Muitas vezes, ao se assistir a um filme, surge uma impressão de déjà-vu, ou seja, de já se ter visto determinada cena. Existem vários motivos para que isso ocorra, como se percebe em O Lar das Crianças Peculiares (Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children, 2016). Inicialmente,  esse ar de familiaridade pode ser creditado ao fato de a película, ainda que baseada em um romance de Ramson Riggs, ter sido dirigida por Tim Burton. Assim, há algo de autoral nela, o que se revela na presença de personagens desajustadas socialmente (os famosos “misfits”). Ao valorizar esse tipo humano, Burton questiona o stablishment, o convencional, o presumido modelo do “american way of life”. Se para a maioria, que age de forma alienada, os integrantes desse mundo são vistos como vitoriosos, pois são exemplos de bons profissionais, bons consumidores e bons familiares, para nós, que compactuamos com o viés do diretor, passam a ser entendidos como medíocres intelectual e psicologicamente.

É dentro desse tópico que encaixamos Frank, pai do protagonista de O Lar das Crianças Peculiares. Quem foge a esse padrão sofre, já que é tachado de anormal, esquisito. É o que ocorre com Jake, o pequeno grande herói dessa história. Já não vimos essa oposição em outras obras de Burton, como Beetlejuice (Bettlejuice, 1988), Eduardo Mãos de Tesoura (Edward Scissorhands, 1990) e até mesmo Marte Ataca! (Mars Attacks!, 1996)? No entanto, há outros elementos que permitem essa intrigante sensação de já visto em O Lar das Crianças Peculiares. Obviamente, há muito que se discutir sobre esses pontos de contato: podem ser intertextualidades, ou expressões de um mesmo contexto cultural ou apenas exemplos de comodismo de um diretor que preferiu andar pelo terreno seguro do imaginário já conhecido do público – o mais do mesmo. Antes de se formar uma opinião, seria interessante conferir alguns desses déjà-vus na lista a seguir.

1. Edward Mãos de Tesoura (Edward Scissorhands, 1990)

No jardim do lar da Senhora Peregrine existe uma árvore que fora podada de maneira a adquirir a forma de um dinossauro. Eduardo Mãos de Tesoura mostra no filme em que é protagonista suas habilidades em topiaria ao dar a mesma forma animal ao mesmo tipo de vegetal. Muitos cineastas gostam de brincar com essa repetição de elementos. Basta lembrar, por exemplo, que George Lucas dissemina em seus filmes o número 1138, referência à sua primeira obra.

2. Jasão e os Argonautas (Jason and the Argonauts, 1963, direção de Ray Harryhausen)

Os dois bonecos que Enoch criou participam de uma luta que foi filmada em stop motion. Em quase todos os filmes de Tim Burton existe uma cena com esse tipo de processo, o que aos olhos atuais parece rudimentar. Trata-se, entretanto, de uma influência que o diretor assumiu e que acabou funcionando como homenagem a Ray Harryhausen e ao seu clássico dos anos 1960.

3. A Múmia (The Mummy, 1999, direção de Stephen Sommers)

A cena em que um exército de esqueletos entra em combate em Blackpool, na Grã-Bretanha, faz lembrar, até com o mesmo tempero humorístico, o momento em que a guarda cadavérica de Imhotep surge tanto para atrapalhar como para ajudar os heróis de A Múmia. Essa é a referência que o público mais jovem capta, mas na verdade ela é uma conexão com Jasão e os Argonautas, película que assumiu posição modelar.

4. Marte Ataca! (Mars Attacks!, 1996, direção de Tim Burton)

Já no clímax da narrativa, a crítica que o vilão Barron lança sobre a clientela da psicanalista Doutora Golan, gente que pertence ao high society norte-americano, parece eco de outro clímax, dessa vez em uma das cenas mais icônicas de Marte Ataca!. Trata-se do momento pândego em que o presidente dos Estados Unidos propõe um acordo entre o seu país e o planeta dos invasores. Nos dois instantes a glória estadunidense sai ironicamente espezinhada.

