Sejam bem-vindos à segunda parte do especial para o Oscar 2018 do Bastidores. Dessa vez, vamos assumir um lado mais técnico (afinal, o título de nosso site não é por acaso) para falar de categorias como Fotografia, Montagem, Design de Produção, Figurino, Maquiagem e Efeitos Visuais, valendo a menção de que a Academia foi capaz de selecionar uma vasta variedade de produções e fez justiça aos indicados.

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Confira:

Melhor Fotografia

É muito melhor fazer um bom filme, do que um filme só com bom visual – Robert Richardson

Blade Runner 2049

Roger A. Deakins, ASC

Roger Deakins faz milagres, e chegou a hora da Academia finalmente parar de estupidez, após ignorá-lo por nada menos do que TREZE indicações ao longo de 23 anos. Em Blade Runner 2049, há diferentes tons de azul para ilustrar a presença de uma neve tóxica na cidade, assim como a luz de neon dos diversos billboards e propagandas holográficas. com destaque para a maravilhosa imagem onde K encara um holograma gigante de Joi, sendo banhado pelos tons de rosa e roxo da projeção. O visual ainda se reinventa quando apresenta um laranja fortíssimo para o esperado retorno de Deckard – e as condições atmosféricas do local onde o aposentado policial se encontra, afetado pela radiação, justificam essa mudança na paleta. Eu poderia falar horas e horas sobre a fotografia de Deakins para o filme, mas basta dizer que ser ele não ganhar o tão esnobado Oscar por esse trabalho, a Academia simplesmente deveria cancelar a categoria de Melhor Fotografia. Não vai ter filme mais bonito e deslumbrante do que este no ano. Em muitos anos, talvez.

Percurso na Temporada

  • Critics Choice Awards – Melhor Fotografia
  • American Society of Cinematographers – Melhor Fotografia – Cinema
  • BAFTA – Melhor Fotografia

Histórico de Indicações

  • Indicado como Melhor Fotografia por Sicario: Terra de Ninguém, em 2016
  • Indicado como Melhor Fotografia por Invencível, em 2015
  • Indicado como Melhor Fotografia por Os Suspeitos, em 2014
  • Indicado como Melhor Fotografia por 007 – Operação Skyfall, em 2013
  • Indicado como Melhor Fotografia por Bravura Indômita, em 2011
  • Indicado como Melhor Fotografia (com Chris Menges) por O Leitor, em 2009
  • Indicado como Melhor Fotografia por Onde os Fracos Não têm Vez e O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford, em 2008
  • Indicado como Melhor Fotografia por O Homem que Não Estava Lá, em 2002
  • Indicado como Melhor Fotografia por E aí meu Irmão, Cadê Você? em 2001
  • Indicado como Melhor Fotografia por Kundun, em 1998
  • Indicado como Melhor Fotografia por Fargo, em 1997
  • Indicado como Melhor Fotografia por Um Sonho de Liberdade, em 1995

O Destino de uma Nação

Bruno Delbonnel, ASC, FSF

Bruno Delbonnel é um fotógrafo de estilo único, do qual podemos identificar apenas ao bater o olho em seus quadros. Através do efeito da “vaselina na lente”, sua imagem parece mais embaçada e onírica, o que ajuda a construir atmosferas altamente envolventes e reforçar o frio, algo que definitivamente vem a calhar em O Destino de uma Nação. Todas essas características citadas ajudam na biografia de Winston Churchill, especialmente ao tornar as salas de planejamento e reuniões no parlamento mais intimidadoras e sombrias, fornecendo a visão apropriada para uma Inglaterra mergulhada nas trevas da paranóia e do medo. Não só a técnica de Delbonnel é um belíssimo acerto estético, como também usa as sombras para esconder as limitações do cenário, trabalhando em simbiose completa com o design de produção do longa – que fica ainda mais grandioso e valorizado graças às sombras inteligentes do fotógrafo.

