogar a atenção em elementos que estão fora do filme. Como sempre Nolan gosta de fazer em suas reviravoltas mindfuck como a de A Origem cujo final explicamos aqui, as respostas para esses mistérios estão dentro sim da narrativa, mas não enfatizados em exaustão.

A informação mais importante que temos que levar em conta são os humanos do futuro que colocam o Buraco de Minhoca perto de Saturno ligando a nossa galáxia até Gargantua. É dito que eles são seres de cinco dimensões, ao contrário de nós, criaturas tridimensionais.

É importante, portanto, fazermos um breve glossário antes de entrarmos na discussão de fato.

As peças do jogo

No filme, dr. Brand traça dois planos para a sobrevivência da humanidade. O Plano A consiste em encontrar a resposta de uma equação que possibilitaria a manipulação da gravidade, permitindo o lançamento de uma massiva estação espacial que serviria como arca para o restante da humanidade se dirigir para um novo lar. O Plano B é mais drástico. Durante a missão Endurance, caso toda a humanidade tenha perecido por conta da Relatividade, fica a cargo da tripulação e milhares de embriões selecionados para povoar o novo planeta garantindo o futuro da espécie.

A viagem até Gargantua, a nova galáxia, é possibilitada pelo Buraco de Minhoca posicionado ao lado de Saturno em nosso sistema solar. O wormhole liga a nossa galáxia com a de destino na viagem, possibilitando que a Endurance chegue ao novo sistema com 12 planetas com potencial de abrigar vida. Caso não houvesse a presença desse buraco de minhoca, a viagem interestelar não seria possível, mesmo com o auxílio da hibernação. Por estar a milhares anos-luz de distância, toda a equipe morreria antes mesmo de chegar na metade do destino.

Essa é a função do buraco de minhoca, dobrar o espaço-tempo permitindo a viagem rápida pelo bulk ligando dois pontos muito distantes. Nesse sistema, há um Buraco Negro, ou seja, uma estrela colapsada, o cadáver de um astro. A gravidade é tão forte que tudo o que entra em seu horizonte de eventos, é sugado para dentro dele. Nem mesmo a luz, a gravidade e o tempo escapam de ser engolidos. Dentro dele, existe a singularidade.

Como sabemos, no filme, Cooper se sacrifica para garantir que dra. Brand chegue ao planeta de Edmunds, o único que pode garantir um habitat saudável para a vida humana. Para isso, se desprende da Endurance junto com TARS e cai diretamente no buraco. Sobrevivendo aos eventos por conta da criação de um espaço de quatro dimensões chamado Tesserato (um cubo de quatro dimensões) pelos seres de cinco dimensões, Cooper consegue enviar mensagens através de códigos na estante do quarto de Murph, sua filha que viria se tornar uma excelente astrofísica.

Vendo a percepção do tempo como os “humanos” evoluídos, Cooper se livra da percepção linear que todos nós temos. No Tesserato, ele e nós enxergamos todos os momentos que ocorreram no quarto de Murph. Para impedir sua existência naquela prisão cósmica, Cooper tenta criar um paradoxo ao mandar a mensagem F.I.C.A. em código binário para Murph avisar o Cooper que vive naquele espaço temporal e impedir a jornada.

Ali é dito que é impossível mudar o passado, as coisas seguem como devem ser, mas que é necessário enviar mensagens que garantam o acontecimento dos fatos – gerando um loop eterno. Cooper então pede as coordenadas da NASA para TARS, conseguindo enviar também em binário através da poeira que invade o quarto de Murph. Todas as mensagens são transmitidas com o auxílio da gravidade

Depois, sabendo que TARS descobriu os dados quânticos da singularidade – dados que permitem a manipulação da gravidade para jogar a Estação Cooper no espaço, Cooper envia os dados através de código Morse para o relógio que deu de presente para Murph antes de embarcar na jornada espacial. Enviando os dados com sucesso, o Tesserato se fecha. Enquanto colapsa, Cooper é enviado de volta para o buraco de minhoca, viajando dentro do bulk, mas como um ser de quinta dimensão (momentaneamente), observando a Endurance cruzar novamente para Gargantua. Lá, ele aperta a mão de Brand, fechando o loop enquanto outro começa.

Então Cooper é resgatado pelos astronautas da Estação Cooper que partem em direção ao Buraco de Minhoca. O protagonista reencontra Murph, já com mais de cem anos, e depois parte para reencontrar dra. Brand no planeta de Edmunds – pela relatividade, Cooper encontrará Brand poucos momentos depois de ter se jogado no Buraco Negro. Murph simplesmente está muito mais velha que Cooper por causa dos efeitos da Relatividade. Para entender melhor o conceito de Relatividade, gravidade e tempo aplicados em Interestelar, recomendo muito que vejam o documentário feito especialmente para isso contando com a presença do renomado físico Kip Thorne (também produtor do filme) e outros cientistas:

Logo, não há mesmo paradoxo de viagem do tempo em Interestelar. O paradoxo temporal envolve a (im)possibilidade de você viajar de volta a um tempo no qual não havia nem mesmo a hipótese de sua existência. Como Cooper nem mesmo chega a viajar no tempo, já que vira um ser pentadimensional, e muito menos para um tempo no qual ele não existia, o paradoxo é extinto. Cooper apenas transmite mensagens através da gravidade interferindo em objetos físicos garantindo que sua jornada se mantenha conforme o loop para salvar a humanidade.

