De personagem de faroestes americanos, especialmente na televisão, para estrela das aventuras do italiano Sergio Leone, quando o gênero já estava longe do seu apogeu, Clint Eastwood, anos depois, ainda reinventaria a si mesmo e à esse tipo de cinema para consolidar-se, já na década de 1980, como um grande diretor moderno. E, dos americanos, o maior herdeiro do cinema clássico.

Com uma filmografia muito coerente, Eastwood sabe que o personagem é algo e o espectador é outro, portanto seu cinema é passível de muitos debates e diferentes julgamentos. Apesar de, por exemplo, abertamente ter se posicionado a favor do presidente eleito Donald Trump, é difícil, e equivocado encontrar na filmografia de Eastwood meramente o olhar de uma anti-política e raivosa direita. Suas temáticas principais sempre giram em torno dos EUA, sem deixar o saudosismo ou o maniqueísmo dominarem sua mensagem em suas obras mais competentes. Dessas, separamos dez indispensáveis.

1) Os Imperdoáveis (Unforgiven, 1992)

Não é difícil encontrar cinéfilos que consideram esta a obra máxima de Eastwood. E realmente é, tanto pela sua pertinência e contemporaneidade de difícil corrosão, quanto pelo impulso que o filme e as quatro homenzinhos de ouro que  conquistou (Melhor filme, direção, montagem e ator coadjuvante para Gene Hackman) deram para a carreira como diretor de Eastwood. O revisionismo aparecia nos westerns que dirigira anteriormente (Josey Wales – O Fora da Lei, O Cavaleiro Solitário, O Estranho sem Nome), mas aqui é matéria-prima absoluta. Os heróis que livraram o Oeste dos “selvagens”, que mataram por dinheiro, e construíram essa América de sangue, vê-se afetado pelo tempo, suas figuras são quase literalmente domadas, um dos personagens não é cego à toa, e segue uma consequente inversão de valores. Não há exagero em colocá-lo no mesmo patamar de Rastros de Ódio. O século XXI tem alguns (pós)faroestes interessantes, porém Os Imperdoáveis é o último grande feito, tanto por ser uma chave de ouro pelas suas qualidades, tanto pela presença de figuras que carregam um peso enorme nas costas (entenda-se rugas), por serem insubstituíveis em termos de cinema.

2) Josey Wales – O Fora da Lei (The Outlaw Josey Wales, 1976)

O Estranho sem Nome, figura mais popular de Eastwood, agora tem nome. Ele é Josey Wales. Sua identidade é repetida diversas vezes durante o filme. Lendas criam-se através dos tempos. Ciente disso, Clint repensa esse conceito e produz nesse western impecável, redondo, sintético, e não pouco amargo. A abertura é, como poderia se dizer, puro cinema de ação: a câmera e a montagem taquicárdicas, uma paleta bucólica e nublada de cores. Por outro lado, é carregada de um profundo pesar, de silêncio, de morte, logo, de destino: a mão do filho morto parece deixar cair a semente do filme de 1992. Instantes depois, a cruz de madeira é pesada. A “grande luta”, a guerra civil em si, é mero fundo para os créditos. Importam os momentos de acertar as contas, de todos irem à falência. A vingança é a ponte para todo o pessimismo que o pistoleiro de Eastwood traz.

3) Menina de Ouro (Million Dollar Baby, 2004)

A fotografia de Tom Stern nesse filme sobre “a million dollar baby” implica uma nova camada de compreensão e até de evolução, envelhecimento – ou, se preferir, maturação – da obra de Eastwood. O predomínio das sombras conjugado a um roteiro centrado no embate entre o novo e o velho, antecipa a fase atual, e possivelmente última, da obra de Eastwood como diretor. (Nesse sentido, Sully parece sair um tanto dessa curva que seguia até Sniper Americano). Como dito na introdução, a obra de Clint é moderna. E que postura essa característica assume um momento histórico em que ela torna-se ultrapassada, senão a que a boca semicerrada do Estranho sem Nome sempre parecia antecipar? A desilusão, vem, como em outros grandes filmes do diretor, sob a forma de pontos-chave do roteiro, socos politicamente incorretos, mas não menos justificados durante a projeção.