Histórico de Indicações

  • Indicado como Melhor Fotografia por Inside Llewyn Davis: Balada de um Homem Comum, em 2014
  • Indicado como Melhor Fotografia por Harry Potter e o Enigma do Príncipe, em 2010
  • Indicado como Melhor Fotografia por Eterno Amor, em 2005
  • Indicado como Melhor Fotografia por O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, em 2002

Dunkirk

Hoyte Van Hoytema, ASC, FSF, NSC

Finalmente a Academia reconhece o esforço do suíço Hoyte Van Hoytema, um dos diretores de fotografia mais interessantes a surgir nos últimos anos em Hollywood. Marcando mais uma colaboração com Christopher Nolan, praticamente substituindo o posto que era de Wally Pfister por muito tempo, Hoytema faz um trabalho experimental e que requeriu muitas inovações da equipe, especialmente no que diz respeito ao uso das gigantescas câmeras IMAX “na mão”, sendo o primeiro cinegrafista a alcançar tal feito. Praticamente todas as tomadas foram captadas em locação, o que significou um grande trabalho de Hoytema em usar as luzes naturais da praia de Dunquerque, o céu nublado e o belo pôr-do-sol que encerra projeção. Além desse poderio imagético já bem forte, a dupla inventa de captar cenas de aviação com câmeras IMAX acompladas a aeronaves spitfires de verdade – requerindo um complexo trabalho de engenharia de Hoytema e Nolan para realizar essa visão -, rendendo algumas das imagens mais impressionantes que esses olhos já viram. Uma grande conquista.

A Forma da Água

Dan Laustsen, ASC

Se há alguém que poderá tirar o Oscar das mãos de Roger Deakins é Dan Laustsen. A Forma da Água impressiona e muito pela vivacidade de sua paleta de cores curiosa e também pelas belas imagens subaquáticas de tom importantíssimo para o filme. Não somente para dar sentido ao título, mas como uma forma poética para aglutinar o amor dos dois personagens. Além disso, o trabalho com a fotografia em diversos degradês impressiona muito para dar um clima sempre sombrio para os cenários molhados e sinistros que Del Toro nos apresenta. É um verdadeiro manjar para os olhos.

Mudbound: Lágrimas sobre o Mississipi

Rachel Morrison, ASC

As paisagens do Mississippi são inesquecíveis. A trágica história do estado parece se confundir com as belezas naturais da região, o que acaba por criar uma atmosfera melancólica e de potenciais não atingidos. Muitos diretores de fotografia conseguiram captar com precisão essa particularidade visual. A nova profissional a entrar na seleta lista é Rachel Morrison. Em Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississippi, a iluminação natural e as sombras engolfam os tristes personagens e constituem algumas das principais características do filme. Pelo seu trabalho, Morrison foi indicada ao Oscar 2018 e se tornou a primeira mulher a concorrer na categoria.

Aposta: Blade Runner 2049

Voto do Bastidores: Blade Runner 2049, é claro

Esnobado: A Cura

Melhor Design de Produção

Está bem na sua frente. Esse é o filme. Ele vem de um nível profundo acima. É confiável porque existe uma história a ser contada – Rick Carter

A Bela e a Fera

 Sarah Greenwood e Katie Spencer

Ainda que A Bela e a Fera tenha funcionado por sua nostalgia em detrimento de uma investida contemporânea acerca do clássico conto homônimo, é inegável dizer que o longa-metragem conseguiu recuperar toda a ambiência arquitetônica do barroco ao mesmo tempo em que abriu margens para o fantástico e o sobrenatural. Logo, não é nenhuma surpresa que Sarah GreenwoodKatie Spencer ganhem espaço nesta edição do Oscar: é incrível como a carga histórica está presente em cada um dos cenários, seja pela aversão à simetria e à razão exacerbada renascentista na vila em que a protagonista mora, ou até mesmo pela estética espelhada do decadente castelo, mostrando o choque de gerações e de ideais. Além disso, a direção de arte trilha um caminho transformista à medida em que a relação entre os personagens se consolida, optando pela entrada de objetos mais neutros e mais clássicos e a entrada de inúmeras construções cênicas em espiral e que fornecem a ilusão de movimento.

Histórico de Indicações

  • Indicadas como Melhor Design de Produção por Anna Karenina, em 2013
  • Indicadas como Melhor Direção de Arte  por Sherlock Holmes, em 2010

Blade Runner 2049

Dennis Gassner e Alessandra Querzola

Blade Runner 2049 é um filme que trabalha com opostos – e é claro que esse paradoxo seria traduzido de forma bem explícita quando falamos da incrível estética criada por Dennis GassnerAlessandra Querzola: o duo trabalha com investidas tanto saturadas quanto clean, buscando traçar uma linha bem perceptível e diferenciável entre, por exemplo, o antro de Niander Wallace (Jared Leto) e as movimentadas ruas de Los Angeles. Enquanto para este cenário busca-se uma identidade que volta para o incrível uso de hologramas de marketing aliados a uma rendição a outdoors em neon e objetos modernizados e ainda sim reconhecíveis pelo público, aquele finca-se em um mergulho mais faraônico, incluindo uma arquitetura megalômana e milimetricamente simétrica, conversando até mesmo com as gritantes personalidades dos personagens.

