Conheça as origens da obra de Masamune Shirow

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Desde que Sócrates, pela primeira vez na história humana, dedicou uma vida de reflexão para tentar compreender o univeros interior do ser humano, em contraste com seu universo exterior, nós somos obrigados a nos fazer perguntas pungentes e incisivas, mas necessárias. Essas questões não são simples – mais relevante se faz entender até, é que sequer por serem ideias formuladas na forma de questões, elas necessariamente possuem uma resposta.

Essas questões?

Quem somos nós? Como nós pensamos? De onde vem nossas ideias? O que nos define como sendo o que nós somos?

Tão antigas quando o próprio pensamento humano, essas questões – como dissemos – permanecem sem resposta. E talvez nem devam ser respondidas. O que não significa que alguns esforços – como os de Sócrates – não tenham sido feitos. Incidentalmente, a questão da identidade humana, da definição da nossa existência, e da origem do nosso pensamento, são alguns dos temas favoritos da ficção científica. Afinal, não poderia existir um campo da arte e do entretenimento tão dedicado a especular e se debruçar sobre questões tão profundas quanto esse.

E essa semana, estréia nos cinemas a adaptação live-action de uma das obras mais interessantes do século passado, inspirada justamente por essas questões – A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell. Baseado no mangá original de Masamune Shirow, o filme conta a história de Mira Killian, uma oficial de um departamento chamado Seção 9, que caça suspeitos de cyber-terrorismo.

Scarlett Johanson é a protagonista da adaptação de Ghost in the Shell!

Durante uma investigação sobre um habilidoso hacker, ela começa a desenterrar memórias sobre o seu passado, que haviam sido perdidas após seu cérebro ser transplantado para um corpo cibernético. No processo, ela começa a questionar não apenas a sua própria identidade, mas a realidade a volta dela. Conforme ela descobre mais e mais, as únicas questões que latejam em sua mente são: quem ela é? E qual é o seu propósito?

O amigo leitor pode ver que não são temas simples, nem de conhecimento comum. E, como ninguém tem a obrigação de ser um especialista em filosofia ou em ficção científica, nós separamos cinco livros e contos para ajudá-lo a imergir melhor no universo de Ghost in the Shell, para melhor compreender os temas tratados ali.

Nossa lista não está em ordem de qualidade ou relevância, e todas as obras aqui valem mais do que a pena você ter na sua estante. Algumas já estão fora de catálogo – a pouco ou muito tempo. Mesmo assim, vale uma peneirada em sebos e livrarias, pois todos os livros aqui não são menos que obras-primas.

Vamos à lista!

1 – O Fantasma na Máquina (The Ghost in the Machine – 1967)

O Fantasma na Máquina original é um livro escrito por Arthur Koestler, um húngaro radicado no Reino Unido. Escritor e jornalista, Koestler tinha um profundo interesse pelas ciências humanas, o que fez com que ele se aproximasse das filosofias em voga no início do século passado. Entre elas, a crítica ao dualismo cartesiano realizada por um filósofo inglês chamado Gilbert Ryle – crítica essa relacionada à oposição realizada por Descartes na relação entre mente e corpo.

Koestler compartilhava com Ryle a visão de que a mente de uma pessoa não é uma entidade não-material independente, temporariamente habitando e governando o corpo. Um dos conceitos centrais do livro, escrito em 1967, é que conforme o cérebro humano evoluiu, ele reteve estruturas mais primitivas, construindo-se sobre elas – essas estruturas mais primevas agem como uma espécie de “fantasma na máquina” sobre as estruturas lógicas e racionais, muito mais sofiticadas.

O trabalho tenta explicar as tendências humanas para a auto-destruição em termos de estrutura cerebral, filosofias, e suas extrapoladas e cíclicas dinâmicas politíco-históricas, alcaçando o máximo de seu potencial no conflito nuclear. A experiência dualista ocorreria com algo que Koestler chamou de holon. A noção de holon concebe que a mente é – concomitantemente –  um todo em partes que o compõem.

Um superposição de forças manifestas, em cada holon corporal, tem a consequência de toda uma hierarquia de forças – ontogenética, habitual, linguistica prescritiva e ciência social – operando em um continuum de streams de feedback feedforward, extendidos ao seu meio-ambiente maior. Esses streams são alimentados por sinais vitais de cada um dos membros de um grupo, e essa corrente participativa é o espírito vital que pode ser definido como “fantasma”. Mas esse espírito é apenas uma parte simplificada de um conjunto de conhecimento maior, emergindo da complexidade das regras e estratégias desse grupo.

Koestler tenta contrastar o problema da relação mente-corpo com uma aproximação behaviorista até um tanto simplista, mas que causou grande impacto no período – e depois também. O Fantasma na Máquina ainda é considerado a maior influência para Ghost in the Shell, que, por consequência, também inspirou outras obras, como Matrix.

Curiosamente, O Fantasma na Máquina não é considerada a obra maior de Koestler, sendo esse título outorgado pra O Zero e o Infinito (Darkness at Noon), outro livro que também vale muito a pena ler. De toda forma, se o amigo leitor tem interesse pelo universo e pelos conceitos de Ghost in the Shell, O Fantasma na Máquina é uma obra mandatória.

