Black Mirror nos entregou alguns memoráveis episódios. Com sua premissa de entregar histórias que abordam o lado negro da tecnologia, Charlie Brooker abordou diferentes situações, com personagens e mundos variados, todos buscando nos deixar com aquela pulga atrás da orelha, aquele desconforto evidente, que tanto diferencia essa série da maioria que costumamos assistir na atualidade.

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Esta lista busca colocar em ordem, do pior para o melhor, os episódios da série, levando em conta a construção do universo, temática, construção de personagens, dentre outros elementos. Vale ressaltar que toda lista é essencialmente pessoal, portanto, se não concordam, basta comentar abaixo com suas listas pessoais. Caso concordem, também não deixem de nos dizer o que acharam!

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19. Crocodile

Crocodilo conta a história da frieza humana e do quão longe uma pessoa pode chegar para manter-se a salvo. A narrativa gira em torno de Mia Nolan (Andrea Riseborough), uma proeminente arquiteta que cometeu um homicídio culposo quinze anos atrás com seu ex-namorado Rob (Andrew Gower), atropelando um ciclista. E apesar de terem se livrado do corpo da vítima, os fantasmas do passado voltaram para assombrá-la, levando-a a cometer uma série de atrocidades como forma de preservar sua reputação.

Todo esse thriller psicológico conversa com o tema tecnológico e distópico na figura da corretora de seguros Shazia (Kiran Sonia Sawar) que, utilizando um “relembrador” portátil, descobre que Mia matou Rob, o qual queria escrever uma carta anônima para a família do ciclista, mas foi brutalmente eliminado por um súbito ataque de frustração. E é a partir daí que os medos e as inseguranças da protagonista começam a falar mais alto, insurgindo de modo assustador principalmente pela expressão desolada e angustiada.

18. Metalhead

O destino definitivo para Charlie Brooker: o futuro distópico, desta vez pra valer, e não como vimos no clássico episódio da segunda temporada. Metalhead se destaca dos outros pelo visual impactante: um preto e branco com contraste forte e um frame rate acelerado que nos faz parecer estar assistindo tudo no modo fast foward, uma característica marcante do diretor David Slade (30 Dias de Noite), que entrega aquele que é disparado um dos episódios mais autorais de toda a antologia; e, ainda assim, um dos mais vazios de conteúdo.

O episódio começa em uma paisagem desolada, com um grupo de pessoas cruzando a estrada de carro. Logo temos o contexto de um mundo devastado onde criaturas robóticas conhecidas como “Cães”, caçam e neutralizam humanos perdidos. Basicamente, essa é a trama, onde passamos a acompanhar a luta de Bella (Maxine Peake) para escapar de um Cão e sobreviver.

17. USS Callister

O ano de 2017 foi bastante significativo para Star Trek, ou Jornada nas Estrelas. O universo criado por Gene Roddenberry ganhou basicamente duas séries – uma oficial, Discovery, e outra, The Orville, que basicamente segue a mesma ideia do seriado sessentista estrelado por William Shatner e Leonard Nimoy.

Aproveitando, certamente, desse novo sopro de ar na franquia, eis que Black Mirror nos entrega um capítulo que utiliza como temática a ficção científica espacial que costumamos ver em Star Trek – não se trata bem de algo passado nesse universo, mas claramente a Netflix fez uso da ideia para atrair os fãs da longeva criação de Roddenberry, especialmente quando, no mesmo ano, foi distribuída pelo canal de streaming, Discovery.

Naturalmente que, tratando-se da série de Charlie Brooker, nada seria tão simples. Essa releitura tecnológica de Além da Imaginação mantém seu foco no “lado negro da tecnologia” e apresenta um mundo no qual pessoas podem explorar o Espaço através de um jogo em realidade virtual, que materializa uma versão de si nesse universo digital. A trama gira em torno do programador desse game, Robert Daly (Jesse Plemons) mostrando o quanto ele não é valorizado dentro da empresa que ele fez crescer.

O roteiro de William Bridges e Charlie Brooker, porém, subverte nossa expectativa ao transformar a vítima em vilão. Enquanto ele é praticamente ignorado em sua empresa – na sua residência ele criou uma versão offline desse mesmo jogo, tendo total controle sobre o que acontece ali dentro. Lá ele desconta suas frustrações em relação aos colegas do trabalho, materializando cópias de cada um deles dentro do mundo virtual, criando inteligências artificiais que sofrem, presas ali dentro, enquanto o programador se comporta como um cruel deus para seu micro universo.