Se a viagem no tempo existe, nós já vivemos os efeitos dela. Logo, nosso presente se torna consequência do nosso futuro. É nisso que Interestelar acredita. Sempre haverá um Buraco de Minhoca, a humanidade sempre será salva, a humanidade evoluiu para seres de quinta dimensão depois de ter sido resgatada da Terra, depois colocará o Buraco de Minhoca 40 anos antes da viagem da Endurance, Cooper sempre partirá para Gargantua e cairá no buraco negro e sempre transmitirá as mensagens para Murph salvar o resto do mundo. Não há como fugir desse loop temporal que está fadado a se repetir por toda a eternidade.

Também não adianta teimar em questionar o tempo como um fenômeno linear quando ele pode ser simultâneo. Estamos presos nessa percepção linear, mas os humanos da quinta dimensão podem ver o tempo do mesmo modo que você vê uma avenida em totalidade se estiver em um ponto mais alto. Logo, questionar como a humanidade evoluiu até o estado de quinta dimensão é entrar em um raciocínio ilógico. Seria como tentar encontrar o ponto de início de um círculo perfeito: simplesmente não há como.

Nolan já tinha se inspirado em trabalhos de M.C. Escher que trabalham justamente com grafias de loop temporal. Isso foi visto em A Origem explicitamente. Não existe início ou fim dentro do loop, ele apenas existe.

Mas que raios é a Quinta Dimensão?

Na nossa percepção de espaço-tempo, vivemos em quatro dimensões: largura, comprimento, profundidade e tempo (as dimensões reconhecidas oficialmente pela Física). Desse modo, estamos presos a uma noção linear de tempo. Nunca voltando ao passado, nem viajando ao futuro, mas vivendo sempre o presente que se torna passado e futuro em questão de segundos.

Já para seres pentadimensionais, poderiam ver todo o universo e sua história em apenas um olhar, mas seria praticamente impossível focar em pontos individuais no tempo devido a quantidade massiva de informação. Um espaço 5D é extremamente difícil de imaginar e bugará sua cabeça com toda a certeza. Como um usuário do reddit explicou, há como fazer esse exemplo através de uma analogia com um cubo.

Para isso, começamos em 4D. O cubo 4D é o bendito tesserato que tanto falamos aqui. Para vermos o tessarato, já temos que o representar em 3D e, como sabemos, enxergamos apenas em duas dimensões (sim, antes de me chamar de louco, veja esse vídeo). Não vemos nem mesmo um cubo por inteiro. Sempre vemos o cubo pelos lados, projetados em nosso plano de visão. Logo, se vemos quadrados nos lados de um cubo, um tessarato teria cubos em seus lados.

Quando colocamos isso em um espaço tridimensional, os cubos são distorcidos e mudam de forma conforme o tesserato se movimenta. Isso mesmo acontece com os cubos, já que não vemos quadrados, mas sim formatos similares ao de diamantes quando movemos e rotacionamos o cubo. Lembrando, isso tudo para ver um cubo 4D!

Logo, um “cubo” em 5D teria tesseratos como seus lados. Em Interestelar conseguimos ver uma representação disso durante o segmento do Tesserato, após Cooper cair no buraco negro. A representação 3D de um espaço pentadimensional é algo como aquilo: vemos o quarto de Murph no topo, nos lados, nas diagonais, em praticamente todos os cantos, simultaneamente.

Uma forma 5D é gigantesca, com cada lado constituído de formas 4D que cada lado é um cubo. Tudo isso é projetado em 3D para que Cooper explore.

Como havia dito, não há viagem no tempo em Interestelar. Há apenas o influenciar do passado através de ondas gravitacionais. Novamente, temos que abstrair nossa mente para imaginar o espaço em 5D. Ondas nesse espaço não são coisas dinâmicas em constante mudança, não são geradas ou recebidas. Elas apenas existem, conectando passado ao futuro.

Até mesmo contando com o efeito quântico randômico, muitos teóricos quânticos usam princípios que conectam passado e futuro juntos. Em uma escala macroscópica, como é com Interestelar, a maioria do efeito randômico é cancelado, deixando um universo amostral comportado.

Voltando aos loops temporais, podemos dizer que Cooper foi chamado para o espaço e então acabou criando as circunstâncias do próprio chamado. Ou que ele já havia criado o chamado e apenas o atendeu no passado. Em 5D, o passado e o futuro de Cooper estão interagindo de um modo que desafia nossa compreensão 3D. E só porque é esquisito, não quer dizer que seja errado ou impossível. Um dos motes do filme é a exploração e em Interestelar fica claro que a descoberta de novos mundos necessita a constante alteração da nossa perspectiva, contrariando qualquer conceito, por mais que seja familiar à nossa percepção.

Espero que todo esse texto tenha ajudado a entender um pouco melhor porque não existem furos ou paradoxos nessa viagem magnífica que Christopher Nolan nos trouxe, além de permitir uma melhor consciência do final do filme.

Comente!