Semana passada estreou no cinema o filme, IT – A Coisa, adaptação do livro homônimo do escritor Stephen King. O longa se transformou num sucesso de crítica e de público, o que rendeu até agora excelentes números de bilheteria. Mas, o principal dessa obra é que ela também agradou ao escritor do livro. King elogiou e muito a adaptação, e deu garantia de que aqueles que eram seus fãs iriam gostar.

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Adaptar uma obra literária para o cinema é difícil porque nem tudo que está no livro pode ir para as telas. Isso prejudica algumas idéias que o livro quer passar, então é com certeza um ponto extremamente positivo o filme do diretor Andy Muschietti ter sido elogiado pelo escritor de terror. Porém, outras adaptações não tiveram a mesma sorte e foram massacradas pelos autores dos livros a qual se basearam. Vamos falar sobre algumas dessas.

PL TRAVERS – MARY POPPINS

Mary Poppins é um clássico da Disney, sempre figurando na lista de melhores filmes musicais da história, e é amado pelas mais diversas gerações. Porém, para a escritora do livro do qual o filme se baseou, PL Travers, o filme era uma tragédia. Para começo de conversa, Travers não queria vender os direitos de adaptação para a Disney porquê acreditava que um filme nunca faria jus ao seu livro. Mas após varias tentativas, ela finalmente cedeu, com uma condição, que ela pudesse participar da produção do filme.

Porém, durante a produção, todas as ideias de Travers eram recusadas, e ela simplesmente odiava o fato do lado mais severo da babá ter sido minimizado, e odiava ainda mais as animações que haviam sido colocadas. Porém, devido ao contrato assinado, ela não pode impedir o lançamento do filme. Resultado, Travers assistiu o lançamento do filme aos prantos, e prometeu que nunca mais a Disney iria fazer um filme de uma obra sua . Enquanto ela esteve viva ela conseguiu cumpri tal promessa, mas depois de sua morte,  a Diseny achou uma brecha e anunciou o remake de Mary Poppins que irá estreiar em 2018.

ANTHONY BURGESS – LARANJA MECÂNICA

Laranja Mecânica é com certeza um dos filmes mais adorados pelos cinéfilos, porém é também um dos filmes mais polêmicos da história, devido a sua temática violenta. A polêmica fica ainda maior quando descobrimos que o autor do livro que Stanley Kubrick adaptou não ficou nada satisfeito com o resultado final. O obra o desagradou tanto, que ele chegou ao extremo ao dizer que se arrependia de ter escrito o livro.

O livro pelo qual eu sou mais conhecido – talvez o único que conheçam, aliás – é um romance que eu estou preparado a repudiar: escrito há um quarto de século, ficou conhecido como a matéria prima para um filme que parece glorificar o sexo e a violência. O filme induziu os leitores à má interpretação da história, e essa confusão vai me perseguir até a morte

Essa não seria a última vez que Kubrick se envolveria em polêmicas com algum escritor. Falarei disso mais para frente.

ROALD DAHL – A FANTÁSTICA FABRICA DE CHOCOLATES 

A Fantástica Fabrica de Chocolates não foi muito bem recebido quando lançou, sendo um fracasso de bilheteria. Mas com o tempo, o filme ganhou uma legião de fãs, e se tornou um clássico infantil. Porém, teve uma pessoa que jamais mudou de opinião em relação ao filme, Roald Dahl, o escritor do livro que o filme se baseou. No início da produção, Dahl estava colaborando com o filme, mas por não conseguir cumprir os prazos, foi substituído, e o resultado final não lhe agradou nada. Segundo o escritor, o filme era ” podre”. Ele também não poupou críticas a atuação de Gene Wilder, a qual ele afirmou ser ” saltitante” e ” pretensiosa”. As críticas de Dahl também recaíram sobre o diretor Mel Stuart, que segundo o autor ” não possuia nenhum talento ou dom”.

Mas o que mais irritava Roald é que no filme, Willy Wonka tinha mais protagonismo do que Charlie e, no livro, o garoto era o personagem central. O autor ficou tão irritado com o longa que prometeu que enquanto estivesse vivo, não iria permitir que tocassem na sequência da obra ( sim, A Fantástica Fabrica de Chocolate tem um outro livro, Charlie e o Grande Elevador de Vidro). O remake de 2005 só foi produzido porque Dahl ja havia falecido, e sua viúva deu permissão.

KEN KESEY – UM ESTRANHO NO NINHO

Um Estranho no Ninho é um clássico do cinema, é um dos 3 únicos filmes que conseguiram levar os 5 principais prêmios do Oscar (melhor filme, melhor ator, melhor atriz, melhor diretor e melhor roteiro). O filme foi tão aclamado, que foi escolhido para fazer parte da Biblioteca do Congresso Nacional. Sabe o que isso significou para o autor do livro Ken Kesey? Absolutamente nada.

Kesey no início fazia parte da equipe de produção, mas 2 semanas após o início desta abandonou o projeto devido a divergências criativas. Os principais pontos que o autor desaprovava era a escolha de Jack Nicholson como ator principal, visto que sua preferência era pela escalação de Gene Hackman, e o fato do ponto de vista da história ter sido mudado, já que no livro o papel de narração fica com o personagem ” Chefe” Bromden.

