É comum que as pessoas, em feriados cristãos, busquem assistir a filmes que narram a história de Jesus Cristo. Muitos canais de televisão, inclusive, reforçam essa propensão passando anualmente os mesmos títulos, quase sem variações. Claramente, pode haver muito valor nessas escolhas. Alguns dos maiores diretores da história fizeram filmes sobre a vida e morte de Jesus. No entanto, para fugir do óbvio, é hora de fazer uma lista com longas que sejam essencialmente cristãos, mas mostrem a história de personagens fictícios ou que não sejam muito conhecidos, apesar de serem reais. Afinal de contas, não há maneira melhor de ressaltar a mensagem de Cristo do que através dos seus efeitos nas pessoas, mesmo quando elas foram criadas pela imaginação de um artista. Esta também pode ser uma ótima oportunidade para que filmes desconhecidos do grande público possam ser vistos. Portanto, vamos à lista: 

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10 – Tentação Diabólica, de Leo McCarey

Há muitas semelhanças entre Tentação Diabólica Silênciodo Martin Scorsese. Ambos são filmes que narram as dificuldades enfrentadas por padres em países onde os cristãos são torturados e mortos. Mas enquanto o filme mais recente se coloca numa posição ambígua, em que o sacrifício é substituído pela apostasia, o longa de McCarey fala sobre martírio e a transformação do ódio em amor. A maneira como a trama se estrutura reflete a própria mensagem cristã: no início, os acontecimentos e personagens surgem nublados, apenas para, no fim, revelarem a beleza interior, numa espécie de clareza divina.

09 – A Religiosa Portuguesa, de Eugène Green

A Religiosa Portuguesade Eugène Green, contém duas características que merecem ser ressaltadas. A primeira delas é a homenagem às paisagens e à cultura portuguesa. Se inspirando nos filmes de Manoel de Oliveira (que, de certa maneira, é a o patrono desta lista), o diretor abraça completamente o país em que a história se desenrola e ilustra o seu caráter fortemente místico, quase transcendente. A segunda é o paralelo estabelecido entre a protagonista e a personagem da freira. Embora as duas sigam caminhos diferentes, elas se completam, como se fossem dois lados de uma mesma moeda, uma sendo a salvadora, a outra representado a busca pela ascese. O final pode ser interpretado tanto metafisicamente quanto na forma de um comentário sobre o caráter espiritual da arte.

08 – A Lenda do Santo Beberrão, de Ermanno Olmi

O protagonista de A Lenda do Santo Beberrão é, como o próprio título diz, um homem bondoso, mas atormentado pelo vício. Os seus sinuosos caminhos são pontuados por acontecimentos misteriosos cuja exata origem é desconhecida. A dívida que ele tem de pagar é muito maior do que o dinheiro que está em suas mãos. Ela tem a ver, em essência, com as justificativas que daremos a Deus no julgamento final. Os pecados estariam automaticamente perdoados pela situação precária em que se encontra o mendigo Andreas (Rutger Hauer) ou a retidão moral é necessária até nesse cenário? No filme, muitas perguntas se acumulam e poucas respostas são dadas, condição que parece central na fé cristã.

07 – Mamma Roma, de Pier Paolo Pasolini

O cineasta italiano Pier Paolo Pasolini é responsável por aquela que talvez seja a melhor adaptação cinematográfica da história de Jesus Cristo, O Evangelho Segundo São MateusPorém, como a intenção foi evitar obras dessa natureza, Mamma Roma aparece como uma opção natural. No longa, a presença cristã é visível, principalmente, através dos simbolismos. Apesar de existir um evidente comentário social (um aspecto muito comum na filmografia do cineasta), o arco dramático de Mamma Roma (Anna Magnani) é uma mistura das histórias de Maria e Maria Madalena, assim como o de Ettore reflete a de Cristo. Vale dizer que todos esses simbolismos estão inseridos na reconstrução moral de uma Itália devastada em razão das guerras mundiais.

