Após conferirmos o primeiro episódio da aguardadíssima Westworld (a crítica você pode ler aqui), em parceria com a Revista 29 Horas, tivemos uma entrevista round table exclusiva com Rodrigo Santoro, que fala sobre sua participação na série de Jonathan Nolan, o processo de criação de seu personagem e o que torna Westworld tão especial.

Confira a transcrição abaixo:

Você é um ator brasileiro que fez muitas produções no exterior, blockbusters e longas hollywoodianos. Qual é a diferença entre trabalhar em uma produção desse tipo com uma série da HBO desse tamanho?

É, não tem tanta diferença não, porque… É sempre o tamanho, a estrutura do set de produção. O tamanho, o orçamento, é o que vai definir o tamanho de um set, você vai chegar e vai ter 3, 4 câmeras, uma equipe de 100, 200 pessoas… Ou é uma produção menor, um filme independente, que não é o que chamamos de “filme de estúdio”, que seria uma equipe muito menor, tudo mais reduzido… A diferença que eu vejo é nessa escala, não só na produção, mas na própria estrutura do set. Essa série tem uma estrutura grande, é como se fosse um blockbuster, só que dentro das séries.

Em uma série, o controle em cargo da produção, onde cada episódio acaba tendo um diretor diferente. Como foi pra você essa dinâmica, de escutar o produtor, o diretor, no caso o Jonathan Nolan, que dirigiu esse primeiro episódio?

Ele dirigiu muitos episódios, e ele é meio “co-diretor”, então mesmo tendo outro diretor – que é muito normal de se ter com as séries, são diretores convidados – o Jonathan é muito, como eles chamam “hands on”. Então ainda mais nessa primeira temporada, ele esteve muito presente em todo o set o tempo todo, mesmo com outro diretor. E ele tem essa autonomia e essa responsabilidade, como showrunner; ele e o J.J.[Abrams], mas basicamente ele não só dirige, como ele escreve, o que dá uma autonomia de mudar uma cena diretamente no set – o que aconteceu inúmeras vezes.

Você teve muito contato com o J.J. Abrams também?

Sim, eu já tinha tido em Lost, né, há um longo tempo atrás, que foi onde eu o conheci. E a gente teve um reencontro aqui, não que eu tenha nenhuma intimidade com ele, mas tivemos vários encontros. Principalmente no começo, quando veio o convite, eu perguntei muito pra ele sobre como era… Até porque a gente não tinha muita informação sobre a série, sobre os personagens… Temos muito pouca informação. Eu recebo o roteiro ali alguns dias antes, não é muito possível se preparar pra fazer esse trabalho… Pra preparar no sentido de pesquisa… Porque a gente não sabe! A gente não tem informação, quase como um espectador. Mas não dá tempo de ficar analisando muito, é receber, entender e fazer.

É o modus operandi do J.J., né? A questão do segredo.

É! Eu acho que é! Que talvez seja também uma… ideia de ter o ator mais presente, em forma mais visceral e menos racional, sabe? Não preparar muito o que vai ser feito, e também um perfeccionismo de preparar os roteiros, de prepará-los o máximo possível e polir os roteiros pra que eles cheguem em um resultado de maior excelência, antes de toda a equipe de atores terem eles em mão. Claro que nós trabalhamos com um mínimo né, a importância de todos os departamentos, dos atores se preparem pra filmar… Mas é um tempo realmente estreito.

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Falando sobre o processo de criação, como você cria uma performance assim, porque o Hector é um androide, né… Como se cria uma máquina semelhante a um humano?

Na verdade, é difícil até de descrever o que são os Anfitriões de Westworld. Não é exatamente uma máquina, ele estaria mais próximo de um humano do que um andróide. Ele não é um andróide, ele é uma espécie de ser humano com uma inteligência artificial. Então ele é o mais próximo que já se chegou do humano. Andróide no sentido de que ele tem uma inteligência que é manipulada. Essa é a única característica que eu diria que é próxima de um andróide, robô ou máquina. 

Mas foi um trabalho sutil, e continua sendo. Porque a gente não se comporta, não se movimenta como um andróide. Não é mecânico, ao mesmo tempo não é um corpo exatamente humano… É um híbrido, e é um lugar que a gente vem trabalhando durante essa primeira temporada inteira, construindo, né? A série ela se constrói ao longo, como são possíveis temporadas, você vai conhecendo o personagem… Mais ou menos como se acontece em uma novela, com suas devidas proporções né, em uma novela você tem cento e tantos capítulos, aqui você tem 10. Mas a gente vai trabalhando, eu tô conhecendo o Hector ainda.

Você buscou algumas inspirações, referências? Porque tem tantos trabalhos memoráveis de performances assim.

Sim, eu vi muita coisa, nada em específico. Eu revi muita coisa na ficção científica. Acho que o Westworld é um mundo muito único nesse sentido, é muito díficil de comparar com qualquer coisa. Ele usa a premissa do filme de 1973, do Michael Crichton, que é a do parque temático, uma experiência imersiva que convida o espectador a interagir de forma intelectual, emocional e psicológica, né? Tem uma onda muito psicológica aqui, com muitas entrelinhas e muita metáfora a todo o tempo… O que tá dito não é só o que tá dito, a gente tá falando de muitas coisas ali.

Nesse sentido, eu busquei referências sim, mas nada muito específico… Não teve um personagem que eu fui me inspirar. Naturalmente nós temos as referências do próprio filme… O Yul Brynner, por exemplo, não é o mesmo personagem, mas o Hector tem muito dele, o “Fora da Lei”, “Homem mais Procurado do Oeste”, mas é muito… Como se fala, diversificado, cara. A série ela vai abrindo e se diversificando.

É um mundo que eu mesmo estou explorando.

Westworld estreia em 2 de Outubro na HBO às 23h.

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