em

Bastidores Indica | Animais Noturnos

Animais Noturnos (2016)

Dirigido por Tom Ford

Este é um daqueles muito filmes  que carregam pra si a infame maldição do alvo fácil para críticas negativas e acusações de ser “pretensioso”, “arte falsa”, “filme manipulador”, ou o meu favorito de irritante: “David Lynch wannabe”. E querem saber? Tenho quase certeza que Tom Ford é tão ciente de tudo isso e não liga a mínima para o que vão acusar seu filme de ser, e o realiza na melhor forma possível. Não é nada perfeito ou nem sequer excelente eu diria, mas é sim um filme muito ciente de sua estrutura, proposta e o seu diretor o desenvolve da forma exatamente que quer.

Pretensioso? Manipulador? Claro, porque não?! Qual o pecado do filme em querer realmente ressaltar em suas entrelinhas algo mais profundo e “artístico” do que se pode enxergar, e ainda conseguir ser capaz de manipular sim a atenção e percepção de seu público à todo momento, em nos fazer pensar que estamos assistindo a algo mas é outra coisa totalmente diferente. Talvez não o faça de forma tão concisa e às vezes cai sim em certas obviedades de roteiro, mas ainda sim com sua boa linha de narrativa dividida em três diferentes frentes, conseguem tornar o filme intrigante e até divertido de se acompanhar e desmembrar seu âmago.

sim, o que temos aqui é um mistério dramático e um estudo de personagens envolto dentro de uma história de vingança que ora ou outra pode ser levado a certos níveis surrealistas, e até confundido com o mistério surrealista de David Lynch, mas não totalmente. Ford compartilha sim de certas semelhanças e leves inspirações do mestre, trazendo o bizarro e o medo em forma de um verdadeiro pesadelo vindos dos filmes de Lynch, e o insere dentro de uma trama realista e palpável com personagens carregados de um cinismo em suas atitudes, parecidos tirados de um filme dos Irmãos Coen, com a violência de seus atos sendo um reflexo da natureza de seus personagens vindo de um digno filme de Sam Peckinpah.

Mas não só de EXCELENTES influências que Ford constrói seu filme, e sim consegue criar para si uma personalidade própria e trilhar seu próprio e original percurso de desenvolvimento. História de vingança essa que acoberta uma vasta tortura de sentimentos profundos sendo quebrados sob uma verdadeira tortura psicológica. Onde as dores causadas pelo amor, a falta de confiança e apoio, a traição e a vingança tomam forma de um verdadeiro massacre sujo e violento e altamente metafórico em sua composição narrativa recheada de camadas e interpretações. Com suas desenvolturas se mostrando imprevisíveis e que tomam um percurso mais e mais sombrio, violento e injusto, causando uma certa frieza e distanciamento emocional das situações e personagens (de forma proposital), para que aí sim manipule seu espectador a revisitar essa história e ver os profundos e dolorosos sentimentos que carrega em seu âmago.

Tão inspirado em suas pretensões artísticas que ironicamente, de certa forma, disseca essas tais inspirações artísticas de forma sutil dentro de sua trama: seria a dor e a violência arte? Ou a simples falta de sentimentos e a frieza frígida interna de seus personagens são artifícios para construir personagens complexos? A dor é a inspiração de uma digna obra de arte? Seja como for, Ford o realiza mais do que bem e te instiga a refletir sem parar sobre as questões que seus complexos personagens sugerem aqui e ali. E conduzem cada momento com sua direção sempre audaz, intercalando entre as três narrativas simultâneas com perfeição em sua montagem sem nunca deixar as transições confusas ou destoantes graças a um ótimo trabalho da fotografia de Seamus McGarvey, balanceando momentos da claustrofobia depressiva de um lar como uma prisão à enervantes e digníssimas cenas de suspense prestes a explodir em violência a qualquer momento.

E o que pode ser dito de um elenco em que um ator parece superar o outro a cada cena e assim sucessivamente, com Amy Adams como a bela solitária carregada de sentimentos de amargura e arrependimento prestes a sufocá-la, e com um Jake Gyllenhaal talvez sendo a personificação do artista (talvez do próprio Ford) sofrendo com a encarnação de seus medos e dores mais profundas e buscando vingança contra elas, ao mesmo tempo em que tenta realizar sua ‘obra-prima final’. E um SOBERBO e quase animalesco Michael Shannon como o sedento por justiça por qualquer meio necessário, e Aaron Taylor-Johnson como a amalgama de todo o mal, crueldade e vil que todos tendem a enfrentar e sofrer em suas mãos.

Mas camadas complexas, teorias analíticas e análise rudimentar a parte, Animais Noturnos é um filme que sustenta suas pretensões que carrega para sim em grande peso? Talvez sim, mas não vãos ser todos que vão aceitar querer digerir, refletir ou sequer sentir o que o melhor trabalho do talentosíssimo e promissor Tom Ford tem a oferecer aqui: uma forma talvez não pretensiosa e sim ambiciosa e ousada de se criar e fazer cinema, e torná-lo tão prazerosamente e angustiantemente intrigante de se assistir e querer dissecar. E afinal, o que ele quis dizer com tudo isso? Bom, todos podem ter uma resposta diferente mesmo com as perguntas sendo tão óbvias aqui para os mais atentos, apenas não há uma história de terror mais violenta e trágica do que uma história de amor não correspondido!

O que você achou desta publicação?

Avatar

Publicado por Raphael Klopper

Estudante de Jornalismo e amante de filmes desde o berço, que evoluiu ao longo dos anos para ser também um possível nerd amante de quadrinhos, games, livros, de todos os gêneros e tipos possíveis. E devido a isso, não tem um gosto particular, apenas busca apreciar todas as grandes qualidades que as obras que tanto admira.

Comentários

Leave a Reply

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Loading…

0

Comente!

Mulher-Maravilha | Patty Jenkins afirma que o filme não tem cenas deletadas

Crítica | Unbreakable Kimmy Schmidt – 3ª Temporada