Percurso na Temporada

  • ADG – Melhor Design de Produção – Filme de Fantasia

Histórico de Indicações

Dennis Gassner

  • Indicado como Melhor Direção de Arte (com Anna Pinnock) por A Bússola de Ouro, em 2008
  • Indicado como Melhor Direção de Arte (com Nancy Haigh) por Estrada para a Perdição, em 2003
  • Indicado como Melhor Direção de Arte (com Nancy Haigh) por Bugsy e Barton Fink – Delírios de Hollywood, em 1992

O Destino de uma Nação

 Sarah Greenwood e Katie Spencer

Joe Wright, mesmo que tenha uma filmografia pautada em altos e baixos, sempre teve sua carreira pautada na beleza estética. Logo, é claro que sua equipe criativa traria o melhor da indústria cinematográfica para compor cenários incrivelmente bem delineados e que não pecam em nenhum momento quando pensamos em verossimilhança histórica – e esse trabalho é realizado mais uma vez por Sarah GreenwoodKatie Spencer com O Destino de uma Nação. Ambientado no auge da II Guerra Mundial, todo o escopo cênico segue um padrão contraditório entre ascensão e queda da monarquia inglesa, reafirmada, por exemplo, pelo uso excessivo de objetos dispendiosos em contraste com um cenário mais neutro e bélico. Talvez o maior mérito resida em relação à sólida recriação do Palácio de Buckingham e da Abadia de Westminster, buscando inspiração na época vitoriana e na arte barroca.

Histórico de Indicações

  • Indicadas como Melhor Design de Produção por Anna Karenina, em 2013
  • Indicadas como Melhor Direção de Arte  por Sherlock Holmes, em 2010

Dunkirk

 Nathan Crowley e Gary Fettis

Filmes de guerra têm uma grande tentação de cair nos equívocos da superexposição cênica em detrimento de uma identidade imagética interessante e envolvente. Felizmente, não é isso que Nathan CrowleyGary Fettis fazem em Dunkirk, uma das obras-primas de 2017 que passaram quase despercebidos pelos olhos da crítica e do público. A recriação da decadente situação dos soldados ingleses e franceses em um dos momentos cruciais da II Guerra Mundial é certeira, seja pela utilização de navios de guerra que gradativamente se transformam em carcaças marítimas, ou até mesmo pelos cenários que conversam diretamente com a desesperança de seus personagens (principalmente no tocante ao píer). Isso sem falar na incrível paleta de cores, trazendo cores frias para o escopo cênico que logo encontram uma vivacidade conforme a narrativa chega ao tão aguardado “final feliz”.

Histórico de Indicações

Nathan Crowley

  • Indicado como Melhor Design de Produção (com Gary Fettis) por Interestelar, em 2015
  • Indicado como Melhor Direção de Arte (com Julie Ochipinti) por O Grande Truque, em 2007

Gary Fettis

  • Indicado como Melhor Design de Produção (com Nathan Crowley) por Interestelar, em 2015
  • Indicado como Melhor Direção de Arte (com James J. Murakami) por A Troca, em 2009
  • Indicado como Melhor Direção de Arte (com Dean Tavoularis) por O Poderoso Chefão Parte III, em 1991

A Forma da Água

Paul D. Austerberry, Jeffrey A. Melvin e Shane Vieau

Histórias fantásticas obviamente pedem por um envolvente escopo imagético que traga o melhor do espetacular e do palpável para um mesmo cenário. É justamente isso que o trio responsável por A Forma da Água entrega para o seu público e que em maior parte consegue ofuscar um roteiro falho: ainda que a trama seja uma homenagem para os clássicos contos de terror, não podemos negar que o filme de Guillermo del Toro busque uma identidade opressiva, institucional e atemporal, principalmente pela construção dos laboratórios em um concreto puro e intransponível e que entra em contradição com ambiências mais amplas. Em uma perspectiva generalizada, toda a arquitetura subjuga propositalmente os seus protagonistas, auxiliada pela paleta de cores futurista e neo-noir, buscando inspiração em tons frios e neutros, como o verde-escuro, o marrom e o azul.