16. Black Museum

Mesmo com excelentes atuações, principalmente de Douglas Hodge como Haynes, uma direção firme com mudanças necessárias para cada estilo de narrativa, cinematografia apurada e envolvente, além de uma espetacular direção de arte, Black Museum se torna uma experiência inconsistente pela pressa em tentar surpreender o espectador com uma história muito mal firmada em pouquíssimos instantes. Às vezes, o elemento surpresa pode acabar prejudicando uma boa ideia. Ainda mais uma que teve um excelente começo dentro de um conceito cheio de potencial.

15. Men Against Fire

Men Against Fire, por sua vez, nos traz uma forte crítica social à questão da eugenia, naturalmente lidando com a crescente onda de extrema-direita na Europa, os refugiados da Síria e o Brexit, que fora motivado basicamente por argumentos de segregação, motivados pela alta taxa de imigração para o Reino Unido. O episódio dialoga com essa questão, recorrente na História, através de uma sociedade que fora, aparentemente, infestada por um vírus, que faz as pessoas se tornarem monstros, chamados de baratas. Através do protagonista, Stripe (Malachi Kirby), um soldado do exército britânico, descobrimos, porém, que tudo é uma grande ilusão, implantada diante de seus olhos para que matem essas pessoas sem discriminação. As “baratas” não estão infectadas ou algo assim, são seres humanos como nós, algo bastante previsível dentro do capítulo, mas que não afeta sua qualidade, o foco está na crítica social e não no plot-twist.

Chega a ser assustador como o episódio retrata a realidade de nosso passado e pela qual ainda passamos hoje em dia. A ilusão, aqui inserida através da tecnologia, é, de fato, a opinião criada na mente das pessoas na vida real, que se convencem que esses outros homens e mulheres são inferiores de alguma forma. Esquecemos que somos todos partes de uma mesma raça e o que muda é apenas o país no qual nascemos e a nossa carga cultural e, ainda assim, essa última pode ser colocada em xeque, visto que estamos falando de uma cultura já globalizada, as reais diferenças são os detalhes.

O mau-funcionamento do implante ocular do soldado funciona como o nosso abrir de olhos, nossa mente que se expande, nos remetendo automaticamente ao nazismo e a ideologia de Hitler, que se difundira pela Alemanha de forma assustadora – bem ou mal, todos estavam vivendo uma grande ilusão, facilitada pela crise que dominava o país na época. O mesmo ocorre aqui, o texto nos oferece, através de alguns diálogos, que definem, na medida certa, qual é a situação que aquela nação se encontra e como isso foi utilizado como justificativa para realizar tais ações monstruosas. Men Against Fire é um alerta, que nos mostra o quão rápido podemos largar nossa humanidade de lado nos momentos de maior aperto.

14. Arkangel

Um dos nomes de peso da nova temporada, Jodie Foster embarca na direção do perturbador Arkangel. É um exemplo de Black Mirror raiz, com a premissa básica de uma nova invenção tecnológica mostrando-se danosa para a condição humana, seguindo uma linha similar aos ótimos Queda Livre e Toda a Sua História e, felizmente, o resultado alcançado por Foster e o onipresente roteirista Charlie Brooker é igualmente próximo desses citados.

A trama nos apresenta à Marie (Rosemarie DeWitt), uma mãe superprotetora que, após uma experiência traumática, opta por um tratamento ousado para a segurança de sua filha Sara (Brenna Harding). É o programa experimental Arkangel, consistindo no implante de um chip na mente da criança, e que permite aos pais assistirem e monitorarem todas as suas atividadades em um tablet, desde localização via GPS, acesso ao que a pessoa está vendo e até mesmo um bloqueio de conteúdo inapropriado. A partir daí, vemos todo o crescimento de Sara até uma adolescente, à medida em que Marie fica em conflito com as limitações do aplicativo.