2 – Neuromancer (Idem, 1984)

Considerada a obra seminal sobre o universo ciber-punk, Neuromancer é uma daquelas raras obras que perduram através do tempo, mas que tiveram o deleite de desfrutar de um sucesso imediato, tendo recebido todos os três maiores prêmios que uma obra de sci-fi pode receber – Hugo, Nebula e Philip K. Dick. Mas os louros exteriores a obra não chegam sequer perto de refletir a importância da obra.

Escrito por William Gibson, Neuromancer é parte de uma trilogia – Sprawl – que popularizou certos conceitos relacionados à tecnologia contemporânea – como hackers, ciber-espaço, ICE (Intrusion Countermeasures Electronics), etc., além de ter consolidado o cyberpunk como um dos subgêneros definitivos da ficção científica. Aliás, ele também co escreveu, com Bruce Sterling, A Máquina Diferencial.

Nós acompanhamos a história de Case, um ex-hacker (cowboy, como são chamados os hackers em Neuromancer) que foi impossibilitado de exercer sua profissão, graças a um erro que cometeu ao tentar roubar seus patrões. Eles então envenenaram Case com uma micotoxina, que danificou seu sistema neural e o impossibilitou de se conectar à Matrix. Antes, deixaram uma quantia de dinheiro com ele, pois “iria precisar dele”.

Case então procura as clínicas clandestinas de medicina de Chiba City, onde gasta todo seu dinheiro com exames, sem conseguir encontrar uma cura. Drogado, sem dinheiro, desempregado – é nessa condição que Molly o encontra e a trama se inicia, com uma cura para os danos de Case à vista. Diversos personagens interessantes são introduzidos durante a trama, incluindo as I.A.’s irmãs Wintermute e a verdadeira protagonista do livro, Neuromancer (curiosamente, carioca, já que seu frame está instalado no Rio de Janeiro).

A obra se apresenta como um jogo entre gato e rato, inicialmente dando a entender que os protagonistas esbarram continuamente em pistas falsas. Mas conforme a trama se desvela, percebemos que chamar essas pistas de “falsas” pode ser um equívoco, já que se torna cada vez mais difícil definir o que é real ou não – em última instância, o que é realidade em si.

Neuromancer foi uma influência pesadíssima para Ghost in the Shell, principalmente no que se pode observar de um ciber-espaço que é quase físico – ou então, quase “real”, o que quer que essa palavra signifique, nesse elusivo terreno onde estamos pisando. Não obstante, a ideia de uma I.A. protagonista, com sua própria personalidade, desejos, receios e anseios, também é herdade pelo mangá de Shirow, onde somos colocados em situações cada vez mais limítrofes que nos obrigam a perguntar: o que é vida? O que é realidade?

3 – Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas? (Do Androids Dream of Electric Sheep? – 1968)

Outro dos problemas centrais de Ghost in the Shell é a questão “o que é vida“? Ou melhor – o que define algo como sendo “vivo”? Pense duas vezes se você acha que essa é uma questão simples, amigo leitor – pois, na era das inteligências artificiais, esse conceito é abstrato. Você pode dizer que algo que percebe a si mesmo e tem auto-consciência pode ainda ser chamado de “algo” – ou deve ser chamado de “alguém”?

Esse é o conceito central que permeia Andróides Sonham Com Ovelhas Elétricas?, o texto que serviu como base para o agora clássico cult Blade Runner, de 1982.

O livro nos impõe a difícil tarefa de simpatizar com o caçador de recompensas Rick Deckard, que deseja comprar um animal de estimação de verdade para substituir sua ovelha elétrica. Artigo raro no futuro distópico descrito pelo autor Philip K Dick, os animais naturais estão todos praticamente à beira da extinção, pois uma guerra nuclear devastou a Terra, levantando uma enorme nuvem de poeria que quase acabou com a fauna e a flora do planeta.

Possuir um animal de verdade é um símbolo de status, além de uma demonstração de empatia. A oportunidade surge para Deckard quando seis andróides fugitivos precisam ser “aposentados”. Os andróides são agora responsáveis por realizar todo o trabalho pesado humano, em situações e ambientes onde humanos normais pereceriam. Eles são conhecidos por não serem muito brilhantes, além de incapazes de demonstrar sentimentos, embora sejam indissociáveis de seres humanos em aparência.

Existe um jogo cínico criado por Dick entre os sentimentos de apatia e rancor “reais” dos seres humanos, e os mesmos sentimentos demonstrados pelos andróides fugitivos – uma crítica óbvia de que, para a humanidade, existem sempre dois pesos e duas medidas, com o nosso instinto de sobrevivência natural sendo sempre exacerbado na forma de privilégio auto-outorgado em relação à todo o resto da vida no planeta, estivesse ela aqui antes de nós, ou tendo sido criada por nós. Como os andróides.

Da mesma forma, muitos dos modelos de andróides mais recentes no livro também passam por outra angústia – alguns receberam memórias implantadas, sendo incapazes de desassociar o que é real do que foi colocado. Mas, afinal, como já discutimos até aqui, como determinar o que é real ou não, o que está vivo ou não?