4) Crime Verdadeiro (True Crime, 1999)

Em um cenário da valorização de um cinema outro, de quebra e “invencionice” (que mais se parece com um cinema inventado), os filmes de Clint Eastwood podem parecer previsíveis. E o são, superficialmente. Sua autoralidade, no entanto, protege sua obra de certos sofismas. Em Crime Verdadeiro, a previsibilidade é trabalhada de maneira única em sua filmografia. Um suspense frenético, não menos calculado por causa disso, carregado de críticas e, sobretudo, de humanidade. Quando a técnica excede os próprios personagens, nada como as rédeas curtas de alguém experiente (esse é o 21º filme de Eastwood como diretor) para resgatar o que o cinema tem de tão especial, mesmo em sinopses que parecem batidas.

5) Um Mundo Perfeito (A Perfect World, 1993)

A perfeição, já como busca, é algo inalcançável. Na maioria das vezes, um conceito tolo em linhas humanas. Sobra o que tem por trás dessa perfeição. Se os republicanos costumam apelar para uma certa impunidade mítica, retomando a era de ouro da conquista/massacre do Oeste americano, os ideais de Clint parecem passar longe disso nesse filme. O personagem que Eastwood interpreta, um policial texano – figura, essa sim, herdeira de uma determinada força onipresente e protetora – persegue um fugitivo, Kevin Costner, que capturou um menino e o está usando como refém. São figuras deslocadas, que pouco parecem conseguir seguir as estradas mais simplistas. Isto é, as estradas podem parecer familiares, mas as transformações e reconstruções são constantes. É o filme posterior à Os Imperdoáveis. E Clint mantém o mesmo vigor de sua obra-prima.

6) As Pontes de Madison (The Bridges of Madison County, 1995)

Em termos de tom, As Pontes de Madison e A Última Canção são dois filmes que parecem distantes dos temas comuns da filmografia da Eastwood. Se o cantor country, Red Stovalli, do filme de 1982, ainda tinha alguns momentos brutos, o Clint/Robert de Madison é algo inédito: uma figura tão sensível e ainda tão máscula. A química entre Streep e Eastwood parece reorganizar toda uma série de clichês que envolveriam do roteiro e mostrar sua veracidade justamente nos momentos menos convencionais, de contato carnal, mas num instante da separação de caminhos.

7) O Estranho sem Nome (High Plains Drifter, 1973)

O primeiro filme com Eastwood na direção, Perversa Paixão, é um suspense notável. Mas, só em seu segundo longa, particularmente, é que ele começa a construir seu discurso artístico, ou melhor, o epitáfio que só se mostraria completo em seu melhor filme. O Estranho Sem Nome é um faroeste gótico, inebriante, imperdoável, encharcado de todos os ensinamentos que Clint coletou com os mestres Sergio Leone (a trilogia dos Dólares) e Don Siegel (Os Abutres Têm Fome, Perseguidor Implacável).

8) Sobre Meninos e Lobos (Mystic River, 2003)

Sobre Meninos e Lobos conquistou dois Oscars, de melhor ator para Sean Penn e coadjuvante para Tim Robbins, no ano em que O Retorno do Rei saiu em disparada. Um dos mais amargos filmes do diretor, junto de Os Imperdoáveis, mereceu seus prêmios por trazer algo que a grandiosidade épica de Peter Jackson não conseguiria jamais transmitir. Trabalhando com o remorso, com o passado, a memória, amizade e desconfiança, o filme é um estudo cuidadoso que toca em temas fortes e sensíveis, como assassinato e pedofilia.

9) Gran Torino (Gran Torino,  2008)

O filme de 2008 é o último, até o momento, em que Clint dirigiu e atuou. Gravitando pela ambiguidade libertário-reacionário, em Gran Torino, Eastwood representa os EUA como uma terra de ninguém e de todos – essa estranha lógica de inclusão e exclusão da maior potência mundial – adjetivando todos os personagens com um out (outsider, outlaw…). Uma das últimas grandes pérolas de sua carreira.

10) Bronco Billy (idem, 1980)

Bronco Billy é um dos seus menos comentados filmes, o mais próximo que chegaria de um cult. Um faroeste farsesco, um tipo de construção que nunca falta às carreiras de grandes diretores, que mais parece uma ideia perdida na gaveta de Robert Altman, merece a atenção de todo o respeitável público. Uma comédia indispensável para o esvaziamento dos gatilhos mais rápidos do Oeste, dos grandes mitos americanos.

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