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Ponto de vista é chave. A mera percepção de como enxergamos um evento pode transformar nossas sensações em relação a este, e até diferenciar a forma como somos afetados. Um exemplo cômico e extremo, é se Star Wars fosse contado do ponto de vista de um pacato stormtrooper, que vive sua vida como soldado imperial e enfrenta um dia após o outro enquanto discute sobre novos modelos de speeders e treina sua pontaria contra a Aliança Rebelde. Até o dia em que é subitamente incinerado quando a Estrela da Morte é explodida por Luke Skywalker, e nós certamente sentiríamos pena desse soldado anônimo.

É uma comparação um tanto exagerada, mas serve para chegar aonde queremos com Sinais, o terceiro filme de M. Night Shyamalan em Hollywood e que seria marcado como seu último grande sucesso antes da fase sombria de sua carreira. Embarcando no gênero da ficção científica, Shyamalan registra uma invasão alienígena de grande escala, mas ao invés de concentrar-se na chegada e na destruição (como, por exemplo, o Guerra dos Mundos de Spielberg), as lentes do cineastas voltam-se para uma família praticamente isolada do resto do mundo; em um formidável exercício de atmosfera.

A trama nos apresenta à Graham Mess (Mel Gibson), um ex-reverendo que teve sua crença em Deus e na fé completamente destruídas após a trágica morte de sua esposa em um acidente de carro. Sustentando uma fazenda no interior dos EUA com a ajuda do irmão Merrill (Joaquin Phoenix) e seus dois filhos, Morgan (Rory Culkin) e Bo (Abigail Breslain), a Graham precisará uni-los quando misteriosos círculos e sinais começam a aparecer em suas plantações – indicando para uma invasão alienígena de escala global.

Basicamente, um filme de invasão. Mas como elaborado no parágrafo de introdução, é o ponto de vista adotado pelo cineasta que torna a experiência tão rica e diferente das inúmeras outras abordagens a esse gênero. É um filme silencioso e isolado, e todas as influências externas que nos oferecem pistas do que acontece numa escala maior vêm pelo jornal ou televisão, e é admirável como Shyamalan inicia uma progressão muito controlada para a sequência de eventos; mostrar um lojista assistindo à uma matéria na TV sobre os círculos na plantação para contar o número de comerciais de refrigerante, por exemplo, oferece uma visão natural e de figuras palpáveis para um tema tão intenso. O roteiro do diretor também trabalha bem ao trazer sugestões e pistas sobre o background dos personagens, como o fato de todos ainda chamarem Graham de “padre” ou o taco de beisebol de Merrill na parede da sala.

Esse clima quieto e aparentemente sem eventos só torna mais exacerbante quando as grandes ameaças do longa começam a de fato se manifestar. Em dois momentos, vemos o talento incontestável de Shyamalan para construir um suspense insuportável até a revelação de algo; o primeiro deles, indubitavelmente o mais famoso do filme, acontece quando Merrill assiste pela televisão (novamente, a presença da mídia torna tudo mais alarmante) um vídeo captado em uma festa de aniversário no Brasil, onde vemos diversas crianças gritando e tentando encontrar a criatura alienígena – que nos é revelada de forma abrupta e assustadora pela primeira vez, seguido pelo tema marcante de James Newton Howard. O outro momento segue o mesmo princípio, com Graham entrando na casa de Ray Redds (personagem do próprio Shyamalan), onde ele clama ter conseguido trancafiar um dos alienígenas após uma briga. Nossa expectativa já é enorme por sabermos que o invasor pode aparecer a qualquer instante, e Shyamalan nos mantém colados à poltrona quando Graham usa a lâmina de uma faca para enxergar o cômodo do outro lado da porta trancada; culminando em mais uma súbita aparição da criatura, mas que impacta – e assusta – justamente pela longuíssima antecipação.

O grande clímax da projeção mantém essa condução primorosa e requintada, com Shyamalan nos mostrando o mínimo possível das criaturas ou da violência; ouvir pelo outro lado da porta os latidos de um cachorro serem interrompidos pelo cortante som de um pescoço se partindo é muito mais impactante. É também quando Sinais afasta grande parcela do público, que considera o desfecho uma grande bobagem e artificial por trazer Merrill enfrentando o alienígena com seu taco de beisebol. E realmente teria sido, se Shyamalan não tivesse preparado todo um jogo de foreshadowing que culmina brilhantemente nesse momento, desde as conversas sobre beisebol com seu colega militar, o flashback de Graham onde sua esposa diz para “bater com força” e até a mania de Bo em espalhar copos de água pela casa. Essa culminação de elementos, aliadas à mudança na câmera de Shyamalan (que abraça planos centrais e lentes grande angulares para marcar a catarse de Graham) e a forte música de Howard, tornam esse um dos mais belos e emocionantes momentos da carreira do cineasta.

Sinais talvez seja o mais Hitchcockiano dos trabalhos de M. Night Shyamalan, com uma verdadeira masterclass de como construir-se uma ambientação pesada e envolvente, ao passo em que o suspense desenvolvido é um dos maiores de sua carreira. É justamente por tapar o mundo externo de um evento megalomaníaco e alarmente que temos algo realmente assustador.

Sinais (Signs, EUA – 2002)

Direção: M. Night Shyamalan
Roteiro: M. Night Shyamalan
Elenco: Mel Gibson, Joaquin Phoenix, Rory Culkin, Abigal Breslin, Cherry Jones, M. Night Shyamalan
Gênero: Suspense, Ficção Científica
Duração: 106 min

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