Spoilers! 

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Chegou como um estouro. Blade Runner 2049 se consagra como um dos melhores filmes deste ano trazendo peças muito originais para o sempre o gênero sempre em expansão da ficção científica.

Como em raríssimas novas iterações de consagrados filmes do passado, o novo Blade Runner consegue criar muitas coisas ao mesmo tempo que expande a história do original para limiares que nunca tínhamos sonhado conhecer antes. Logo, sua história termina com diversas pontas soltas, além de confrontar os personagens com destinos amargos.

Um breve contexto

A essência do conflito desse novo filme é a busca de K pelo real. Caso não saibam, K é um replicante e toda sua vida é cercada pelo sintético. Em um trabalho de rotina, elimina um replicante Tyrell pré-Blecaute, Sapper (Dave Bautista). Antes de morrer, Sapper diz a K que ele não valoriza sua espécie por não ter presenciado um “milagre”. A partir das consequências dessa investigação, K se vê completamente envolvido em uma conspiração muito maior do que o seu papel na sociedade.

O “milagre” é, como o personagem descobre depois, a filha de Deckard com a replicante Rachael, a primeira modelo dos novos Nexus 8 (androides com tempo de vida útil similar ao da vida humana). De alguma forma, Tyrell conseguiu atingir o limiar que tanto procurava para acabar com a linha que separava os humanos dos sintéticos: a reprodução natural. Rachael seria a primeiro androide a ter a capacidade de conceber vida. Porém, com o Blecaute, toda a informação sobre a possibilidade de criação desse androide é perdida e como sabemos, Tyrell é assassinado.

Rachael tem uma filha com Deckard depois de fugir com ele no final de Blade Runner. Para proteger a criança, Deckard foge e Rachael morre ao dar à luz. A criança então tem seus dados genéticos duplicados para criar um arquivo falso que indica sua morte. Depois, Sapper a envia para um “orfanato” de sucateiros com apenas um único pertence: um cavalinho de madeira talhado por Deckard contendo a data de seu nascimento.

Lá ocorre toda a memória infeliz que é, posteriormente, implantada em K. A menina é resgatada de sua infeliz vida no orfanato e, talvez pelas condições precárias ou por uma mentira para protegê-la, acaba desenvolvendo um problema imunológico que a impede de sair de uma bolha de proteção. Seus pais adotivos criam um quarto com diversas tecnologias de hologramas para que Ana Stelline não viva em uma prisão. A menina cresce e acaba virando uma ótima profissional de criadora de memórias para serem implantadas em replicantes desenvolvidos pela Wallace.

Ela é a representação do fim do muro que separa humanos e androides. Ela despertaria uma revolução e acabaria com a escravidão no mundo de Blade Runner.

O Final

Ao fim do filme, Deckard é sequestrado por Luv e Wallace, os antagonistas que querem descobrir como foi possível Rachael e Deckard terem reproduzido natural um novo replicante. A motivação de Wallace é conseguir replicar a tecnologia de reprodução entre replicantes para conseguir atender a demanda impossível de novos Nexus para colonizar os novos planetas dominados por humanos.

Enquanto isso, K é resgatado por uma espécie de Resistência replicante revelando a verdade sobre a filha de Deckard que, até então, K julgava ser ele o replicante especial, o escolhido, etc. Nessa célula da resistência, K recebe a missão de matar Deckard para impedir que Wallace descubra o paradeiro da garota ou que disseque o corpo do antigo Blade Runner.

Sendo a coisa “mais humana” a fazer, o desolado K tem o poder da escolha: matar Deckard ou abandonar o papel ingrato dessa narrativa que assumiu. Mantendo a ambiguidade até o fim, sem revelar a intenção de K, vemos o protagonista impedir Deckard e Luv de chegar em um covil de Wallace.

Depois de uma longa e árdua luta, K mata Luv e… salva Deckard. Com o naufrágio da nave, K fala para o herói que ele está finalmente livre para conhecer a filha que nunca conheceu. Deckard e K então vão até o laboratório de Ana Stelline. K não acompanha Deckard no reencontro.

Gravemente ferido pelo confronto com Luv, K senta nos degraus do prédio. Admira a neve caindo ao redor. Sente o gelo derretendo entre os dedos, interligados. Hora de morrer.

