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Filme assistido em sessão comercial nos Estados Unidos. 

Foi com ares de expectativa e esperança que a adaptação de Uma Dobra no Tempo foi anunciado há alguns anos atrás. Ava DuVernay, que dirigiu Selma: Uma Luta pela Igualdade foi contratada como diretora e se tornou a primeira mulher negra a dirigir uma adaptação cinematográfica com orçamento de produção de mais de 100 milhões de dólares. Outras contratações para a obra também elevaram a expectativa de muitos. Storm Reid, Oprah Winfrey, Reese Witherspoon, Mindy KalingZach Galifianakis e Chris Pine foram anunciados para o elenco e, com uma equipe dessas, é natural esperar bastante da produção.

Uma Dobra No Tempo, afinal, é a adaptação do livro epônimo de 1962 escrito por Madeleine L’Engle que conquistou diversos prêmios de literatura. E já devemos deixar bem claro aqui, o livro recebeu por muito tempo o rótulo de inadaptável para as telas do cinema. É por isso que à conclusão dos 109 minutos da segunda tentativa de adaptação de Uma Dobra no Tempo, é razoável dizer que algumas histórias deveriam permanecer sempre em livros.

O Trauma do Desaparecimento

O filme começa com uma cena tenra entre Meg Murry (Reid) e seu pai, o astrofísico Alex Murphy (Pine), com o último ensinando a pequena menina coisas sobre física em seu escritório. Neste momento vemos a ligação de pai e filha, o encantamento de Meg com o mundo que seu pai, empolgado, lhe apresentava. Chris Pine e Storm Reid protagonizam poucos momentos como este, no entanto. O que é uma pena, pois a presença de ambos em cena eleva o filme que parece sempre tão morno. O pai acaba desaparecendo em uma de suas tentativas de realizar o tesseract, um experimento que o permite, em tese, atravessar distâncias que superam o espaço e o universo em meros segundos. Após este evento, Meg precisa continuar sua vida e lidar com os problemas gerados pelo desaparecimento.

E são os típicos problemas que uma adolescente da classe média americana encontraria; bullying na escola, problemas com diretor, queda nas notas e uma atitude fechada de quem espera o retorno do pai ansiosamente, mesmo que quatro anos já tenham se passado quando começamos o filme. Após a apresentação didática de todas as partes infelizes da vida da protagonista, é que começam a aparecer as viajantes astrais Senhora Qual (Oprah), Senhora Queé (Witherspoon) e a Senhora Quem (Kaling). As mesmas levam os três adolescentes para a viagem de resgate do Dr. Alex Murphy e a consequente batalha com A Coisa (não confundir com o palhaço).

As Três Medianas

As três viajantes astrais que figuraram com tanto destaque a campanha promocional para o filme funcionam abaixo das expectativas, como diversas outras peças da película. Witherspoon está extremamente caricata como uma alma livre pelo mundo mas que parece emular muitas características do já saturado Capitão Jack Sparrow de Johnny Depp. Reese, assim como Depp em suas últimas encarnações do personagem, parecem sempre passar acima da linha do exagero. Seja mexendo com o cenário, fazendo comentários em detrimento de Meg e muitas caras e bocas. Oprah, por outro lado, faz sua melhor pose de mãe/guia/deus como a Senhora Qual, que parece ser a líder do trio. Sempre evocando paz e trazendo conforto pra personagem, as semelhanças com o Aslam de Crônicas de Nárnia são enormes.

E a maior decepção do trio fica para Mindy Kaling, que parece ter sido quase que totalmente removida do filme. Mesmo aparecendo em diversas cenas, seu personagem fala pouco ou nada. Surge de relance aqui e ali fazendo alguma careta, esperando alguém terminar suas falas, ou, eventualmente, citando alguma frase existencial que qualquer pessoa encontra folheando o Facebook por cinco minutos. Esse apagamento da atriz chega a ser tão óbvia que eu imagino que grande parte de suas participação foi cortada na pós produção.

Outro problema de pós produção é a montagem. Com um início rápido e transições de cenas bruscas, parece à princípio que estamos assistindo à uma colagem de diversos clipes musicais. E a adição de músicas do gênero pop acaba aumentando esta sensação de um especial da MTV e não um filme Disney.