Em Ghost in the Shell, encontramos o eco dessa obra – a protagonista Motoko Kusanagi é um cérebro vivo, em um corpo artificial. Ou é um corpo vivo, funcional, que abriga a ilusão de uma mente? Onde está o limite da vida entre os replicantes e Deckard? Quando ele atira em um deles, ele está matando um ser vivo, ou desativando um equipamento?

4 – Superbrinquedos duram o verão todo (Supertoys Last All Summer Long and Other Stories of Future Time – 1969)

Dessa antologia do inglês Brian Aldiss (confira também a resenha de Os Negros Anos-Luz) sai aquela que talvez seja a mais cruel de todas as histórias. A despeito de toda a carapaça de ficção científica, as extrapolações metalinguísticas e o rico imaginário criado para o livro pelo autor, esse conto é na verdade bastante simples: a história de uma criança inocente que nunca conseguiu estar à altura da expectativa de sua mãe.

Trata-se de outro futuro distópico, onde apenas um quarto da população de uma Terra super-lotada vivem bem e com conforto. Mas mesmo essas pessoas, diante desse quadro caótico, precisam obter permissão para ter filhos. Monica, uma mulher solitária e depressiva, tenta conviver com a presença aparentemente alinígena a ela de David, seu filho. David é constantemente sabatinado com questões demasiadamente profundas e avançadas para sua idade, como por exemplo, o que é ser real ou não.

A açucarada versão de Spielberg para o cinema entrega logo no início o maior spoiler da trama – David é, na verdade, uma I.A. substituindo o verdadeiro filho de Monica. Daí a incapacidade desta de ama-lo como mãe. Aldiss esfrega, sem piedade, uma verdade cruel da condição humana em nossas caras – nosso amor é seletivo.

Aldiss entendia que a ficção científica deve provocar uma sensação de desconforto. É preciso acontecer algo que transforme o mundo de maneira radical, e não obrigatoriamente para o bem da humanidade. Nesta antologia, que também inclui o texto aqui citado, o autor atinge seu objetivo com perfeição.

Cria universos imaginários para melhor questionar o contemporâneo, projetando desenlaces para problemas atuais – superpopulação, carência de alimentos, desigualdades sociais, manipulação genética, globalização – ou atemporais – a busca de Deus, das origens, o sentido da existência, o lugar do homem no universo, o livre-arbítrio, o tempo.

Superbrinquedos Duram o Verão Todo deve ser lido com parcimônia, em um momento propício para a reflexão. Pois o amigo leitor pode não gostar do que ele vai ver nesse espelho.

5 – O Homem Bicentenário (The Bicentennial Man and other stories – 1976)

Outro conto que ganhou outra versão açucarada para os cinemas, O Homem Bicentenário é o representante de Isaac Asimov da lista. E assim não poderia deixar de ser, já que o homem que criou as três leis da robótica, redefinindo na literatura, a relação dos seres humanos com a tecnologia vindoura não poderia ficar de fora.

Dos cinco, talvez seja o de estrutura narrativa mais simples, mas não por isso, menos densa. A história conta a trajetória de NDR-113, um andróide programado para realizar tarefas domésticas. Entretanto, a carinhosa família, principalmente o pai e a filha, ganham afeição pelo robô, que aos poucos vai sendo tratado como parte da família.

O ponto de virada na trama é extremamente gradual, mas não perde nada de sua potência. Muito simples – aqueles que o andróide aprendeu a se afeiçoar vão envelhecendo e morrendo, enquanto Andrew, nome dado ao andróide, permanece para testemunhar. O conto, apesar de breve, pontua muito bem a angústia de Andrew por permanecer existindo, com Asimov nos dando uma perspectiva interessantíssima sobre a nossa mortalidade como sendo algo definidor da existência humana.

Mesmo sendo de um tom mais leve que as obras anteriores, o Homem Bicentenário também não escapa de expor certas crueldades da visão que os seres humanos tem sobre as outras formas de vida que habitam esse mundo – quando Andrew decide que quer se tornar humano, enfrenta uma longa batalha jurídica, muitas vezes permeada pelo simples desejo de não ceder ao seu legítimo anseio – como não poderia deixar de ser.

Com argumentos éticos perniciosos, fundamentados menos na lógica e na razão, e mais no desejo inato de permanecer como a espécie privilegiada do planeta, os humanos do conto se recusam por muito tempo, a aceitar Andrew como uma forma de vida – muito menos, uma forma de vida humana. Como Asimov é menos ácido do que os autores anteriores, o conto tem um final catártico, mas que não exime a humanidade de sua crueldade e egoísmo, revelados na nossa recusa em aceitar que somos apenas uma pequena parte de uma existência muito maior do que nós.

É isso, amigo leitor! Com essas leituras a tira-colo, você chegará maquinado ao cinema para entender melhor os conceitos por trás de Ghost in the Shell. Ou então, assista primeiro, e se aprofunde ainda mais com essas obras.

Não se esqueça de curtir e comentar – a I.A. que está escrevendo esse texto é bastante sensível, e meio rancorosa.

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