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Observação: a crítica abrange os dois primeiros episódios da série, disponibilizados pela Netflix à imprensa.

Em 1996, Sabrina – Aprendiz de Feiticeira ganhava as telinhas. A série, baseada nos divertidos quadrinhos da Archie Comics, foi protagonizada por Melissa Joan Hart, que durante um tempo tornou-se a queridinha do mundo adolescente antes de infelizmente cair no esquecimento, e girava em torno da personagem-título, uma bruxinha prestes a completar dezesseis anos dotada de habilidade mágicas. É claro que, à época, o show trazia um cunho mais inocente, cômico e irreverente, funcionando até mesmo numa espécie de sitcom travestida de dramédia – e é claro que não poderíamos esquecer do adorável Salem, o gato preto falante e companheiro de Sabrina em suas aventuras.

Entretanto, poucos sabem que a empresa responsável pelas histórias tem uma vertente sombria – literalmente. A divisão intitulada Archie Horror é destinada a repaginar as clássicas narrativas com um toque macabro e, para aqueles que possam não estar familiarizados com as produções televisivas, foram as revistinhas desse grupo que deram origem a Riverdale, um dos dramas adolescentes mais assistidos da década. Tal qual foi a surpresa quando a Netflix anunciou um cruel e apavorante remake da jornada coming-of-age da feiticeira com O Mundo Sombrio de Sabrina, criando um tumulto considerável e justificado inclusive pelos inúmeros releases que prometiam desconstruir a imagem de bonança da série anterior.

O cenário é conhecido (a cidade de Greendale, onde todo dia parece Halloween), e o reconhecimento da protagonista é quase instantâneo. Na mais nova investida, Sabrina (Kiernan Shipka) está prestes a completar seu décimo-sexto aniversário e deverá fazer uma escolha quase impossível: entrar para a Igreja da Noite e se realizando como feiticeira completa, abandonando sua vida mundana; ou manter vínculos com seus amigos humanos e seu cotidiano adolescente. Roberto Aguirre-Sacasa, criador e roteirista da série, não se permite cair no melodrama ficcional e parte logo para a ação, buscando inspiração em seus trabalhos anteriores para manter um ritmo frenético e angustiante. Shipka definitivamente consegue encarnar a heroína de modo sublime, delineando traços nunca antes vistos, desde a excessiva candura até um olhar oblíquo que dialoga com os segredos que esconde tanto dos amigos quanto do namorado.

É natural que o episódio piloto se mova com mais cautela e com mais autoexplicações – afinal, é preciso apresentar ou reapresentar esse novo cosmos aos espectadores. Entretanto, não pense que a sutileza é a marca registrada da série: Aguirre-Sacasa, em colaboração com um soberbo time criativo, não poupa em fazer sacrifícios nos primeiros minutos e tem plena ciência de que não está simplesmente eliminando personagens. Mundo Sombrio tem uma pegada mais satírica, com diálogos ácidos que entram em choque com os obstáculos da adolescência e a tentativa de levar tudo com a maior naturalidade possível.

Diferentemente da série protagonizada por Joan Hart, aqui Sabrina tem pleno conhecimento de suas habilidades e que, após o dia 31 de outubro – que coincide com seu aniversário, o dia das Bruxas e um eclipse conhecido como Lua de Sangue -, nada será como antes. De um lado, ela sofre por manter tal segredo de seu namorado Harvey (Ross Lynch, com quem constrói um relacionamento e uma química impecáveis) e de sua melhor amiga Rosalind (Jaz Sinclair). De outro, sofre uma pressão perturbadora das tias Hilda (Lucy Davis) e Zelda (Miranda Otton), as quais constantemente a recordam de que aceitar o Batismo e jurar fidelidade eterna para o clã era algo que seus falecidos pais sempre desejaram. A princípio, a quantidade de elementos parece desnecessária, mas eles convergem em necessidade narrativa quando pensamos nos futuros episódios, visto que explicações ocasionais não poderão existir em detrimento da continuidade cênica.

Salem não é esquecido – e não me refiro apenas ao gatinho preto. Além do familiar, guia espiritual e protetor da protagonista, a famosa cidade, conhecida por seu julgamento, é homenageada em diversos aspectos. Em The Dark Baptism, como ficou intitulado o segundo episódio, o diretor Lee Toland Krieger traz sua bagagem clássica para as técnicas fílmicas, em especial para a sequência do labirinto de feno que traça paralelos com as construções campestres reflexivas de As Bruxas de Salem. Porém, é necessário lembrar que o apego religioso e crítico de Nicholas Hytner é ofuscado por tangências mais modernizadas e juvenis e traduzidas a moldes bem mais explícitos quando Sabrina se depara com o primeiro relance acerca de seu futuro.

O show não se respalda na nostalgia, mas encontra um modo de fundi-la às mensagens que deseja passar. Além de modernizar a história atemporal, que na verdade é ambientada nos anos 1960, Aguirre-Sacasa faz críticas ao machismo das escolas de ensino médio dos Estados Unidos ao mesmo tempo que encontra terreno fértil para questões raciais dentro dos clãs mágicos. A personagem-título é uma mestiça, filha de mãe mortal e pai feiticeiro, e é constantemente alvo de chacota – ou, nesse caso, maldições – de um grupo de bruxas conhecido como as Irmãs Estranhas, que não desejam que ela entre para a Academia de Artes Ocultas. Mesmo assim, a fluidez do roteiro dá espaço para uma das cenas mais tensas do episódio, no qual as quatro trabalham juntas para se vingar de certos bullies do colégio.

É claro que a série, ao menos por enquanto, não é privada totalmente de eventuais falhas, seja em frases muito explicativas ou em erros mais técnicos. Apesar disso, não podemos negar que o showrunner se entrega às suas próprias perspectivas do gênero fantástico, utilizando, por exemplo, uma profundidade de campo baixíssima como forma de orquestrar uma atmosfera onírica – em outras palavras, com o blur aureolar proposital. Personagens como Mary Wardell (Michelle Gomez) e George Hawthorne (Bronson Pinchot) têm suas respectivas importâncias, porém trazem um potencial muito maior do que o mostrado. Ademais, ambos servem como menção, mais uma vez, ao julgamento de Salem no século XVII, brincando com aliterações nominais de modo prático e interessante – e que talvez passe despercebido por certa parte do público.

O início do Mundo Sombrio de Sabrina é muito positivo, funcionando como um refrescante mergulho na ironia e na proposital falta de sutileza para chocar o público. Entre mortes inesperadas, rituais satânicos e feitiços malignos, as expectativas para o restante da temporada são altíssimos – e esperamos que a Netflix não nos decepcione.

O Mundo Sombrio de Sabrina – 01×01: October Country / 01×02: The Dark Baptism (Chilling Adventures of Sabrina, EUA – 2018)

Criado por: Roberto Aguirre-Sacasa
Direção: Lee Toland Krieger
Roteiro: Roberto Aguirre-Sacasa, baseado nos quadrinhos da Archie Comics
Elenco: Kiernan Shipka, Richard Coyle, Miranda Otto, Lucy Davis, Tati Gabrielle, Michelle Gomez, Ross Lynch, Chance Perdomo, Bronson Pinchot, Jaz Sinclair
Emissora: Netflix
Episódios: 10
Gênero: Fantasia, Terror, Drama
Duração: 60 min. aprox.

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