Receita para o desastre, e para que Brooker nos ofereça um pouco da boa e velha depressão pós-episódio. Os melhores episódios da série são justamente os que trabalham em cima de um conceito cyberpunk em um ambiente cotidiano, e como a condição humana está sempre disposta a corromper-se em decorrência do mal uso da tecnologia; o Arkangel definitivamente é uma ideia brilhante, e poderia ser usada para bons frutos, mas aqui é mais um exemplo da paranóia, e Brooker é particularmente feliz em jogar esse conceito para uma relação de mãe e filha. O roteiro traz diversas situações do tipo “e se”, e que merecem créditos pela originalidade, tal como a mãe desesperada recorrendo ao tablet para descobrir onde sua filha realmente foi – na clássica desculpa do “vou na casa da amiga, mas na verdade estou com garotos” – e com resultados ainda mais memoráveis e chocantes.

13. Playtest

Playtest lida com a explosão da realidade virtual nos últimos anos, algo que se tornara a nova onda no mundo dos videogames, começando com o Oculus Rift e chegando até o futuro Playstation VR. Aqui acompanhamos Cooper (Wyatt Russell), um turista americano que, após viajar pelo mundo, acaba ficando totalmente sem dinheiro e precisa fazer algum bico na Inglaterra. Através de um aplicativo ele encontra uma vaga para testar um jogo de terror em realidade virtual, de uma empresa famosa pelos games do gênero (certamente uma menção ao novo Resident Evil).

O episódio lida com a problemática praticamente ignorada da realidade virtual – é óbvio que nada dentro dela pode fisicamente nos machucar, mas até que ponto gostaríamos de estar totalmente imersos nessa realidade fictícia? Não é perigoso que esqueçamos que estamos dentro de uma simulação? Ou até que isso gere outros traumas para o jogador? Apesar de diversas tentativas de inovação, o cinema continuara basicamente o mesmo: uma tela grande no qual o filme é exibido. Claro que tivemos o acréscimo da cor, do som falado, a mudança no formato do quadro e o mais recente 3D, mas ainda mantemos uma certa distância como que é exibido, a função de nos imergir é a narrativa e não a tecnologia utilizada para apresenta-la – tanto é que filmes preto e branco ou mudos surtem os mesmos efeitos em nós.

Qual a necessidade, portanto, de um jogo em realidade virtual? Evidente que o game tem um elemento extra em relação ao cinema, sua interatividade, mas isso já não é o bastante? Precisamos ainda estar completamente inseridos nesse meio? Playtest extrapola essa questão e, de forma bem pensada, utiliza alguém que não é um gamer propriamente dito, dialogando com o espectador comum de forma mais certeira, atingindo uma audiência maior. Mais importante ainda é o fato de estarmos diante de um personagem que viajara pelo mundo, vivera inúmeras aventuras, mas que perece diante desse universo criado digitalmente. Além disso, através da escolha desse protagonista, Black Mirror demonstra que essa tecnologia é feita para atingir justamente as grandes massas, visto que o hardcore gamer não se importa muito com isso, o que ele deseja é um bom gameplay e uma boa narrativa.

12. Be Right Back

Em Be Right Back, Martha (Hayley Atwell, a eterna Peggy Carter) e Ash (Domhnall Gleeson, o General Hux de O Despertar da Força) são um típico casal jovem com uma relação bastante divertida cujo único empecilho é o celular do marido, que parece sugar toda sua atenção por diversos momentos. Nossa percepção inicial é a de que veremos um declínio desse casamento em virtude dessa fixação em estar conectado, algo que vemos de maneira mais crescente nos dias atuais. Experimentem ir a um restaurante de noite e olhar à sua volta e contem quantas pessoas (mesmo aquelas em encontros) estão mexendo no celular. Tendo trabalhado como garçom, posso dizer que a quantidade será assustadora na maior parte dos casos. O coeso roteiro de Charlie Brooker, contudo, sabiamente utiliza o uso do portátil de Ash para nos introduzir à questão da pele sintética no enredo, ponto que vem à tona posteriormente no capítulo.

O que efetivamente separa Martha de seu marido é a morte dele. Desolada, ela é apresentada a um programa por meio do qual ela pode conversar com seu querido falecido, uma versão virtual de Ash, que mimetiza sua maneira de falar através de uma análise de suas redes sociais, fotos e vídeos. Tudo começa com emails, progride para voz, até chegar em um clone sintético do rapaz. Impossível não traçar um paralelo com Ela (Her) ao assistir Be Right Back, a relação construída entre Martha e seu correspondente virtual avança de maneira muito similar ao que veríamos, no mesmo ano, no filme de Spike Jonze. Trata-se de um relacionamento evidentemente tóxico, que muito bem reflete as centenas de namoros virtuais que temos na vida real, mas a questão abordada no capítulo não se limita a isso. O verdadeiro enfoque está na dependência emocional, problema crescente em nossa sociedade. Ao ser introduzida a esse programa, Martha corta qualquer esperança de superar a morte do marido, colocando nessa figura, ou ainda na memória, suas chances de sobreviver. Quantos de nós não fazemos de namoradas, esposas ou até amigas nossos pilares? A crítica é evidente, implora pela independência emocional de todos nós, ao passo que somente assim podemos alcançar um certo grau de felicidade, da mesma forma que a protagonista aqui.