Percurso na Temporada

  • ADG – Melhor Design de Produção – Filme de Época
  • BAFTA – Melhor Design de Produção
  • Critics Choice Awards – Melhor Design de Produção

Aposta: A Forma da Água

Voto do Bastidores: Blade Runner 2049

Esnobado: Star Wars: Os Últimos Jedi

Melhor Figurino

A menos que o projeto exija, eu não estou interessada em uma réplica exata da época. Eu vejo a época, como deveria ser, como poderia ser, e então eu faço a minha própria versão – Sandy Powell

A Bela e a Fera

Jacqueline Durran

Assim como sua direção de arte, o figurino de A Bela e a Fera merece aclame crítico. Seguindo a estética simplista do século XVII, percebemos que a indumentária utilizada pelos personagens do vilarejo da protagonista segue um corte mais clean e que preza pela utilização de tecidos pragueados que ressaltem a silhueta feminina; tal estética também é reafirmada pelo vestido que Bela (Emma Watson) utiliza durante a cena do baile, uma das mais icônicas do filme: aqui, todo o corte resgata a beleza da realeza francesa, principalmente pelas múltiplas camadas da saia. Além disso, Jacqueline Duran também aproveita essa perspectiva mais “modernizada” para retirar algumas peças que provavelmente representariam uma saturação cênica, incluindo os rufos plissados e as mangas longas, fornecendo um pouco mais de movimento e fluidez para os personagens.

Histórico de Indicações

  • Indicada como Melhor Figurino por Sr. Turner, em 2015

O Destino de uma Nação

Jacqueline Durran

Durran é um dos grandes nomes de sua geração e não é nenhuma surpresa que ela ganhe duas indicações para a cerimônia do Oscar neste ano. Além de trabalhar com a estética barroca em A Bela e a Fera, ela também investe sua força intelectual em O Destino de uma Nação – e seu trabalho é o que nos aproxima da época retratada no filme: o final da década de 1930 e começo de 1940 foi marcado por uma escassez de produtos para a indústria da moda, o que obrigou à população, principalmente às mulheres, a optar por uma indumentária mais simples, porém versátil. Além da homogeneidade estilística do figurino masculino, marcado pelo uso dos ternos risca-giz, temos a representação feminina encarnada por Lily James, cujos trajes prezam pelos cortes andrógenos – ombros arredondados, saias com pregas invertidas e com corte mais longo para facilitar os movimentos. Todo o escopo também serve para representar uma aguardada evolução pacifista da decadente sociedade inglesa da época.

Histórico de Indicações

  • Indicada como Melhor Figurino por Sr. Turner, em 2015

A Forma da Água

Luis Sequeira

Em 1910, a Every Woman’s Encyclopedia divulgou em seu anuário que os itens principais do guarda-roupa de uma mulher são “paletó e saia, blusas, sapatos, luvas, chapéus e capa de chuva”. É claro que essa essencialidade se referia à insurgência do estilo-uniforme da sociedade da época, mas o que suas editoras não conseguiriam prever que essa máxima perduraria por quase quarenta anos, porém sofrendo uma brusca transformação da “mulher de negócios” para a “trabalhadora da classe média”. Luis Sequeira baseia-se nessa ideia quase atemporal para vestir os personagens de A Forma da Água, criando uma moderna indumentária que conversa com a atemporalidade cênica do filme ao mesmo tempo em que resgata uma época nostálgica e complexa, principalmente na caracterização de Sally Hawkins como a protagonista, pautada em uma sutileza emocionante, como o constante uso do cardigã e e da saia andrógena.

Percurso na Temporada

Costume Designers Guild – Melhor Figurino em Filme de Época

Trama Fantasma

Mark Bridges

Grande parte dos filmes de época dessa edição do Oscar resolve conversar com um escopo verossímil do período retratado, e coube a Mark Bridges quebrar esse tradicionalismo cinematográfico com seu incrível trabalho em Trama Fantasma. A narrativa gira em torno de um estilista de moda responsável por vestir a high society e que, através de uma trama romântico-dramática, se expressa através de looks aplaudíveis e transgressores. Partindo dessa premissa, o figurinista não poupa esforços para criar uma indumentária chocante e que marca até mesmo uma quebra nos padrões estilísticos da época, permitindo-se misturar inúmeros tecidos – temos na imagem acima, por exemplo, a combinação perfeita entre a suavidade da renda branca com o poderoso tafetá vermelho -, cuja amálgama é uma representação externalizada do confronto interno sofrido pelos personagens.