Kesey enquanto estava vivo, afirmou nunca ter visto o filme. Porém, após sua morte, sua esposa confessou que apesar dele não ter aprovado o filme, ficou orgulhoso pelo fato do seu livro ter ido para o cinema.

E.B WHITE – A MENINA E O PORQUINHO

A animação que conta a história da menina que tenta salvar um porquinho de um abatedouro pode não ter feito um grande sucesso quando foi lançado, mas ao passar dos anos, conquistou vários admiradores, graças aos lançamentos de VHS, se tornando em 1994 o vídeo de animação mais vendido daquele ano, e acabou nomeado pela American Film Institute como uma das melhores animações da história. Mas para o escritor E.B White, o filme era uma verdadeira de uma farsa. Quando White vendeu os direitos da animação para a Hanna-Barbera, ele apenas tinha um desejo, que sua obra não se tornasse um musical, mas seu pedido foi negado. Logo após o lançamento ele declarou

O filme da Menina e do Porquinho é justamente como eu esperava que fosse, a cada 5 minutos eles paravam a história para que alguém pudesse cantar uma música alegre. A feira de Blue Hill, que eu tentei relatar fielmente no meu livro, virou um Mundo da Disney com 76 trombones, mas é isso que acontece quando você se envolve com Hollywood

J.D SALINGER – MEU MAIOR AMOR 

Todos conhecem O Apanhador no Campo de Centeio, certo? A obra do autor JD Salinger é um dos livros mais populares do século passado, eleito em várias listas como um dos melhores livros da literatura inglesa. Muitos se perguntam o porquê de um livro tão aclamado e discutido nunca ter virado o filme. Bom, durante anos vários estúdios pressionaram o autor para que ele vendesse os direitos de filmagem, mas ele sempre se recusava. O motivo? O filme Meu Maior Amor, adaptação do seu pequeno conto Tio Wiggily em Connecticut.

O pequeno conto, que tem uma atmosfera sombria e uma crítica a sociedade de classe média, virou uma história de amor com um belo final feliz. Salinger ficou horrorizado com que viu, e o fato do filme ter sido vencedor de 2 Ooscars, o irritou ainda mais. Depois desse filme, ele teve a mesma reação que Dahl e Travers, jurou que nunca mais iria vender nenhuma de suas obras a Hollywood.

STEPHEN KING – O ILUMINADO 

Lembra quando eu disse que Stanley Kubrick tinha se envolvido em problemas com outro autor de livro? Pois é. E não foi um autor qualquer, foi o mestre do terror, Stephen King. O fato de O Iluminado de Kubrick ter se tornado um clássico nunca fez diferença para King, que sempre que tem a oportunidade, tece críticas ao filme. Segundo o autor, de todas as adaptações da sua obra, essa é a única que ele odeia. Quando perguntando o porque de não ter gostado da obra, ele respondeu:

Eu já admirava o [Stanley] Kubrick há um tempo e tinha grandes expectativas em relação ao projeto, mas o resultado final me desapontou profundamente. Kubrick não conseguiu alcançar o tom de maldade do hotel. Então, ele optou por procurar a maldade nos personagens e transformou o filme numa tragédia doméstica com tons apenas vagamente sobrenaturais”, afirmou em certa ocasião.

“Shelley Duvall como Wendy é uma das opções mais misóginas da história do cinema. Ela está ali basicamente para gritar e ser estúpida, e essa não é a mulher sobre a qual eu escrevi

 

Como resposta ao filme, ele produziu uma série em 1997 ,também baseada no livro. Embora pecasse nos aspectos técnicos, a obra conseguiu manter a essência sobrenatural dos escritos de King.

  MICHAEL ENDE – A HISTÓRIA SEM FIM

A História Sem Fim está é um filme que esta para sempre no coração dos telespectadores do SBT, visto a quantidade enorme de vezes que esse filme foi reprisado no canal do Silvio Santos, mas não apenas aqui o filme fez sucesso. Internacionalmente se tornou um dos filmes  europeus de aventura mais conhecidos, ficando na memória das crianças que o assistiram. Mas, existe uma pessoa que enquanto esteve vivo, preferia esquecer que a obra existia, o escritor Michael Ende.

O autor inicialmente estava participando da produção, escrevendo o roteiro inicial da trama. Mas quando terminou, o estúdio chamou outro roteirista para reescrever o texto, e aí que começaram os problemas. Segundo Ende, o novo roteiro do filme tirou toda a essência da obra, e a transformava em algo ” melodramático e comercial”. O autor ficou tão irritado com todas essas mudanças, que tentou barrar a produção, e impedir que o filme fosse lançado.

