Para além das inúmeras discussões divisivas em opiniões de qualidade e gosto do público que vem assolando o novo filme de Darren Aronofsky, Mãe!, umas das discussões em debate que vem tocando também sobre o filme, envolve sua parte técnica, que merece muita atenção mais do que aparenta! E que também vem causando discussão sobre sua qualidade.

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E seguindo esse intuito, a Indiewire se sentou com o diretor e autor Darren Aronofsky e seu parceiro cinematografista de longa data, Matthew Libatique, para desmembrar alguns dos segredos sobre os angustiantes close-ups na cara de Jennifer Lawrence que assolam o filme.

Então fique atento à alguns spoilers mais a frente aqui.

Darren Aronofsky se comprometeu mesmo a não só causar um desconforto e inquietude com o público com o seu sétimo longa-metragem, mas ele também queria criar um desafio para sua equipe de colaboradores de longa data, metendo a agitação em sua abordagem.

“Nós vinhamos fazendo o mesmo por um longo tempo e queria experimentar um processo diferente para ver o que aconteceria com a equipe se fizéssemos algo em que não parecesse tanto com uma pré-produção”. – Aronofsky

Depois de escrever o roteiro, no qual o diretor definiu como sendo uma “febre de sonho” de cinco dias e fazendo o casting do filme, onde as peças rapidamente se juntaram quando sua namorada Jennifer Lawrence assinou como protagonista. Onde Aronofsky começou a desenvolver a história durante um ensaio secreto de três meses em um armazém do Brooklyn. O diretor iniciou o processo com Lawrence e Javier Bardem em um esforço para desmembrar seus personagens e encontrar as “emoções reais” que levariam para sua alegoria que o filme invoca.

“Desde o início, estávamos fazendo um filme totalmente subjetivo, mais do que nunca tinha feito. Eu estava fazendo um filme sobre a mãe-terra. Estava contando a história de pessoas que aparecem e como elas a tratam sem realmente estar cientes dela. Eu queria que o público estivesse na cabeça da personagem de Jennifer Lawrence em todo o filme e passasse por essa experiência”.

Seu colega cinematografista Libatique, disse que o movimento de câmera de Aronofsky se tornou cada vez mais subjetivo desde O Lutador, mas sua estratégia para mãe! foi mais extrema: a câmera ficaria fisicamente conectada a personagem da mãe ao longo de todo o filme. A linguagem do filme seria essencialmente limitada a três tipos de takes portáteis que seguiram Lawrence em torno da casa: singles na mãe, sobre o ombro (conectando a mãe ao meio ambiente) e tomadas do ponto de vista mostrando o que a mãe vê.

Assim como os filmes anteriores do diretor, mãe! é como uma chaleira de chá lentamente sendo levada a ferver enquanto Aronofsky monta a pressão com precisão semelhante a de um relógio. Considerando as contenções auto-impostas no rigoroso estilo subjetivo do filme, isso tornou os ensaios no armazém extremamente vitais.

“Eu queria obter no elenco, a sensação de andar pela casa porque a casa é um personagem tão grande no filme. E eu queria que Matty descobrisse como íamos lidar com esses desafios”. – Aronofsky

O plano da casa da mãe – a única localização do filme – foi gravada no chão do armazém, enquanto Lawrence e Libatique sincronizavam seu movimento coreografado.

“Há uma precisão extrema na linguagem de Darren – não existe realmente essa liberdade que você normalmente associa com a câmera na mão, é mais uma estética que ele gravita sobre. Essa é uma das razões pelas quais o ensaio foi tão essencial. Você não quer antecipar coisas quando você está operando. Quando Jen se move, você se move, e é até o ponto onde você não sente como se estivesse com ela, você não sente o movimento da câmera porque tudo está em sincronia.” – Libatique

A coreografia em si era apenas um aspecto do movimento subjetivo da câmera que precisaria ser ainda pré-determinada, já que Aronofsky e Libatique descobriram rapidamente como as limitações auto-impostas afetariam o bloqueio, composição e montagem.