11. Hated in the Nation

Hated in the Nation, o maior episódio da quarta temporada, contando com noventa minutos, nos traz os perigos dos “vigilantes sociais”, que praticam cyberbullying de uma forma assustadora. A trama gira em torno de Karin Parke (Kelly Macdonald), uma detetive que, junto de sua estagiária, Blue (Faye Marsay), investiga a morte de uma jornalista que fora atacada nas mídias sociais em virtude de um artigo polêmico que escrevera. Não demora muito para descobrirem que o homicídio foi perpetrado através de uma abelha robótica, uma das muitas que preenchem a Inglaterra, após a extinção da espécie (algo também não muito longe de nossa realidade). Cabe às duas descobrirem quem está controlando esses pequenos robôs.

O episódio funciona como um alerta, problematizando todo esse comportamento de julgar os outros através das redes sociais. Como dito na frase acima de Umberto Eco, a internet dá um perigoso espaço para qualquer pessoa, que pode transformar uma crítica em um discurso de ódio – não se trata apenas de repudiar o comportamento de alguém, mas ataca-la diretamente. Quem tem o direito de interferir de tal maneira na vida social de outra pessoa, sem ao menos dar espaço de fala a ela? Todos se tornam justiceiros e simplesmente incitam mais violência e o pior: não admitem que o fazem. Tudo isso é perfeitamente abordado em Hated in the Nation, que coloca no centro do palco esse comportamento tão presente em nossa sociedade.

Kelly Macdonald e Marsay, como de costume, não deixam a desejar e nos entregam o retrato do que é o ideal: o respeito ao próximo, por mais que não se concorde com eles. Em momento algum vemos suas personagens julgando alguma das vítimas. Em uma das cenas, por exemplo, Karin simplesmente desliga a televisão diante das ações execráveis de um cantor – ela não corre para uma rede social a fim de detonar o sujeito. A liberdade de expressão é colocada em xeque e as mesmas pessoas que a utilizam a fim de atacar os outros, criticam essas vítimas por terem se expressado a forma como elas próprias pensam. Trata-se de um episódio que nos assusta pelo simples fato de que nada teria acontecido se as pessoas simplesmente agissem de forma respeitosa ou dialogando, ao invés de simplesmente jogar o ódio para o meio da equação. Com um ritmo fluido e completamente engajante, temos aqui uma narrativa que passa em um piscar de olhos, não nos fazendo sentir nem um pouco a sua duração prolongada.

10. Fifteen Million Merits

Trazendo um novo enredo, em um universo completamente diferente, com um elenco totalmente inédito à série, Fifteen Million Merits coloca em xeque outro aspecto de nossa querida vida moderna. O alvo agora são os quinze minutos de fama, os infinitos reality shows que pipocam em grande escala a cada ano que se passa.

O episódio vem feito à medida para as pessoas que obrigam os outros a acreditarem que somente serão bem sucedidas se ganharem o American Idol, pessoas que assistem The Voice e sonham em fazer parte daquele circo e, é claro, para aqueles que efetivamente participam de tais programas e, quando perdem, só faltam cortar os pulsos. Não estou dizendo que você está errado em assistir ou participar de tal tipo de entretenimento, o erro está na importância que a sociedade dá a esse tipo de série, o que, evidentemente, apenas traz mais do mesmo tipo de programação às nossas TVs.

Para ilustrar essa absurda cultura, acompanhamos Bing (Daniel Kaluuya) um jovem que vive enclausurado em um ambiente hermético no qual sua vida consiste em: acordar, pedalar em uma bicicleta estática para gerar energia, comer, assistir comerciais de programas ou aos programas em si e dormir. Não há diálogo, não há vida, apenas sobrevivência em uma cultura puramente virtual na qual as pessoas podem sonhar, sem jamais atingir seus sonhos. No meio disso, Bing acaba se apaixonando por Abi (Jessica Brown Findlay) e tem a brilhante ideia de inscrevê-la para um reality show aos moldes de Britain’s Got Talent, a única suposta maneira de sua paixão se livrar daquele imperdoável ciclo vicioso.

