“A guerra é o Inferno”. As imortais palavras do general americano William T. Sherman retratam perfeitamente este aspecto onipresente da natureza humana, e dão a dimensão da dor e do sofrimento que somos capazes de infligir a nós mesmos. As marcas que a guerra deixa em suas vítimas é brutal e indelével, e o impacto cultural que as crônicas de conflitos passados causam continua a nos afetar hoje.

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Dentre os frutos do legado cultural da Guerra do Vietnã estão incontáveis clássicos cinematográficos como Apocalypse Now e Nascido Para Matar, e também a injustamente pouco celebrada jóia de Ted Kotcheff: Rambo: Programado Para Matar. Pai da lendária série de filmes Rambo e um dos quintessenciais filmes de ação dos anos 80, First Blood (no original) traz a primeira aparição do mais célebre personagem de Sylvester Stallone depois do Garanhão Italiano.

O filme narra a história do personagem titular, o veterano do Vietnã John J. Rambo, em sua busca de seu amigo e colega Boina Verde Delmar, no interior do estado americano de Washington. Ao descobrir o destino de seu amigo, Rambo vaga desolado pela estrada até chegar na pequena cidade de Hope. Lá, ele é recepcionado de forma pouco amistosa pelo xerife Teasle, que o escolta para fora da cidade após explicar que “pessoas como ele” não eram bem-vindas ali. Determinado a voltar para Hope, Rambo é novamente interceptado por Teasle, e preso injustamente por vadiagem.

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Vítima de abuso de autoridade e tortura por parte dos policiais de Hope, Rambo perde o controle e foge quando um dos agentes tenta cortar seu cabelo com uma navalha, trazendo à tona traumas aterradores do campo de batalha. Perseguido até uma floresta com a polícia e a Guarda Nacional no seu encalço, Rambo precisa usar suas habilidades de sobrevivência e táticas de guerrilha adquiridas no Vietnã para escapar e confrontar seu passado, na figura de seu mentor Coronel Trautman, à medida que tenta recuperar sua sanidade e escapar por fim dos horrores à que foi submetido na guerra.

Apesar de pouco reconhecido por esse motivo, a verdadeira alma do filme está em seu subtexto. Apesar de já não ser original em 1982 (vide o aterrador Franco-Atirador) o roteiro de “veterano-assombrado-por-stress-pós-traumático” ganha novos tons no roteiro de Kozoll, Sackheim e Stallone. A crítica à recepção dada aos veteranos pela sociedade americana não é suave (chegando a passar da conta em alguns momentos), e isso fica evidente no tratamento recebido por Rambo pelos seus compatriotas. Delmare morre em decorrência do câncer que trouxe do Vietnã, fruto do Agente Laranja despejado em sua cabeça pela sua própria Força Aérea.

Todas as figuras de autoridade na estória são insensíveis e abusivas, remetendo ao tratamento dispensado aos soldados por parte do governo americano. E por fim, Rambo representa não só os veteranos, mas todas as vítimas da guerra. Ele foi jogado numa guerra fútil, ensinado somente a matar e destruir, viu todos os seus amigos morrerem, e foi trazido de volta sem nenhum apoio, nenhum acompanhamento psicológico, e sem nenhum papel a cumprir na sociedade.

Mesmo assim, apesar do subtítulo espalhafatoso aqui no Brasil, Rambo causa um tremendo prejuízo à cidade de Hope, mas não mata ninguém. O objetivo de Stallone ao desenvolver as atitudes de Rambo, não era de mostrar uma máquina “programada para matar”, e sim um homem que foi abandonado pela sua pátria. E nisso, o filme acerta magistralmente.

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Famoso por seus trabalhos na televisão britânica, Ted Kotcheff habilmente traz à tela cenas de ação marcantes e inspiradíssimas, que ilustram com clareza a capacidade física e o poder de destruição que John Rambo tem nas mãos. As eletrizantes cenas na delegacia, com os arrepiantes inserts da tortura do soldado às mãos dos Viet Cong, e principalmente na floresta (o habitat natural de Rambo) entregam momentos de surpreendente tensão e euforia, reproduzindo em pequena escala a Guerra do Vietnã em solo Yankee.     Por um momento, entramos na pele dos policiais atrás de Rambo, e sentimos o desespero de ser caçado por um animal selvagem, cujo principal talento é matar.

As competentes lentes de Andrew Laszlo (conhecido pelo cult The Warriors) nos transportam facilmente da plácida paisagem do interior de Washington à densa mata onde Rambo se mescla à natureza selvagem. Laszlo é também responsável por um dos mais marcantes quadros dos anos 80: Rambo em sua fúria, atirando com sua M60.

A trilha sonora de J. Goldsmith é eficiente em criar tensão nos momentos chave, e dá luz ao famoso tema de Rambo “It’s a long road”, presente nas sequências e até no desenho animado (é, teve desenho animado de Rambo !). Um destaque especial para a direção de arte , que compõe a figura marcante do herói, incluindo sua icônica faixinha na cabeça e sua absurdamente grande (e badass) faca de caça, criada especialmente para o filme.

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As atuações são o ponto alto do filme. Rambo cujo papel foi oferecido a Clint Eastwood (!), Robert de Niro (!!) e Al Pacino (!!!), é trazido à vida de forma espetacular por um especialmente inspirado Stallone (que também é co-autor). Conhecido por sua entrega ao personagem, Sly consegue passar de forma brilhante não só a capacidade física de Rambo, mas também sua psique confusa, trazida aos frangalhos pelos traumas da guerra.

Apesar das poucas linhas de diálogo de Rambo, Stallone consegue entregar as dimensões de um personagem assombrado, o que é evidentemente belo na cena derradeira, que traz lágrimas aos olhos. Brian Dennehy como Teasle é um antagonista eficiente (que nos faz odiá-lo pelo injusto tratamento ao veterano) e um ótimo contraponto ao Coronel Trautman de Richard Crenna, que convence como militar linha dura, mas também como uma figura paterna para Rambo.

Uma adaptação do livro homônimo de David Morrell, Rambo: Programado Para Matar é extremamente feliz ao trazer para o público um excelente filme de ação recheado de críticas sociais e representar com precisão os sentimentos de um veterano esquecido pelo seu país. Com certeza, esta obra merece ser revisitada com outros olhos.

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