A sensibilidade é uma força difícil de conquistar e manter. Muitos cedem no meio do caminho, não aguentam. Ou simplesmente desistem, porque é mais fácil, fomentando uma despreocupação cada vez maior – situação preocupante. Não bastassem os diversos preconceitos existentes contra a mulher, contra diferentes etnias e credos, uma vertente menos explorada na agenda dos debates sociais é a dos deficientes, assunto tão complexo e delicado quanto os outros. Em um Mundo Interior toca numa das doenças mais misteriosas do homem moderno: o autismo.

Quem já leu um pouco sobre, sabe que o autismo não é uma doença de fácil compreensão principalmente porque apresenta diferentes graus, desde um que possibilita que o sujeito viva em sociedade, tenha um cotidiano normal, até outro em que os estímulos do mundo, o mero contato tátil torna-se insustentável. Isso porque a tendência do autista é se fechar, encontrar padrões, um lugar mental e físico para se sentir seguro. Mas mais do que uma imposição de desenvolvimento biológico, o tratamento do autismo passa invariavelmente pelo tratamento que os indivíduos recebem pela sua formação cognitiva, desde os primeiros anos de vida.

Com base na informação, o documentário dirigido por Flavio Frederico e Mariana Pamplona carrega uma importância legitimadora que acaba um tanto abrandada tanto pelo convencionalismo. Seu principal mérito é seu fio narrativo. O filme traz filmagens com personagens de casos muito diferentes (por volta de uns sete ou oito). O que poderia virar um empilhamento de situações visando a conscientização, acaba uma história muito interessante de acompanhar. Acompanhamos principalmente o cotidiano das crianças e adolescentes autistas. Para um filme que se propõe a exibir as variações patológicas, as interferências de falas médicas são bem reduzidas. E talvez nem deveriam estar presentes, se interessa mesmo o “mundo interior” de cada um daqueles sujeitos.

Se por um lado a câmera que acompanha os personagens já consegue capturar momentos emocionantes nas pequenas coisas, os diretores, em certa altura, mostram uma experiência: dar para cada uma das crianças, uma câmera simples. Nem todos (na verdade, pouquíssimos) se dispuseram a filmar ou fotografar. Numericamente é uma frustração. Mas apenas por um momento singular, poucos segundos de uma auto-imagem, gravação de uma das meninas, o experimento já mostrou sua eficiência.

Em um Mundo Interior, apesar de tudo, não faz muito mais força para sair dos trilhos de um filme expositivo, abordando os pontos mais comuns de compreensão da doença, visando a conscientização do público. Recorre muito para os discursos dos pais e educadores para o relato de outras experiências. Não há bem uma investigação interior, de como cada sujeito se relaciona com o mundo exterior. Isto é, quando havia possibilidade de comunicação direta. Nem entra com profundidade em debates mais controversos, nomeadamente, não dá grande destaque para casos de crianças que não têm condições de frequentar diversos médicos, ter acompanhantes ou frequentar escolas com suporte para os deficientes.

Longe de ser um filme definitivo (ainda bem) ou que traga uma visão original sobre a doença, Em um Mundo Interior é uma manifestação pela sensibilidade (a primeira sequência com “O Quereres” é o pico) frente à patologia. Não esqueçamos da raiz dessa palavra: pathos. Catástrofe, passagem, sofrimento, enfim, paixão.

Em um Mundo Interior (Brasil – 2017)

Direção: Flavio Frederico e Mariana Pamplona
Gênero: Documentário
Duração: 75 min

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