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Hellblade: Senua’s Sarifice é o novo jogo da desenvolvedora Ninja Theory, que já emplacou alguns sucessos anteriormente como Heavenly Sword, Enslaved: Journey to the West e o reboot de Devil May Cry. Dessa vez eles apostaram em um jogo de médio orçamento, o chamando de “um AAA independente”. O resultado foi um jogo único.

As mecânicas

As mecânicas de jogabilidade do Hellblade são bem simples, boa parte do jogo é resolução de puzzles, que consistem basicamente em alinhar imagens para abrir portões. A resolução dos puzzles em si não é difícil, mas durante o gameplay, em algumas ocasiões, passei algum tempo procurando as imagens que deveriam ser alinhadas, são puzzles mais intuitivos do que do tipo que requer maior raciocínio.

Há também um pouco de combate no game, a mecânica de combate é simples, mas dinâmica. Assim que começa o combate, os controles da Senua mudam, agora ela pode se esquivar, bloquear, atacar e quebrar a guarda. Senua pode performar combos variando ataques fortes, fracos e melee, além de um habilidade especial que desacelera o tempo. O jogo possui alguns  combates bem difíceis, alguns me prenderam por um tempo quando estava me aproximando do fechamento do jogo.

As lutas contra os chefões estão entre os mais divertidos e desafiadores combates do jogo, apesar de esse não ser o aspecto principal de Hellblade, você irá apreciar se é fã de Dark Souls, a dificuldade, o cuidado e movimentos precisos que são exigidos do jogador, lembram muito a famosa franquia da from software.

O jogo é linear e pode ser bem repetitivo, há pouca variação de puzzles, o que pode acabar irritando alguns jogadores, porém não vi isso como problema, afinal é um jogo bem curto, mas caso se prolongasse por mais tempo dificilmente o gameplay sustentaria o interesse dos jogadores.

Ambientação e Visual

Apesar do orçamento, Hellblade impressiona muito com seu visual. Todo o cenário é bem feito e detalhado, a equipe se esforçou bastante para trazer toda essa construção de um cenário medieval/nórdico sombrio. Ao contrário de muitos jogos, em Hellblade você não tem a sensação de estar passando pelo mesmo cenário outra vez, com vários elementos já mostrados anteriormente sendo jogados novamente na tela, os cenários são bem variados.

Quanto ao visual da personagem, ele está simplesmente magnifico. Devido a evolução da captura de movimentos, ela quase parece com uma pessoa real, suas expressões e olhares são genuínos e passam a impressão correta de uma personagem sofrida e atormentada, os desenvolvedores conceberam a Senua com um figurino/maquiagem característico de sua tribo celta, Pictos, que habitava a Escócia, cujos guerreiros usavam a mesma pintura corporal e cabelo que ela.

Foco principal: História

Hellblade é um jogo cujo aspecto mais forte é a história, que tem elementos raros para a ficção em todo o conjunto da obra, em geral nenhum videogame até hoje executou uma história como esse fez. Senua possui esquizofrenia, com alto grau de psicose e embarca em uma jornada para salvar seu amado Dillion dos domínios da Deusa Hela.

A principio achei a premissa do jogo familiar, me lembrando desde histórias pré bíblicas como o  mito de Orfeu e Euridice, até um exemplo mais recente nos videogames, Dante’s Inferno, mas logo percebi que a trama não era tão simples assim.

Devido a sua psicose, Senua escuta várias vozes durante o jogo, muitas das quais dão dicas ao jogador de qual é o próximo passo a ser tomado, outras debocham da personagem, outras o encorajam, outras duvidam de sua capacidade e algumas vezes elas contam um pouco do backstory dela. É recomendado jogar com fones de ouvido para perceber todas elas, aliás, a mixagem de som é fantástica.