Percurso na Temporada

  • BAFTA – Melhor Figurino

Histórico de Indicações

  • Indicado como Melhor Figurino por Vício Inerente, em 2015
  • Venceu como Melhor Figurino por O Artista, em 2012

Victoria e Abdul: O Confidente da Rainha

Consolata Boyle

Consolata Boyle tem uma afeição especial para filmes que envolvam a realeza britânica – e depois de ter realizado um trabalho incrível em A Rainha A Dama de Ferro, ela retorna com mais uma incrível rendição em Victoria e Abdul. Entretanto, a figurinista irlandesa resolve criar um escopo original ao trabalhar com a sobriedade excessiva da Rainha Victoria (Judi Dench), marcado por um figurino essencialmente pautado na monocromacia, enquanto Abdul (Ali Fazal) traz uma simplicidade mais envolvente e afável, principalmente pelo uso de trajes azuis e brancos de seda que representem seu “modesto” comportamento perante um nome tão poderoso.

Histórico de Indicações

  • Indicada como Melhor Figurino por Florence: Quem é Essa Mulher?, em 2017
  • Indicada como Melhor Figurino por A Rainha, em 2006

Aposta: Trama Fantasma

Voto do Bastidores: Trama Fantasma

Esnobado: Mulher-Maravilha

Melhor Montagem

Eu leio o roteiro só uma vez, então esqueço dele. Eu só lido com o que eu vejo todo dia na tela, e se eu acredito e entendo aquilo – Thelma Schoonmaker

Dunkirk

Lee Smith

Todos os filmes de Christopher Nolan oferecem algum tipo de desafio quando estamos falando de linhas temporais. Parceiro de longa data, Lee Smith já teve que lidar com as intensas corridas contra o tempo na trilogia Cavaleiro das Trevas, o vai-e-vem não linear de O Grande Truque, as camadas de realidade distintas em A Origem e até mesmo a temporalidade de outros planetas com Interestelar. Em Dunkirk, o trabalho de Smith parece mais comprimido, mas talvez seja ainda mais complexo: lidar com três linhas narrativas diferentes ao mesmo tempo, mas com cada uma se desenrolando em um tempo diferente: uma semana, um dia e uma hora. É uma proposta ousada que parte do roteiro criativo de Nolan, e que ganha uma execução primorosa pelas mãos de Smith, que organiza todos esses eventos em uma narrativa coesa e com possibilidades inesperadas de catarse (especialmente com o personagem de Cillian Murphy), assim como consegue manter o espectador preso e tenso 100% do tempo – a decisão de Smith no último corte da projeção também é bárbara, quando, após uma sequência de imagens e um crescendo épico da trilha sonora, decide voltar o plano para o rosto do jovem Tommy em silêncio, de forma a não perder a humanidade daquela história. Nunca temos cortes muito excessivos, com Smith permitindo uma imersão maior em cada plano, em cada cena, mas sua maestria com a estrutura do longa é algo que não deve ser ignorado pela Academia.

Percurso na Temporada

  • ACE Eddie Awards – Melhor Montagem em Filme de Drama

Histórico de Indicações

  • Indicado como Melhor Montagem por Batman: O Cavaleiro das Trevas, em 2009
  • Indicado como Melhor Montagem por Mestre dos Mares: O Lado Mais Distante do Mundo, em 2004

Em Ritmo de Fuga

Paul Machliss e Jonathan Amos

É revoltante que nenhum filme de Edgar Wright já tenha sido indicado à melhor montagem, mas finalmente a Academia abriu os olhos para o talento de Paul Machliss e Jonathan Amos, que vêm colaborando com o cineasta desde Scott Pilgrim contra o Mundo – provavelmente um dos filmes mais bem montados de todos os tempos. Com Em Ritmo de Fuga, o trabalho excepcional da dupla está diretamente ligado à música, com os cortes entrando em sincronia com o ritmo e batidas das diferentes canções que o protagonista está constantemente ouvindo. Todas as cenas, de ação ou não, trazem um ritmo preciso e calculado, especialmente quando temos aceleradas perseguições de carro ou tiroteios anárquicos. As transições de cena também são marcas do estilo de Wright, com Machliss e Amos usando criativas fusões de imagem (uma tampa de lavanderia que se transforma em um disco de vinil, por exemplo) e outras elipses que comprimem o tempo e aceleram a história, vide o rápido emprego de Baby como entregador de pizza. Um trabalho perfeito, e digno do prêmio.