“Começamos a perceber que precisávamos ter um nível de bloqueio inteligente e quão perto queria que fosse para Jen, porque dentro de nossas regras, não possuíamos uma cobertura tradicional dos outros atores, então eles tinham que existir dentro do redor da mãe ou sobre os seus ombros. Foi aí que começamos a aprender se queríamos ter uma tomada maior [dos outros personagens], teríamos que parar a mãe mais cedo e mais longe dos outros personagens”. – Libatique

Para quem já viu o filme tome por exemplo uma cena em que a personagem de Lawrence sai da cozinha para compartilhar uma notícia com seu marido, a marca de Lawrence para onde ela precisava parar teve que ser puxada de volta para enquadrar uma tomada de Bardem parado na entrada da maneira que Aronofsky queria.

Manter a orientação espacial para o público foi vital à medida que a câmera fluía pela casa com Lawrence – algo que entrega grande dividendos no surpreendente e pouco ortodoxo terceiro ato do filme – por isso, descobrir não apenas qual a linha de 180 graus (que é usada para manter a direção da tela e compreensão espacial consistente para o público) seria, mas de que lado eles queriam estar sempre não era óbvio. Em muitos momentos, foi como resolver um quebra-cabeça.

Nas duas últimas semanas dos ensaios de três meses, Aronofsky e Libatique filmariam uma versão de prática de todo o filme com o elenco, sem figurino ou conjunto, em um armazém cheio de marcas de fita. O montador Andrew Weisblum reuniu rapidamente a filmagem em um corte de 110 minutos que foi selecionado para a equipe.

“Foi definitivamente uma ferramenta útil para mim e Matty porque a câmera está se movendo tanto, assim que se instala sabendo de que lado da linha se encontrava era muito importante, porque isso provocaria a próxima tomada. Às vezes, acabaríamos algumas tomadas e entraríamos em um beco sem saída e nós diríamos: ‘oh merda, nós realmente deveríamos estar do outro lado’. Então, nós teríamos que voltar atrás em quatro tomadas principais para descobrir como chegar lá.” – Aronofsky

Libatique disse que seu instinto ao longo do ensaio era estender cada tomada o máximo tempo possível, mas com todas as mudanças de direção quando Lawrence corria pela casa em um pânico crescente, ele e Aronofsky começaram a ver a necessidade de estabelecer pontos de corte.

“Porque nós tínhamos uma linguagem limitada, nós precisávamos garantir que o editorial estivesse coberto em termos de o que podemos fazer se um momento demorasse muito. Aonde vamos se precisarmos ganhar mais urgência e chegar ao seu ombro mais rápido? Nós precisávamos de um ponto de corte, então começamos a escolher e escolher quando queríamos fazer essas coisas”. – Libatique

Mesmo tendo permitido transições predeterminadas, foi a montagem mais longa e desafiadora de ambos Aronofsky e Weisblum desde que começaram a colaborar em O Lutador. A história, que levou cinco dias para escrever, precisaria de 53 semanas para montar.

“A razão pela qual levou tanto tempo para mim e Andy para fazer isso era que não tínhamos tomadas largas. Quando chegamos à sala de edição, não tivemos inserções e esse é o segredo da montagem. Algo não está funcionando, você corta para uma tomada larga, você pode redefinir assim. Se o ator mudou um pouco ou mudou emocionalmente, você vai para uma tomada larga, você está bem assim! É por isso que sempre há uma tomada larga. Não filmamos tomadas largas, então Jen teve que fazer sentido para o público a cada ritmo.” – Aronofsky

Lawrence serve de âncora emocional para o filme, e ela aparece em close-up por 66 minutos completos dos 121 minutos de duração. Mas, como o ritmo do filme continua mudando, ele precisava ser inventivo sobre como moldou o filme sem as opções normais de cobertura.

Editorialmente, Darren e Andy encontraram um bom equilíbrio para que o movimento ainda esteja no filme. É um equilíbrio delicado – toda a linguagem e a atmosfera que pretendemos está lá, enquanto o filme está cheio de explosão à intensidade da recompensa. Isso não é fácil.” – Libatique

Com certeza não foi nada fácil realizar esse filme, mas Aronofsky e Libatique junto da equipe conseguiram mesmo realizar um trabalho magnífico de construção de filme que muito há de se admirar e ir conferir o resultado no cinema na melhor forma possível!

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