O jogador encontrará algumas runas pelo caminho, a maioria conta velhas histórias da mitologia nórdica, tiradas diretamente da Edda, outras vezes ela revelará mais da história da própria Senua. As runas são também um ponto de alivio para Senua, pois as escutando, ela foca em uma só voz, contando histórias que ela gostava da sua infância, assim parando o turbilhão de vozes em sua mente.

Entre as vozes, está a de um velho amigo de Senua, Druth, o velho tolo, que ficou preso por muito tempo no reino de Hela, sabendo bastante sobre o território e os deuses que Senua enfrentará, ele a auxiliará pela maior parte da jornada, às vezes Senua também vê a sua mãe, que compartilhou do mesmo problema dela, a psicose.

Mais tarde, outro personagem passa a habitar a mente de Senua, seu pai, Zynbel, que é representado como uma voz demoníaca e leva a crer que ele é um dos antagonistas da história. Logo descobrimos que Zynbel foi o responsável pela morte de Dillion, o sacrificando em um ritual, acontecimento que catapultou o desenvolvimento da doença mental de Senua e a levou para a sua jornada.

O ponto é que os desenvolvedores do jogo conseguiram fazer algo muito difícil, que é criar um personagem com toda essa doença mental e dar alguma complexidade para ele. Na maioria dos filmes e jogos, personagens com graves problemas mentais, como a esquizofrenia, são personagens bem unidimensionais, sendo retratados como o louco irritante que precisa de cuidados.

Aqui a história é sobre Senua e seu estado mental cria todo um universo.  A equipe, fez uma pesquisa meticulosa conversando com especialistas e pacientes diagnosticados com a doença, para conseguir êxito na criação das camadas da personagem que a tornam crível.

O mundo é construído a partir de sua mente conturbada, assim temos vários cenários que fãs de terror psicológico certamente irão gostar, é um bom jogo para se jogar na madrugada com as luzes apagadas, tem trechos com terror atmosférico mais bem executado do que muitos games do gênero por aí.

Comentário com spoilers

Assim que cheguei ao final do jogo, achei que a história tomou um rumo previsível. Estabelecendo uma personagem com problema de esquizofrenia e repetindo frases como “As maiores batalhas se luta na mente” e “Senua já morreu três vezes” não deixam muito espaço para especular qualquer outra coisa, certamente pelo menos parte do que ocorre está somente na mente de Senua.

Chegando ao final, é revelado que não somente uma parte, mas tudo ocorreu somente na mente da Senua. Previsível, mas isso não faz a história perder a mínima fração de seu valor. Apesar da história se passar na mente da personagem principal, temos que considerar que as coisas que um esquizofrênico vê é real para ele, assim como toda jornada de Senua foi real para ela.

No final do jogo, vemos Senua aceitar a morte e deixar a deusa Hela finalmente mata-la. Hela carinhosamente apanha a cabeça de Dillion, a câmera move-se para baixo e ela joga a cabeça no abismo, quando ela volta a mostra-la, vemos que ela desapareceu e Senua está em seu lugar intacta. Todo esse tempo, Hela simbolizava o estado mental de Senua e, aceitando a morte de seu amado e a sua própria, ela está mais próxima de se tornar uma pessoa melhor, travando uma infindável batalha contra si mesma no mundo de sua própria construção, pelo menos é assim que interpreto.

Considerações finais

Hellblade: Senua’s Sacrifice é um jogo belíssimo, com mecânicas boas, mas um gameplay que acaba ficando repetitivo. Divertidos combates, principalmente com os bosses. Tudo que é apresentado no jogo, contribui para o entendimento da história, que é sobre Senua, quem ela é, e o que ela deseja se tornar, sendo uma jornada introspectiva sobre uma mente que difere do padrão. As pessoas que gostam de jogos com histórias diferentes e de qualidade, certamente apreciarão o jogo.

Desenvolvedora: Ninja Theory

Distribuidor: Ninja Theory

Plataformas: PS4, Xbox one e PC

Data de lançamento: 8 de agosto de 2016

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