Percurso na Temporada

  • BAFTA – Melhor Montagem

Eu, Tonya

Tatiana S. Riegel

Que surpresa satisfatória encontrar Tatiana S. Riegel indicada por seu trabalho em Eu, Tonya. Com a tragicomédia de humor negro sobre a patinadora Tonya Harding assumindo uma forte inspiração no cinema de Martin Scorsese, temos uma narrativa dinâmica que é constantemente interrompida por digressões dos personagens e também de suas figuras “reais” que aparecem em forma de entrevista. É aquele tipo de montagem que está sempre quebrando a quarta parede e dialogando com o espectador, e os cortes de Riegel são muito precisos e inteligentes na hora de interromper a história no momento certo – é impagável quando a personagem de Allison Janney, após simplesmente sumir da projeção durante algum tempo, interrompe a narrativa para reclamar de sua ausência. Só esse trabalho de self awareness da narrativa já merecia a indicação, mas Riegel ainda demonstra muita agilidade ao montar as cenas de patinação, conferindo velocidade e graciosidade aos diversos planos e movimentos de dança da protagonista.

Percurso na Temporada

  • ACE Eddie Awards – Melhor Montagem em Filme de Comédia

A Forma da Água

Sidney Wolinsky

Geralmente, filmes favoritos ao prêmio principal da noite acabam na categoria de Montagem apenas para garantir uma vantagem na contagem de votos. Felizmente, não é o caso de A Forma da Água, que traz um trabalho muito coeso e satisfatório por parte de Sidney Wolinsky. Definitivamente, o grande mérito da montagem do romance de Guillermo Del Toro é a forma como Wolinksy cria o círculo de rotina da protagonista Elisa, especialmene na forma como sincroniza seus mecanismos para demarcar a passagem de tempo (em especial com os “ovinhos” da personagem de Sally Hawkins). É um ritmo muito preciso e agradável, e Wollinsky ganha mais créditos para as sequências mais intensas do filme, principalmente em sua agilidade para equilibrar diferentes personagens e situações durante a montagem em que Elisa e seus amigos lutam contra o tempo para libertar o Anfíbio do laboratório. Um ótimo trabalho.

Três Anúncios para um Crime

 Jon Gregory

Lembram-se de quando disse logo acima sobre favoritos marcarem terreno na categoria de montagem? Pois bem, não estou dizendo que o trabalho de Jon Gregory no excepcional Três Anúncios para um Crime seja ruim, mas realmente carece de algo verdadeiramente especial – basta olhar para os demais indicados, todos com alguma peculiaridade. Aqui, o filme de Martin McDonagh tem um ritmo acertado, uma boa distribuição de tempo aos personagens (literalmente ninguém acaba ofuscado ao longo da projeção), e uma velocidade correta durante algumas das sequências mais intensas, como aquelas envolvendo os diferentes incêndios. Um trabalho muito eficiente e que serve à proposta da trama, especialmente na maneira como equilibra o humor negro e as inesperadas doses de elementos dramáticos, como no intenso diálogo entre Mildred e o xerife Willoughby.

Aposta: Dunkirk

Voto do Bastidores: Dunkirk ou Em Ritmo de Fuga, são dois trabalhos excepcionais

Esnobado: Blade Runner 2049

Melhor Maquiagem & Cabelo

É mágico quando você tem um ótimo ator em uma ótima maquiagem – Rick Baker

O Destino de uma Nação

Kazuhiro Tsuji, David Malinowski e Lucy Sibbick

Inúmeros atores já interpretaram o famoso e inesquecível Winston Churchill nos cinemas e na televisão, mas talvez nenhum deles tenha passado por uma transformação tão profunda quanto Gary Oldman em O Destino de uma NaçãoAqui, o trio responsável pela maquiagem alcançou um enorme sucesso ao deixá-lo irreconhecível, utilizando-se de técnicas um tanto quanto simples para garantir mais naturalidade às suas feições envelhecidas e que já trazem tanto os cabelos brancos quanto uma quantidade considerável de rugas, ressaltada pelo cuidado com as linhas de expressão e pela crescente calvície. Mas a preocupação não se restringe apenas ao protagonista, mas também a todos os personagens, também preocupando-se em ajudar na perspectiva da época com a multiplicidade artística das personagens femininas.