06 – Sob o Sol de Satã, de Maurice Pialat

Nas doutrinas cristãs, os exemplos contrários sempre exerceram um poder imenso sobre os fiéis. Sob o Sol de Satã, do diretor Maurice Pialat, é o filme que tem um papel parecido nesta lista. No mundo criado pelo romancista Georges Bernanos e adaptado pelo diretor francês, o Mal, na figura de Satanás, reina e persegue os cristãos, fazendo crescer em seus corações a oscilação e a fraqueza. Até o evento principal da história é marcado pela dúvida. Representada na secura com que os diálogos são filmados, a ausência de esperança é o principal aspecto de um cenário aparentemente desprovido de bondade e da presença de Deus.

05 – Céline, de Jean-Claude Brisseau

Jean-Claude Brisseau seria o primeiro a dizer que Céline não é um filme cristão e que os acontecimentos narrados pertencem a muitas religiões. De fato, não dá para afirmar que ele se inspirou inteiramente em textos cristãos para escrever o filme, mas além de ser declaradamente católico, o diretor, em certo momento, recorre àquilo que constitui o coração do cristianismo: o milagre. Até os minutos finais, é possível enxergar várias influências espirituais na maneira como a história de Céline se desenrola, mas o que acontece no final, assim como a vontade da personagem de ir a um convento, representam, respectivamente, a essência das religiões cristãs e o início de uma vida de santidade.

04 – Nazarín, de Luis Buñuel

Pode parecer estranho que Luis Buñuel, ateísta convicto e satírico das religiões e dos dogmas cristãos, tenha um filme nesta lista. Entretanto, algumas pessoas já afirmaram que, talvez, o cineasta espanhol foi um sujeito cuja realização espiritual se deu por vias diferentes. Obviamente, na obsessão nutrida por Buñuel pelo cristianismo, mesmo que na forma de zombaria, existia uma nítida preocupação com temas metafísicos. Porém, curiosamente, não há nenhum tipo de cinismo em Nazarín. A história do protagonista, repleta de provações, recria os percalços enfrentados por Cristo e nos mostra as dificuldades de manter a fé e a moral em um mundo habitado pela vulgaridade.

03 – Andrei Rublev, de Andrei Tarkovsky

Quem leu Esculpir o Tempo Diários, de Andrei Tarkovsky, sabe que o diretor russo enxerga a arte como um meio para atingir a transcendência espiritual, a qual também é prometida pelas religiões e práticas místicas. O filme em que essa visão se torna mais clara é Andrei Rublev. A confirmação do protagonista acontece quando o seu papel como artista é compreendido. A noção de sair ao mundo não só para conhecê-lo como também para conhecer a si próprio é disposta em uma narrativa longa, cheia de idas e vindas, e que termina com uma aceitação por parte de Andrei do talento que lhe fora dado por Deus. O auto-conhecimento do protagonista é o pressuposto para a realização plena da arte sacra.

02 – Diário de um Pároco de Aldeia, de Robert Bresson

Tanto na literatura quanto no cinema há escassez de uma representação específica: a da santidade. Não é para menos, uma vez que para conceber um personagem santo é necessário que haja dentro do autor características similares. O romancista e o diretor que realizaram essa tarefa brilhantemente são Georges Bernanos e Robert Bresson, no livro e filme Diário de um Pároco de Aldeia, respectivamente. Mesmo que exista um momento em que a ação divina é evidente, toda a história, embora marcada por sofrimento, parece abençoada pela Graça. Se em Sob o Sol de Satã o mundo parece dominado pelo Mal, em Diário de um Pároco de Aldeia, ele é governado somente pelo Bem.

01 – A Palavra, de Carl Theodor Dreyer

Assim como em Célineo milagre é o grande protagonista de A Palavra. No entanto, ao passo que ocorre uma cura no filme de Brisseau, os personagens e o público testemunham uma ressurreição no longa de Carl Theodor Dreyer. Além disso, ela ocorre no meio de uma briga entre praticantes de religiões distintas, o que é um jeito de ressaltar que, no furacão das disputas humanas (tão pequenas quanto nós), a verdade divina se posiciona no centro (prestem atenção na imagem acima), como a única e verdadeira realidade. Não é à toa que o personagem que realiza o ato final é considerado louco, quando, na verdade, é o mais são de todos, pois é capaz de ver o que realmente importa e desviar a atenção daquilo que é supérfluo. 

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