5. Peter Pan (Peter Pan, 1953, direção de Clyde Geronimi et alii)

Esse desenho animado dos estúdios Disney serviu para popularizar mundialmente a obra de J. M. Barrie (nascida como peça teatral em 1904, mas convertida em romance em 1911), que apresenta como protagonista uma personagem que se mostra sempre criança na Terra do Nunca. Em outras palavras: um prisioneiro do tempo e do espaço. Nesse ponto, faz lembrar as crianças que habitam o orfanato de Miss Peregrine.

6. Alice no País das Maravilhas (Alice in the Wonderland, 1951, direção de Clyde Geronimi et alii)

Miss Peregrine e as crianças que estão sob sua responsabilidade vivem a obrigação de cumprir uma rotina que a nossos olhos parece loucura, mas que é natural para os que se encontram num mundo mágico: repetir ações dentro de uma rígida cronologia. É o que encontramos também na cena do chá do Chapeleiro Louco em Alice no País das Maravilhas, desenho da Disney que popularizou o romance de Lewis Carroll publicado em 1865. Curiosamente, essa obra foi refilmada por Tim Burton, sendo exibida em 2010, e tendo uma continuação em 2016.

7. Hook (Hook, 1991, direção de Steven Spielberg)

Esse filme mostra o que acontece com alguém que abandona a Terra do Nunca: torna-se um adulto chato, ou, em termos mais educados, incompleto e infeliz. Essa é de certa forma a história do avô de Jake e o risco que pode ocorrer com o próprio protagonista de O Lar das Crianças Peculiares.

8. A Família Addams (Addams Family)

Essa obra nasceu como cartum de Charles Addams em 1937. Depois se transformou em um charmosíssimo seriado de TV lançado em 1964, sendo dirigido por David Levy. Em 1973 passa para desenho animado nas mãos dos irmãos Hanna-Barbera. Consagram-se no cinema a partir de 1991, agora sob a direção de Barry Sonnenfeld. Em todas essas versões acompanhamos o cotidiano doméstico de uma família que seria qualificada por um olhar apressado como assustadora, mas que na realidade é extremamente amorosa e receptiva. Tais são as características das crianças peculiares e de sua governanta, um grupo de desajustados mal compreendidos.

9. X-Men (X-Men, 2000, direção de Bryan Singer)

É notório que a franquia X-Men, inaugurada na telona em 2000, é uma adaptação da congênere pertencente ao universo HQ da Marvel. O que não é de conhecimento geral é que essa história, que se passa em um ambiente e em uma faixa etária escolar, lida com os temas do desajuste social e da luta pela autoaceitação fortemente sentidos na adolescência, o que justifica o sucesso obtido entre o público que consome essa saga. Esses mesmos ingredientes também estão presentes em O Lar das Crianças Peculiares. Até o tema da guerra entre seres especiais, ignorada pelos coitados ditos normais, está nas duas obras.

10. Harry Potter (Harry Potter, 2001, direção de Chris Columbus)

Um grupo de adolescentes com capacidades especiais vê-se em um ambiente escolar em meio a uma batalha ignorada pelos coitados ditos normais, os trouxas. Sim, esse resumo está tão vago que acabou confundindo a trama de Harry Potter, saga criada por J. K. Rowling em 1998 e colocada no cinema em 2001, com a de X-Men e a de O Lar das Crianças Peculiares. No entanto, não há como negar que essas três obras compartilham esses elementos narrativos. (Aliás, é impressionante a semelhança entre a imagem acima, material promocional de Harry Potter, e a imagem no topo dessa matéria, também material de divulgação, dessa vez de O Lar das Crianças Peculiares.)

11. Os Outros (The Others, 2001, direção de Alejando Amenábar)

Esse filme lida com a presença de dois mundos divididos pelas dolorosas experiências da Segunda Guerra Mundial, fatores que paralisam o tempo. Tais também fazem parte da trama de O Lar das Crianças Peculiares. Há também nas duas obras uma mulher responsável por crianças, sempre tentando protegê-las de um terrível perigo exterior. Mais não pode ser dito em nome do bom senso: seria spoiler. Se você não sabe do que se está falando, vá agora assistir a essa excelente película.