Mas e daí?

De fato, e daí? Bom, há uma beleza na trajetória de K ao longo do filme. E essa trajetória é perfeitamente dividida em três atos e acontecimentos que fazem uma reviravolta em sua psiquê.

No começo do longa, K não almeja nada além de sua vida normal e função. Apesar de sentir um desconforto pela artificialidade que o cerca e até mesmo da sua própria natureza como replicante, K não se odeia como acontecia com Deckard no primeiro filme. K vive cada dia normalmente, já se contentando apenas com sua existência.

Porém, ao descobrir que a memória implantada realmente aconteceu, K passa a suspeitar que teve uma infância. E, portanto, é humano ou algo especial, um evento nesse mundo distópico. Logo, ele não seria mais um replicante como os outros. Finalmente em sua vida artificial, ele poderia dizer que possui algo real: um significado maior. Também teria uma alma, uma humanidade, suas memórias seriam história e comprovariam existência verdadeira, existência orgânica.

Até tudo isso lhe ser arrancado com a revelação de que ele não é o filho de Deckard, ele não é especial como imaginava. Ele é somente um replicante que acreditava ser humano – traça-se um belo paralelo com Blade Runner se levarmos em conta que Deckard também é um replicante segundo Ridley Scott. Lá tínhamos um humano que acreditava ser humano, mas que era replicante. E aqui um replicante que acreditava ser humano, mas que era somente um replicante.

Com isso, K entra em profunda crise existencial. Como voltar a ser artificial se provou um pouco do sabor da realidade? Mesmo que falsa? A líder da célula revolucionária diz a K que a coisa mais “humana” a fazer é matar Deckard.

Porém, nosso protagonista está cansado de receber ordens de mulheres cínicas em posições de pretenso poder. Ele vaga pela cidade até ser confrontado por um outdoor em holograma de Joi, sua antiga namorada virtual que nada mais era que um produto feito pela Wallace para atender a demanda de carência e sexo que a sociedade necessita.

Ali, há uma leve catarse, mas importantíssima. A nova Joi o chama de ‘um perfeito Joe’. No caso, associamos imediatamente que até mesmo seu nome que lhe foi dado pela namorada era artificial, algo completamente sem personalidade, algo programado. Além disso, é possível associar o Joe com John Doe, no inglês significa um Zé ninguém, um fulano X.

Isso afeta fortemente o protagonista a reencontrar um norte na vida. Ele cansou de seguir a programação e a ordem dos outros. Pela primeira vez na vida, K possui o poder da escolha.

A escolha já vira uma das características mais reais e humanas para ele, pois está escrevendo o próprio destino. K vai ao resgate de Deckard e, ainda por cima, o faz reencontrar a filha perdida, conseguindo frustrar os dois lados do jogo: Wallace e a Resistência.

De alguma forma, K percebe que o sentimento humano de afeto, de amor, é algo profundamente real. Isso é justificado pelo encontro do replicante nas memórias sólidas de Deckard: seja em retratos ou nos animais talhados na madeira. O protagonista enxerga o amor do antigo Blade Runner e vê que aquilo é real e cheio de significado. O amor é o que significado e realidade para a existência.

Ao conduzir Deckard até a filha, porém, K atinge um nirvana que transcende o amor. Um sentimento verdadeiramente puro e messiânico: K vira um genuíno altruísta. Ele se sacrifica por um homem que acreditava ser seu pai, mas que não era. Ele salva duas vidas confinadas em prisões distintas para que seguissem uma jornada da qual ele nunca faria parte.

Tanto que, antes de entrar no laboratório, Deckard pergunta a K: “O que eu sou para você?”. Ele quer entender esse gesto de bondade no replicante. Ele quer entender uma motivação que nunca será capaz de compreender e mensurar. K não responde e Deckard parte. No fim, em seu altruísmo extremamente amável, K se torna mais que humano. Ele contempla a luz e morre olhando aos céus. A serenidade de seu olhar indica que não há mais medo ou amargor. Se K encontrará algo além da vida, somente ele sabe.

E pelo tom tão iluminado e belo desse final, pode ter certeza que K encontrou algo melhor do que sua existência.

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