Histórico de Indicações

Kazuhiro Tsuji

  • Indicado como Melhor Maquiagem (com Rick Baker) por Norbit, em 2008
  • Indicado como Melhor Maquiagem (com Bill Corso) por Click, em 2007

Extraordinário

Arjen Tuiten

Arjen Tuiten definitivamente é um dos grandes nomes do ano. Em Extraordinário, o maquiador e supervisor de efeitos especiais elevou as expectativas do público e da crítica ao ser atado para um projeto cuja trama trazia assuntos delicados para as telonas – e levando seu currículo em conta (MalévolaO Labirinto do Fauno), ele teria um trabalho um pouco mais perigoso: como trabalhar com um protagonista de nove anos de idade deformado por uma infeliz genética que passaria mais de 40 dias completamente transformado em cena? Não é à toa que sua aprofundada pesquisa lhe rendeu uma indicação ao Oscar, visto que todo o cuidado artístico deixou o ator-mirim Jacob Tremblay irreconhecível e passível de construir laços com o público.

Victoria e Abdul: O Confidente da Rainha

Daniel Phillips e Lou Sheppard

Ainda que Victoria e Abdul: O Confidente da Rainha não seja um dos filmes mais originais do ano, o trabalho artístico realizado pela equipe como um todo é louvável, principalmente levando em conta a preocupação com o resgate histórico. Além da direção de arte, o longa merece aclame por sua investida com os detalhes dos atores. Judi Dench, encarnando a Rainha Victoria, recebe um cuidado um pouco maior e que preza pelo naturalismo e pela acentuação de suas linhas de expressão, indicando uma crescente ultrapassagem de seu governo e até mesmo uma humanização mais envolvente para com a audiência. Daniel PhillipsLou Sheppard também preocupam-se em causar uma discordância proposital entre a ostentação excessiva da monarquia inglesa e a perspectiva mais humilde da persona Victoria.

Aposta: O Destino de uma Nação

Voto do Bastidores: O Destino de uma Nação

Esnobado: Qualquer filme que realmente tivesse um trabalho notável de maquiagem. Ver Bright, A Forma da Água, Guardiões da Galáxia Vol. 2, It: A Coisa ou Star Wars: Os Últimos Jedi

Melhores Efeitos Visuais

Eu não faço efeitos especiais. Eu faço personagens. Criaturas. – Stan Winston

Blade Runner 2049

John Nelson, Gerd Nefzer, Paul Lambert e Richard R. Hoover

Em todos os sentidos estéticos e plásticos, Blade Runner 2049 é um filme absolutamente perfeito. Não só pela fotografia e o design de produção, mas especialmente pelo sofisticado trabalho com efeitos visuais, que entra aqui de forma complementar a elementos reais no set, garantindo resultados impressionantes. A visão futurista da cidade Los Angeles, por exemplo, foi criada com um misto inteligente de miniaturas e elementos de computação gráfica, soando como uma boa forma de seguir o trabalho visionário de Ridley Scott no original, e essa técnica de utilizar CGI para preencher cenários e ambientes está presente durante todo o longa de forma sutil. Poderíamos também falar sobre a estética dos hologramas de Joi, os Spinners da polícia ou o trabalho insano na cena de sexo a três, mas o que deve chamar mais atenção da Academia é a reconstrução digital da atriz Sean Young, em um dos mais satisfatórios exemplos desse tipo de tecnologia até agora. 

Percurso na Temporada

BAFTA – Melhores Efeitos Visuais

Visual Effects Society – Melhor Ambiente Criado Digitalmente em Longa Fotorrealista (Los Angeles)

Visual Effects Society – Melhor Miniatura (LAPD)