Ao fim de Fifteen Million Merits duvido que não se sintam enojados de programas como esses, que evocam uma celebridade ao custo do sonho de dezenas de outras. O curioso é como a emoção se demonstra reprimida nesses hamsters em suas pequenas rodas e como o sistema os trata como meras engrenagens, de forma fria, cruel e objetivista, colocando, enfim, uma meta clara na vida de cada ser humano, ou melhor, duas: gerar energia ou participar de um reality show.

9. Shut Up and Dance

Shut Up and Dance nos leva ainda mais próximos de nossa realidade – não temos aqui uma tecnologia muito avançada ou nada disso, simplesmente o velho hacking e o perigo do uso indevido da internet. Kenny (Alex Lawther) é um garoto jovem que vive com sua mãe e irmã. Um dia, ao chegar do trabalho, ele descobre que sua irmã utilizara seu laptop e de imediato percebera que adquiriu alguns vírus no processo. Após supostamente limpar o PC, ele decide assistir pornografia na internet, sem saber, porém, que está sendo filmado por alguém desconhecido. Logo em seguida ele recebe um email contendo um vídeo dele próprio se masturbando e é alertado que isso irá vazar por toda a internet se não seguir as instruções precisas.

Evidente que o capítulo lida com os constantes episódios de vazamentos de conteúdo particular em redes sociais, fóruns e outros meios de interação afora. Desde o famoso fappening até o as centenas de fotos e vídeos que circulam pelo Whatsapp, já virou algo de costume dentro desse mundo digital – mas são poucas as pessoas que efetivamente param para pensar no dano que estão causando ao compartilhar essas pessoalidades de desconhecidos. Chega a ser assustador como o ser humano se preocupa somente com quem está ao seu redor, espalha esses registros privados indiscriminadamente e ainda tem a cara de pau de se sentir vigiado pela CIA ou afins, quando ele próprio já divulga informações alheias pelo mundo afora.

Shut Up and Dance lida com a questão com brilhantismo, insere uma narrativa de ação e suspense, uma corrida contra o tempo que demonstra o quão variada cada temporada de Black Mirror pode ser. Alex Lawther cumpre seu papel de forma completamente imersiva, sentimos toda sua dor, como se ele, de fato, fosse alguém real, ao ponto que esquecemos estar diante de um ator. Jerome Flynn, o Bronn, de Game of Thrones, também não deixa a desejar e mostra como o cyberataque pode atingir a qualquer um. Trata-se de um capítulo que não nos dá tempo para respirar, nos mergulhando totalmente em sua história que, no fim, nos faz imediatamente colocar um post-it na frente da webcam de nossos computadores.

8. White Bear

White Bear tem sua real crítica revelada somente ao término da projeção. A trama gira em torno de Victoria (Lenora Crichlow), que acorda sem qualquer memória em uma casa que, ao que tudo indica, é a sua própria. Ao sair às ruas para pedir ajuda, contudo, todos que encontra estão em uma espécie de transe diante das telas de seus celulares filmando-a incessantemente e sem dialogar de qualquer forma e se afastando caso ela chegue muito perto.

Não demora muito a surgir uma exceção, pessoas mascaradas que tentam, por alguma razão, matá-la, criando uma tensão constante no espectador que encontra-se tão perdido quanto a protagonista, buscando entender o que ocorre. Somente uma jovem, Jem (Tuppence Middleton, a Riley de Sense8), parece querer ajudá-la de alguma forma. Temos aqui uma mistura de filme de terror com distopias aos moldes de A Estrada. A protagonista está perdida nesse mundo e deve lutar ao máximo para sobreviver.

 

7. Hang the DJ

Em Hang the DJ, somos apresentados a um programa similar a aplicativos com Tinder e Happn, onde casais são aleatoriamente sortidos e combinados, e os respectivos encontros são determinados por uma duração específica – a qual os participantes são obrigados e cumprir, independente do tempo. Nesse cenário, temos a história de Frank (Joe Coel) e Amy (Georgina Campbell), duas pessoas que se conhecem uma vez, mas que colocam à prova o funcionamento do aplicativo ao tentar estender seu tempo determinado.