Quando ele não conseguiu, levou o caso para a justiça, mas acabou sendo derrotado. Ao menos ele conseguiu fazer com que seu nome fosse tirado da produção, Ende afirmava que o que foi para o cinema não era um trabalho seu

WINSTON GROOM – FORREST GRUMP

Forrest Gump é para muitos os cinéfilos um dos melhores filmes que já foram feitos. A interpretação de Tom Hanks foi fenomenal, a trilha sonora era inesquecível, uma trama que conseguia balancear humor e drama, e ainda por cima que trouxe vários simbolismos que foram várias vezes discutidos entre pessoas da mídia e também entre o público. O autor do livro deve ter amado esse filme, correto? Errado

Winston Groom, autor do livro Forrest Gump não ficou nada satisfeito com o filme de Robert Zemckis. Primeiro que ele não gostou e nada da interpretação de Tom Hanks, preferindo que o ator John Goodman tivesse interpretado o protagonista. Segundo, e o que mais o desagradou, foi o fato da produção ter suavizado as cenas de sexo e as palavras de baixo calão, para que o filme ficasse mais comercial.

A situação ficou tão agravante que Groom entrou num processo contra a Paramount, para conseguir o valor de 3% do lucro do filme, algo que era seu por direito por estar dentro do contrato. Mas a produtora afirmou que os gastos com as filmagens e marketing foram muitos altos, e por isso o filme não tinha dado lucro, o que é claro apenas aumentou a raiva que o escritor já tinha do filme.

Quando finalizou a sequência de O Contador de Histórias, que Groom nomeou de Grump and Go, ele escreveu no prefácio do livro uma indireta para Hollywood:

Jamais deixe alguém fazer um filme sobre a história da sua vida. Quer eles entendam ou não, não importa”.

 

BRET EASTON ELLIS – PSICOPATA AMERICANO

Quando foi lançado, O Psicopata Americano atraiu diversas polêmicas, devido a alta quantidade de cenas violentas que o filme tinha. Mas ao mesmo tempo foi muito elogiado devido as criticas sociais que fez a Wall Street. A atuação de Christian Bale no filme chamou a atenção, e abriu portas para o ator subir na carreira. Ou seja, apesar de alguns fatos negativos, os fatores positivos se sobressaíram. Porém, para o escritor Bret Easton Ellis não existe nada de positivo nessa obra. Para ele o filme nunca deveria ter sido feito, e ele deixou claro o porquê:

Eu acho que o problema com ‘Psicopata Americano’ é que a obra foi concebida como um romance, um trabalho literário, centrado em um narrador pouco confiável e o filme é um tipo de mídia que exige respostas. Por mais ambíguo que você seja [na realização de um filme], não importa, você sempre estará buscando respostas, uma resposta visual. E eu não acho que ‘Psicopata Americano’ é mais interessante, particularmente, se você sabe que ele de fato agiu ou se aquilo não aconteceu apenas na cabeça dele. Acho que a resposta a essa pergunta torna o livro infinitamente menos interessante

 

CLIVE CUSLLER – SAHARA

Clive Cussler se tornou famoso no mundo da literatura escrevendo as histórias de Dirk Pitt, um grande aventureiro e um ávido colecionador de carros. A série conquistou um grande número de fãs, e colocou Cusller diversas vezes na lista de best sellers do New York Times. Mas não podemos dizer a mesma coisa do filme Sahara, adaptação de uma das obras Cussler. O filme foi massacrado pela crítica, e teve um prejuízo de 77 milhões de dólares.

Cusller era um dos muitos que odiaram o filme. Ele alegou que foi enganado pelo estúdio, e que não teve o controle total do roteiro do filme como havia sido acordado. Por causa disso, processou os produtores em 38 milhões de dólares. Mas acabou que ele perdeu a causa, e foi sentenciado a pagar 10 milhões para a produtora porque esta o acusou de promover um boicote contra o filme, o que prejudicou a bilheteria. A punição acabou sendo retirada em 2010.

ALAN MOORE – TODAS AS ADAPTAÇÕES

Alan Moore é um caso a parte nessa lista. Ele odeia uma das adaptações das suas obras, ele odeia simplesmente todas. A raiva dele pelo fato de suas HQS terem virado filmes é tão grande, que ele admitiu que nunca iria assistir a esses longas. Alías, o escritor afirmou em uma entrevista uma vez que seu maior arrependimento na carreira foi ter vendido os direitos de imagem de suas revistas, porque ele sabia que iriam transforma-las em filme, mesmo torcendo para que não acontecesse.

Quando Watchmen estava sendo produzido, ele explicou o porque de não gostar de adaptações:

O cinema moderno dá a comida na boca, o que significa que dilui a imaginação cultural coletiva. É como se nós fôssemos pássaros recém nascidos olhando pra cima, esperando de boca aberta que Hollywood nos alimente com minhocas regurgitadas

O filme Watchmen soa como minhocas regurgitadas [ele não viu o filme na época do lançamento]. Eu estou cansado de minhocas. Não podemos obter algo diferente? De repente, algo ‘para viagem’? Até as minhocas chinesas já seriam uma mudança

Em relação aos filmes mais famosos de suas obras, V de Vingança e Watchmen, ele exigiu que seu nome fosse retirado dos créditos, e que todo o dinheiro que ele receberia por ser o escritor das duas HQS fossem passadas paras os desenhistas dessas,respectivamente David Lloyd e Dave Gibbons.

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