Meg e aqueles dois

Meg é uma menina super inteligente e somos lembrados disto constantemente durante a fita, onde nenhum problema é grande demais para a mesma resolver, sem nenhuma dificuldade ou erros. Seja fugindo de tornados, vagando pelos ares ou enfrentando o vilão do filme, Meg não encontra obstáculos reais. Essa facilidade com que trafega os diversos mundos que nos são apresentados influencia negativamente em como nos identificamos com sua personagem. E seus coadjuvantes não ajudam em nada a dar sabor à trama. Os personagens de Levi Miller e Deric McCabe, que interpretam o interesse amoroso de Meg, Calvin O’Keefe, e seu irmão caçula, Charles Wallace Murry, respectivamente, ficam no meio termo ou são insuportáveis. Charles sabe tudo, acredita em tudo, vai atrás de tudo, tem confiança extrema em todos os personagens que aparecem e se joga de cabeça em qualquer cenário que se teletransportem, forçando sua irmã a protege-lo a todo instante de perigos. Calvin, por outro lado, está ali para ser salvo de vez em quando, suporte emocional e fazer algum comentário ou elogio à Meg. Me pergunto se o filme sofreria com a ausência desse personagem.

Os Olhos Veem Mas O Coração Não Sente

O bom do filme é bom, mas poderia ter sido muito melhor e mais criativo. Ultimamente, considerando alguns dos recentes lançamentos Disney, observamos muitos diretores pouco acostumados com orçamentos gigantescos que possuem entraves na hora de filmar ação e usar criatividade para cenas pesadas de computação gráfica. Uma Dobra no Tempo não é diferente. Mesmo com uma qualidade de efeitos gráficos acima do comum para Disney, existem cenas que não conseguem capturar a fantasia de dimensões diferentes ou nos passar a sensação de algo transcendental. Vemos cavernas com rochas equilibradas sobre pedras, flores que dançam, florestas escuras e vizinhanças peculiares. Algo que, sinceramente, já foi visto ou apresentado de forma similar em vários outros filmes de modo muito mais encantador, como o outro blockbuster de dimensões alternativas, Doutor Estranho.

Nesses pontos do filme cabia uma mão mais criativa, com ângulos mais ousados e cenas simplesmente mais interessantes. É preciso um pouco mais para encantar o público do cinema de 2018 do que algumas flores bonitas dançando pelos campos. E não só sobre a filmagem, mas a própria emoção do momento. Algumas cenas se alongam por tempo desnecessário, como a fuga do tornado que parece durar uma eternidade.

Inadaptável, afinal

A natureza extremamente fantasiosa, com transições que superam os limites do universo e espaço e personagens extravagantes, excêntricos aliados à uma narrativa com diversos elementos em jogo acabou sendo demais para a mão de Ava DuVernay em seu primeiro grande projeto com a Disney. Difícil saber se a mão do estúdio pesou muito durante a produção ou se o livro realmente não é adaptável. Infelizmente, com tantos pontos positivos à seu favor, Uma Dobra no Tempo acaba se tornando mais uma esquecível produção Disney, aos moldes de Tomorrowland: Um Lugar Onde Nada é Possível.

Um final extremamente insatisfatório com um plot twist preparado de forma desleixada e apressada para atender a trama do livro entregam uma experiência que deixa a desejar do início até o (amargo) fim. Um filme com poucos pontos altos, diversos pontos baixos e muita mediocridade. Não chega nem perto de atender às altas expectativas em torno da produção e é bem provável que o público saia do cinema pensando mais na perda de tempo que acabou de suportar do que em Uma Dobra no Tempo.

Uma Dobra no Tempo (A Wrinkle in Time, EUA – 2018)

Direção: Ava DuVernay
Roteiro: Jennifer Lee e Jeff Stockwell, baseado na obra de Madeleine L’Engle
Elenco: Storm Reid, Oprah Winfrey, Reese Witherspoon, Mindy Kaling, Chris Pine, Zach Galifianakis, Levi Miller, Deric McCabe
Gênero: Aventura
Duração: 109 min