12. As Crônicas de Nárnia (The Chronicles of Narnia, 2005, direção de Andrew Adamstown)

Este filme, baseado no romance homônimo de C. S. Lewis publicado em 1949, conta a história de crianças que utilizam um portal em um guarda-roupa para fugir de uma Grã-Bretanha bombardeada por nazistas e se deparar com um universo fantasioso e mágico. A tensão provocada por aviões alemães em território britânico e o refúgio em um mundo mágico também estão presentes em O Lar das Crianças Peculiares.

13. As Aventuras de Pi (Life of Pi, 2012, direção de Ang Lee)

Baseado no romance de Yann Martel publicado em 2001, este filme lida com duas narrativas, uma mais apegada aos aspectos pragmáticos da vida e a outra aos fantasiosos. O interessante é que ambos estão conectados e por isso são válidos e, portanto, verdadeiros. Dessa forma, por exemplo, Richard Parker, o tigre, realmente existiu (versão fantasiosa), como também funcionou como mera metaforização do instinto selvagem de sobrevivência que permitiu que Pi aguentasse meses à deriva (versão pragmática). Nessa mesma lógica, em O Lar das Crianças Peculiares Jake vê uma ave de uma espécie chamada “peregrine”. Para ele, aberto ao mundo da fantasia, era Miss Peregrine, amiga de seu avô. Para seu pai, pragmático, era apenas prova de que o velho tinha mentalidade desregulada, imaginando que aves eram pessoas.

14. Titanic (Titanic, 1997, direção de James Cameron)

Quando O Lar das Crianças Peculiares mostra Jake e seu pai navegando por águas geladas do hemisfério norte e ainda mais quando faz referência ao Augusta, navio que por lá havia afundado, não é difícil vir à mente a imagem do lendário Titanic. Essa lembrança fica mais forte quando se passeia nas ruínas da embarcação naufragada. O momento em que ela emerge parece realizar um sonho secreto que tínhamos sempre que assistíamos ao grande sucesso de 1997: ressuscitar aquela glória de tempos idos.

15. Piratas do Caribe (Pirates of the Caribbean, 2003, direção de Gore Verbinski)

O surgimento do Augusta, vindo do outro mundo praticamente, e com uma tripulação fantasmagórica, faz lembrar Piratas do Caribe com o Pérola Negra e sua equipe que de certa forma também está amaldiçoada pela fronteira do tempo.

16. Sherlock Holmes (Mr. Holmes, 2015, direção de Bill Condon)

Roger é um jovem que em Sr. Sherlock Holmes aprende a lidar com abelhas. Coincidentemente, o mesmo ator, Milo Parker, interpreta em O Lar das Crianças Peculiares o garoto Hugh, que tem a habilidade de controlar abelhas.

17. Skyfall (Skyfall, 2012, direção de Sam Mendes)

Judi Dench interpreta em Skyfall a antes durona e mandona M, que se vê agora obrigada a fugir da sanha de um psicopata. A mesma atriz faz em O Lar das Crianças Peculiares o papel de Senhorita Avocet, uma governanta que perde seu poder e se vê obrigada a fugir de um vilão insano. Em ambas as películas o lado maternal dessas personagens é trabalhado.

18. Slenderman

Considerado o primeiro mito da web, Slenderman é uma personagem criada em 2008 por Eric Knudsen (Victor Surge). Alto, magro, de braços cumpridos, sem rosto, tem habilidades extremas que o faz dominar e aterrorizar suas vítimas. Assemelha-se aos etéreos, terríveis inimigos das crianças peculiares.

19. Os Simpsons (The Simpsons, 1989)

A celebérrima e já mitológica animação de Matt Groening consagrou a figura do desmoralizado patriarca Homer Simpson, mais preocupado em tomar sua cerveja enquanto assiste TV num processo que se assemelha a lobotomia. Essa personagem funciona como um tipo representando a maneira como seus produtores veem um padrão de cidadão estadunidense. Esse mesmo processo simbólico pode ser visto em O Lar das Crianças Peculiares, pois Frank, pai do protagonista, viaja para uma ilha com história e praias interessantes, mas prefere ficar diante de um aparelho de televisão.

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