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A devoção quase surreal de Andy Warhol, o pai da pop-art

No dia primeiro de abril de 1987, os artistas, atores, designes de moda, musicistas e escritores se reuniam na Catedral de Saint Patrick, na cidade de Nova York. Ao contrário do que se poderia pensar, aquele não era um evento social, um casamento esperado ou qualquer coisa similar, e sim o memorial do pintor Andy Warhol, que morreu devido a complicações em uma cirurgia.

Liza MinnelliCalvin KleinTom WolfeGeorge Plimpton atenderam ao funeral. Yoko Ono compareceu um pouco mais cedo, visto que foi cotada para fazer um discurso acerca da vida de Warhol. John Richardson, um dos amigos mais próximos do artista, falou sobre sua “secreta piedade”, a qual “inevitavelmente muda nossas percepções de alguém que enganou o mundo inteiro, fazendo-o acreditar que suas únicas obsessões eram o dinheiro, a fama e o glamour”.

“Nunca julgue Andy pela superfície”, ele acrescentou. É claro, quando analisamos sua vida com uma percepção rasa, é muito fácil caracterizá-lo como alguém fútil. Mas Warhol foi extremamente importante para a difusão da pop-art pelo mundo, transformando um movimento de contracultura em praticamente uma religião a ser seguida, colocando em voga nomes famosos, travestindo-os com o aqui e o agora. Não é à toa que uma de suas obras mais famosas traz a pin-up bombshell Marilyn Monroe replicada várias vezes em um quadro; a outra, uma sequência infinita das latas de sopa Campbell, refletindo o consumismo da sociedade norte-americana.

O que poucos sabem é que Warhol sempre carregou consigo uma grande carga religiosa, devido à sua criação católica. Em determinada época de sua vida, ele se tornou obcecado com o trabalho A Última Ceia, de Leonardo da Vinci, produzindo centenas de variações do tema sempre dialogando com a constante correria de sua época. Dentre suas obras religiosas, muitas delas aparecem com logotipos coloridos estampados no topo das molduras. O comum tornou-se extraordinário e ironicamente ácida, visto que suas decisões implicavam a ideia de que o apetite pelo que está na moda nos distrai da visão de Jesus Cristo.

É claro que as duras críticas nunca o deixaram assustado o suficiente para parar de trabalhar. A pop-art que insistia em criar e recriar seguia duas vertentes: retratar a pompa da burguesia emergente e relativizar a blasfêmia. Ele apenas refletia sua sociedade, afastando-se de quaisquer julgamentos de moral. Afinal, como ele mesmo declarou, “as pessoas sempre me chamam de espelho. Se um espelho se encara num espelho, o que há para ver?”.

Bom, aparentemente os museus do Vaticano decidiram que há algo para ser visto sim. Alguns céticos podem até acusá-los de populismo barato, mas eles podem não estar ciente de sua quase devoção surreal para com a Igreja. Não há mais dúvida que Warhol seria recebido com acaloradas boas-vindas pela honra de colocar essa instituição em seus trabalhos. E, ao que tudo indica, seus trabalhos permanecerão sobre as catacumbas dos santos e dos mártires.

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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