Guardiões da Galáxia Vol. 2

Christopher Townsend, Guy Williams, Jonathan Fawkner e Dan Sudick

Novamente marcando presença na categoria, Guardiões da Galáxia Vol. 2 traz um trabalho ainda mais eficiente do que seu antecessor. Continuamos com um trabalho de CGI convincente e satisfatório para os personagens animados de Groot e Rocket, e explorando com criatividade a mitologia desse universo com belas novas adições. Todo o planeta e o conceito do Ego de Kurt Russell acaba rendendo ótimos visuais, principalmente quando aprendemos mais sobre sua natureza cósmica e os elementos monstruosos. E por falar em monstros, a criatura tentacular que o grupo enfrenta na cena inicial já é algo para encher os olhos, assim como toda a condução daquela cena, que conta com o uso de pequenos planos-sequência costurados juntos pela montagem e o trabalho de CGI – presente em praticamente todos os personagens e no ambiente. Vale mencionar também o ótimo trabalho na criação da frota dos Soberanos, onde há um claro uso de efeitos práticos (podemos ver que os pilotos ali são atores em uma tela verde), mas todos os seus movimentos e interações são criados digitalmente, gerando uma imagem marcante quando vemos todos voando em formação.

Percurso na Temporada

  • Visual Effects Society – Melhor Fotografia Virtual em Produção Fotorrealista (Dança de Baby Groot)

Kong: A Ilha da Caveira

Stephen Rosenbaum, Jeff White, Scott Benza e Mike Meinardus

Primeiro representante símio da categoria, foi uma bela surpresa encontrar Kong: A Ilha da Caveira entre os indicados. Uma curiosidade interessante é que essa é a terceira versão do personagem a figurar na categoria, após os trabalhos de John Guillermin em 1976 e Peter Jackson em 2005 acabarem levando a estatueta – o filme de 1933 não tem essa medalha por simplesmente… Não existir uma categoria de efeitos em 1933. E a equipe do filme de Jordan Vogt-Roberts faz por merecer a indicação, visto que o trabalho para criar esta nova versão de Kong é formidável, com a tecnologia de captura de performance ainda mais avançada e requintada. Não só Kong merece todo o reconhecimento, visto que esta Ilha da Caveira tem um leque assombroso de novas criaturas, os Skin Crawlers

Planeta dos Macacos: A Guerra

Joe Letteri, Daniel Barrett, Dan Lemmon e Joel Whist

Por incrível que possa parecer, nenhum filme da nova trilogia de Planeta dos Macacos levou o Oscar de efeitos visuais, o que pode aumentar as chances do capítulo derradeiro de César com a Academia; que pode premiar este novo filme com um prêmio pelo conjunto da obra. Representando o ápice da tecnologia de captura de performance, Guerra faz o melhor trabalho até agora com as feições e fisionomia dos símios inteligentes, com o destaque permanecendo para o excelente trabalho de Andy Serkis – que agora tem a habilidade de falar de forma mais eloquente. Os macacos nunca pareceram tão reais como agora, e cada frame do filme de Matt Reeves deve ter levado uma eternidade para renderizar, oferecendo um resultado que chega a assustar, de tão perfeito. A hora é agora?

Visual Effects Society – Melhores Efeitos Visuais em Longa Fotorrealista

Visual Effects Society – Melhor Personagem Digital em Longa Fotorrealista (César)

Visual Effects Society – Melhor Simulação em Longa Fotorrealista

Visual Effects Society – Melhor Composição em Longa Fotorrealista

planeta Crait, mostrado em Star Wars: Os Últimos Jedi, é cientificamente plausível

Star Wars: Os Últimos Jedi

Ben Morris, Mike Mulholland, Neal Scanlan e Chris Corbould

Mais um Star Wars, mais uma indicação ao Oscar de efeitos visuais, como de praxe (apenas A Vingança dos Sith falhou em conseguir tal feito, em 2006). Para Os Últimos Jedi, a equipe da Industrial Light & Magic tem diversos truques sob as mangas, mais uma vez mantendo a nova máxima da LucasFilm em mesclar elementos práticos com digitais, vide as criaturas Porgs, Fathiers e as raposas de cristais do planeta Crait. É um cenário que também possibilita a criação de elementos 100% CGI, rendendo algumas das batalhas mais sensacionais e imersivas de toda a saga, e a equipe merece aplausos pelo trabalho com a frota de bombardeiros da Resistência e os gigantescos cruzadores da Primeira Ordem. Um trabalho excepcional, como sempre, mas a cereja no topo do bolo é o fato de que Rian Johnson e a ILM resgataram o Yoda de marionete da trilogia clássica. Pra fazer qualquer um corar.

Aposta: Blade Runner 2049

Voto do Bastidores: Blade Runner 2049

Esnobado: Valerian e a Cidade dos Mil Planetas

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