É uma premissa que imediatamente nos remete a O Lagosta, comédia de humor negro do grego Yorgos Lanthimos que também apostava em uma seleção aleatória de casais com algum tipo de twist bizarra – no caso do filme com Colin Farrell, o fato de que se transformariam em animais e seriam soltos à natureza caso não achassem um par. Brooker aposta em outro tipo de análise, com os protagonistas questionando se tudo aquilo não passa de algum tipo de simulação, e consegue explorar também aspectos mais intimistas; por exemplo, quando Frank e Amy se reencontram, optam por não olhar quanto tempo o aplicativo os concedeu, mas um deles é logo tentado para tentar descobrir a duração exata – e que, sendo Black Mirror, sempre traz consequências devastadoras para esse tipo de ação.

 

6. The Waldo Moment

The Waldo Moment, que coloca a política no centro do palco. Jamie Salter (Daniel Rigby) é o homem por trás de um popular personagem de animação, Waldo, um urso azul grosseiro cujas falas e ações são controladas ao vivo por Salter. No meio das eleições inglesas, os empresários por trás de tal figura o colocam para criticar o candidato conservador Liam Monroe (Tobias Menzies). Naturalmente, o público adora e mais e mais o desenho passa a se envolver na política, até se tornar, ele próprio, um candidato. Qualquer brasileiro com o mínimo de conhecimento da história recente de nosso país irá imediatamente se lembrar do famoso macaco Tião, que se tornou um candidato não oficial nas eleições de 1988 para a prefeitura do Rio de Janeiro. Waldo, porém, representa muito mais que um voto de protesto nulo, ele dá voz aos candidatos verdadeiramente honestos, que não fazem da política sua carreira e estão ali para realizar algo de construtivo para o povo. Black Mirror, porém, não trabalha somente com a superfície e consegue construir a personalidade do homem por trás dessa popular figura.

Salter é um personagem profundo e esconde sua depressão por trás da figura debochada que é o urso azul, representando muito bem todos aqueles que vestem máscaras em nossa sociedade a fim de não demonstrar o sofrimento que os assola por meses, anos e até décadas a fio. Naturalmente, o trabalho de Daniel Rigby merece destaque aqui, trazendo um retrato sólido de um homem com problemas emocionais. O mais assustador é como The Waldo Moment soa verossímil, tanto nas relações interpessoais quanto na retratação do momento eleitoral. Seu desfecho é ainda um alerta sobre a importância do voto consciente e como uma ação impensada no momento eleitoral pode gerar catastróficas consequências (mais uma vez, o Brasil é um bom exemplo, além da própria Inglaterra bem recentemente).

5. San Junipero

San Junipero é, certamente, o episódio mais diferente de toda a série. Tal percepção já temos desde os primeiros minutos, vemos a história de Yorkie (Mackenzie Davis), que, em uma boate dos anos 1980, conhece Kelly (Gugu Mbatha-Raw), por quem rapidamente se apaixona, depois de um tempo, porém, descobrimos que tudo não se passa de uma espécie de realidade virtual e que as duas, na realidade, são duas senhoras idosas em asilos diferentes, que tiveram suas mentes transferidas, temporariamente, para esse local, como um resort a fim de fazê-las viver sua juventude novamente.

Mas não é apenas por isso que o capítulo se diferencia do restante de Black Mirror, temos aqui uma história que não é necessariamente sombria, mas que lida com questões de nossa sociedade de forma tão problematizadora quanto o restante do seriado. A começar pelo abandono dos idosos nos asilos pelas suas famílias, que lidam com esses entes “queridos” como se fossem lixo, esquecendo que, um dia, eles os criaram. Segundo, temos a problemática da eutanásia e do coma, o que torna todo o episódio verdadeiramente desconcertante – temos uma tecnologia aqui feita verdadeiramente para o bem, que pode tornar todo o sofrimento de inúmeras pessoas algo distante – afinal, quem quer mergulhar na solidão de uma casa de repouso, jogando xadrez, damas e fazendo fisioterapia todos os dias? Aqui enxergamos a possibilidade de descartarmos a velhice e viver plenamente mais uma vez.

