Pablo Giorgelli tem apenas dois filmes na carreira, mas os vários prêmios em festivais importantes e o forte reconhecimento internacional podem passar a impressão de um cineasta experiente e de filmografia extensa. No Brasil para divulgar Invisível, o seu segundo longa-metragem, ele dedicou um tempo de sua estadia para a nossa conversa. Simpático, gentil e disposto, ele falou sobre as suas obras, o seu processo criativo, as influências e mais.

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Las Acacias é de 2011. Invisívelde 2016. Por que existiu esse intervalo de cinco anos entre os dois filmes?

Por muitos motivos. Quando finalizei Las Acacias, precisei parar e pensar em outras coisas. Foi o meu primeiro filme, teve um reconhecimento e ganhou muitos prêmios. Dei uma volta no mundo, praticamente. Para mim, tudo isso foi uma surpresa. Então, não queria ficar confuso. Posteriormente, surgiram muitas propostas e eu precisava de tempo para pensar no próximo projeto. Além disso, tenho duas filhas e pretendia passar um período ao lado da família. 

Quanto tempo foi necessário para a realização do filme?

Comecei a trabalhar no roteiro em 2013. O filme está chegando aos cinemas em 2017. Portanto, foi um projeto que levou quatro anos para ficar pronto. A finalização ocorreu em março deste ano em São Paulo. Aliás, a pós-produção inteira foi realizada aqui. Já a montagem foi feita pela minha mulher, na Argentina. Gosto de trabalhar lentamente, descobrir qual é o filme que desejo fazer e a sua forma. No princípio, a gente não sabe, mas, depois, vão surgindo ideias e intuições. No entanto, para descobrir a essência, necessito de tempo. Não me apresso. Quando termino a primeira versão do roteiro, a deixo de lado momentaneamente. É depois de um mês ou dois que volto a ela. Daí em diante, o filme vai crescendo e encontrando o seu caminho. 

Discutida no filme, a questão do aborto é importante no mundo inteiro. Como surgiu a ideia de fazer um filme sobre esse tema tão delicado?

Curiosamente, o filme não começou a partir dessa ideia. Inicialmente, a protagonista tinha trinta anos. Com o passar dos anos, a história foi mudando. Quando a personagem se tornou uma adolescente, passei a olhar para a minha própria adolescência e comecei a imaginar o filme se desenrolando nos lugares em que vivi, como o bairro de La Boca, local onde a minha mãe ainda mora. Então, no começo, o filme tinha a ver somente com a solidão e o desamparo sentidos pelos jovens. Afinal, quase todos passamos por momentos em que não sabemos a nossa identidade, o que queremos, a natureza das relações filiais etc. Esse é o coração do filme.  Quando apareceram a personagem da mãe e o relacionamento que a protagonista tem com ela, surgiu a questão do embaraço. No momento em que esta surgiu, me perguntei o porquê disso. E foi aí que nasceu o tema do aborto. Porém, para mim, Invisível não é sobre aborto, mas sobre a adolescência.

Há um forte pano de fundo social no filme. Ao fazer isso, você desejava realizar algum tipo de crítica ou denúncia?

Durante a escrita do roteiro, uma das coisas que surgem é a contextualização. No caso de Invisível, fiquei muito interessado na questão da família: o que ela é, como se forma. No entanto, isso não era suficiente e havia a necessidade de um contexto político, social e econômico, uma vez que a protagonista é como é e age como age porque vive em uma situação determinada. Talvez, se vivesse na França ou Alemanha, as coisas seriam diferentes. Porém, na Argentina, o aborto é ilegal. Então, esse contexto era muito importante. Inclusive, encontrar uma maneira de transmitir esse panorama foi uma das coisas mais difíceis de serem feitas, pois não desejava fazê-lo de um modo explícito, mas mostrá-lo como uma presença forte, brutal e sem rosto, invisível. 

O filme tem um estilo muito documental e direto. Como e por que você decidiu usar essa abordagem?

A minha intenção era que a estética refletisse a invisibilidade do contexto e dos adultos nas vidas dos jovens. Não queria que a câmera se mostrasse presente. Ela tinha apenas de observar e registrar o drama que se desenrolava. A forma é tão importante quanto o conteúdo. Se Invisível tivesse sido filmado sob outra perspectiva, seria algo bastante distinto. No longa, forma e conteúdo estão muito ligados. Após quatro anos de produção, o filme tinha de ser assim: simples, direto, sem truques e distrações. Estas últimas não poderiam existir de maneira alguma. Tínhamos de acompanhar a protagonista apenas, para tentar entendê-la, sentir e ser como ela por alguns momentos. 

Como se iniciou a sua relação com o cinema? E quais são as principais influências?

A minha relação com o cinema começou tardiamente. Gostava de ver filmes na época da escola, mas, antes de me tornar um cineasta, estudei Direito, trabalhei em um banco. Assim, levei muito tempo para achar que podia fazer um filme. Costumava me sentir um impostor, alguém que não sabia fazer cinema. Porém, sou muito teimoso e apesar de me sentir mal e incapaz, realizei o meu primeiro longa. Quando o fiztinha 44 anos. Agora, tenho 50. Sobre as minhas influências, os filmes que mais me tocam são recortes humanistas, como as obras de Abbas Kiarostami, os filmes do neorrealismo italiano, do cinema romano, a Trilogia de Apu etc. Gosto bastante de cinema de gênero também. No cinema industrial e vazio, nada me interessa.

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