O governo do novo prefeito da cidade de São Paulo começa, neste final de semana, com aquilo que é o suprassumo da programação de seu principal teatro: a temporada de óperas.

Seja pelo custo, seja pela complexidade, seja pela passionalidade que costuma demandar dos espectadores, nada clama mais os holofotes e é tão sujeita a críticas e elogios do que as óperas.

Como na troca de gestão uma série de operações são efetuadas, a temporada começa com uma ópera mais simples, em forma de concerto, ou seja, sem a apresentação cênica, apenas orquestra, coro e cantores no palco. A peça escolhida é o Fidélio, de Beethoven.

Para nos inteirarmos do que a nova gestão do Theatro Municipal espera e/ou promete, fizemos uma rápida conversa com Cléber Papa, o novo Diretor Artístico, e Roberto Minczuk, o atual regente da Orquestra Sinfônica Municipal, a OSM.

Ao serem questionados sobre os problemas ocorridos na gestão passada (atrasos nos concertos, ar-condicionado quebrado por meses, gestão turbulenta, problemas administrativos, mais que de natureza de qualidade artística) disseram que olham para o futuro, e que pouco sabem sobre a gestão passada. Papa salientou que está resolvendo a dívida do Theatro e espera que, ainda este mês, isto seja resolvido. Apesar disto, não demitiram nenhum membro dos corpos estáveis, garantindo assim uma continuidade do trabalho artístico. O regente de Coral Lírico Mário Zaccaro, que volta ao Theatro depois de quatro anos, é visto pelo regente da OSM como um excelente maestro de coro, que já deixou um legado para a cidade e que também o acompanha como compositor, que é uma faceta que o público em geral desconhece.

A nova diretoria amplia a participação do Theatro na vida dos cidadãos paulistanos, com programações durante a semana, como por exemplo as Quartas Musicais a R$ 20, e em horários alternativos, como o Happy Hour no Municipal, às 18h, com ingressos a R$10, e o Domingo no Municipal, às 12h, com ingressos a módicos e inacreditáveis R$ 6. Como diz Papa, a ideia é que o Theatro seja, no domingo, para toda a família, com um ingresso que permita a avós, pais e netos irem juntos a um concerto.   

Do meu ponto de vista há, e isto pode ser conferido no site do Theatro, uma salutar intenção de que a programação seja mais abrangente e intensa, deixando aos espectadores que escolham a melhor maneira, custo e horário para que possam desfrutar dos espetáculos de música erudita. Ao questionar Minczuk que as orquestras brasileiras têm, em geral, uma programação menos intensa que as congêneres internacionais, este respondeu que esta programação que estão perfazendo não é menor que a da maioria das orquestras americanas e europeias. Que estão fazendo três programações simultâneas, com o Fidélio, a Paixão Segundo São João, de Bach, e a Sétima de Bruckner em maio. De certa forma, olhando a programação, tive que concordar com sua colocação. Mais que minha provocação, o que importa é que está sendo oferecido ao público um número maior de concertos e eventos.

Roberto Minczuk, aos que não o conhecem, foi um dos artífices da reformulação da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP) junto a John Neschling, saindo dela tempos depois. Curiosamente, sucede ao mesmo Neschling agora na OSM, em uma ironia do destino. Minczuk foi um trompista prodígio quando adolescente, o que o levou a tocar na Gewandhaus de Leipzig, onde conhece seu mentor, Kurt Masur.

Com este, tem uma carreira de regente associado na Filarmônica de Nova Iorque. Seguramente, estas duas orquestras estão entre as principais do mundo, o que o coloca com um currículo bastante invejável. Porém, Minczuk se envolveu em uma turbulenta fase na Orquestra Sinfônica Brasileira nos últimos anos. O que mais me chama a atenção no maestro, à parte o talento musical, é que ele é, no meio musical brasileiro, uma figura ímpar.

Seu perfil, ao contrário da imensa maioria da classe artística brasileira atual, é diverso. Não teve parentes famosos, amigos nos jornais, casamento de interesse. É a história típica de um garoto da classe média, filho de militar, que aprendeu música na igreja, e trilhou um caminho de meritocracia mundo afora. Isto, no Brasil, é absolutamente incomum, país que insiste em preservar o status quo e onde ter um pai cineasta, ou se vangloriar de ter descendência do Schoenberg, vale mais que a produção de próprio punho. Talvez este fato seja a explicação de o porquê da mídia cultural brasileira, que é majoritariamente de esquerda, ter sido tão rigorosa em relação à sua pessoa.

Cléber Papa tem bastante ligação com a ópera, tendo presidido o concurso de canto Bidu Sayão e festivais de óperas em Manaus e Belém. Diz que sua perspectiva, nesta gestão, é como diretor de cena, o que creio bom, pois de burocratas culturais o país grassa. Obviamente, tem que cumprir um pouco este papel, e nos diz que estão tentando ampliar os acessos do público ao teatro, reformulando as visitas guiadas, investindo na divulgação junto a bibliotecas, abrindo um bar no subsolo do theatro, o Salão dos Arcos.

Fazer com que o theatro tenha programação constante, funcione não apenas nos horários de espetáculos, intensificar as visitas guiadas, tudo isto faz com que o Theatro se torne um lugar de referência de lazer e de convivência. A sala de concertos da Filarmônica de Berlim, por exemplo, faz até visitas guiadas às suas obras, cobrando um bom preço por tal.

Se esta dupla vai funcionar? Quem faz predição ou é economista ou vidente. Logo, não me arrisco a tal. Porém, pela programação neste início, pelos novos ventos administrativos que a cidade de São Paulo respira, pela gentileza da conversa, acho que podemos esperar, no mínimo, um esforço sincero para que o público seja agraciado com uma programação instigante, de qualidade e variada.

Cumpre ressaltar que 2017 é o começo da gestão. O próprio Papa diz que esta administração começa para valer em 2018, onde haverá concertos e balés até maio, e depois iniciando a temporada de óperas em paralelo aos dois primeiros tipos de espetáculo.     

A abertura da programação operística, com o drama de Beethoven, foi uma boa escolha. Fidélio é uma ópera sobre a luz e as sombras, sobre o combate à tirania, sobre a Liberdade. Ainda que de um compositor fundamental, é pouco encenada. Salvo engano, a última apresentação se deu há cerca de 20 anos na cidade, numa coprodução com um teatro alemão. Aliás, uma boa produção, com uma solução cênica abstrata e interessante.  

A ver, então, como será esta gestão.

Créditos da imagem destacada: Arthur Costa

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