A terceira camada de San Junipero lida com a vitória sobre o luto, a necessidade de se deixar seu passado para trás, mostrando como se ater à memória da perda pode prejudicar sua vida. Além disso, a forma como o capítulo lida com a homossexualidade é bastante tocante, nos trazendo uma verdadeira história de amor, tratando sempre, é claro, com a questão da homofobia, que, infelizmente e muito provavelmente jamais deixará nossa sociedade por completo, independentemente do quão tecnologicamente avançados nos tornemos.

4. The National Anthem

The National Anthem é uma história ligada ao uso massivo das redes sociais – especialmente Twitter Youtube – na qual o primeiro ministro inglês (interpretado por Rory Kinnear) é colocado em um tenebroso dilema: para salvar a vida da adorada princesa Susannah (Lydia Wilson), ele deve ter relações sexuais com um porco enquanto é televisionado, ao vivo, em rede global. Rory Kinnear, antes mesmo de demonstrar seu talento em Penny Dreadful, consegue representar perfeitamente a angústia de um homem que, aos poucos, é deixado sem opção, sem esperança a não ser se humilhar perante toda a humanidade. Há uma nítida perversão, um terrorismo psicológico, no arco em questão, explicitado pela ausência de um objetivo claro no sequestro do membro da família real – o visado é apenas o espetáculo, um político sendo forçado a regredir a seu estado mais primal. E aqui entra a genialidade do primeiro episódio, que se estende para a série como um todo: ao simpatizarmos pelo ministro, passamos a refletir na forma como nos entretemos através da miséria alheia. Assistimos as multidões, alguns enojados, outros ansiosos pelo que irá acontecer e não conseguimos nos distanciar deles.

O absurdo não é tão distante de nossa própria realidade, a vida efetivamente imita a arte e The National Anthem evoca essa noção, nos deixando praticamente em transe ao término da projeção.

3. Nosedive

A trama de Nosedive gira em torno de Lacie (Bryce Dallas Howard), uma mulher que vive normalmente sua vida, trabalhando, morando com seu irmão e dando notas (de 0 a 5 estrelas) para as pessoas. Sim, estamos falando de um universo no qual a mídia social alcançou níveis assustadores, ao ponto de que conseguimos ver a média de avaliações recebidas de uma pessoa, o que define não somente seu status social, como limita sua entrada em certos locais e pode até ajudar ou prejudica-la na vida profissional.

É o universo da hipocrisia, onde todas as pessoas sorriem umas para as outras, temendo ficar abaixo de quatro estrelas, o que, assustadoramente, não está tão longe de nossa realidade. Trata-se de apenas uma extrapolação da mecânica dos likes, presentes na maior parte das redes sociais, trabalhando o medo de uma pessoa “postar” algo e ser solenemente ignorada e o anseio por ser idolatrada pelas pessoas à sua volta. Naturalmente o episódio lida com a questão das pessoas estarem 100% do tempo conectadas, sempre mexendo em seus celulares, mostrando onde estão, o que estão comendo, dentre outras futilidades – é a cultura do Instagram, Facebook e Twitter, a santíssima trindade (ou seria o Eixo do Mal?) que se enraizou em nossa sociedade.

2. White Christmas

White Christmas é a prova definitiva de que Black Mirror é uma das melhores séries da atualidade, o Twilight Zone que nós merecemos (e queremos) e nos traz um especial de natal que definitivamente não busca ser mais “light” em virtude do clima festivo. Como de costume, nos faz pensar, preenchendo-nos de angústia através de suas críticas à tecnologia e a sociedade que estamos nos tornando. Agora, terminada esta crítica, por favor, falem com a pessoa que mais amam (não por redes sociais) para que nos distanciemos, ao menos um pouco, dessa realidade alternativa perturbadora.

1. The Entire History of You

The Entire History of You é o auge de Black Mirror – o episódio que causa maior desconforto, ao passo que lida com nossa cultura de maneira mais ampla, atacando especificamente nossa necessidade cada vez maior de registrar cada momento vivido, seja através de fotos, vídeos ou posts no Facebook e Twitter. Aqui encontramos uma sociedade na qual todos contam com implantes que recordam, através dos olhos, a vida de cada indivíduo, sendo possível acessar tais memórias e até exibi-las em outras telas a qualquer momento, em outras palavras: compartilhando com outros. O esquecimento se torna mera recordação, ao passo que se torna possível vivenciar novamente qualquer trecho de nossas vidas

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