O Último Pistoleiro (1976)

Dirigido por Don Siegel

Não é de hoje que já se podia notar a ENORME paixão que o esquecido mestre Don Siegel tinha pelo gênero do faroeste. Não só claro por ele mesmo ter feito alguns ótimos filmes do gênero, mas por sempre ter demonstrado em todos os seus filmes claras influências do mesmo. Então com certeza deve-lhe ter sido um sonho de uma vida sendo realizado quando ele se viu dirigindo John Wayne em um seu último e infelizmente esquecido filme.

Quase um verdadeiro filme testamento; uma homenagem; uma carta de amor a era Wayne no cinema e seus personagens fodões, que sempre pareciam ser o mesmo, mas sempre nos entretiam com pouco esforço. E o filme parece ser tão ciente disso que parece lidar com o personagem de Wayne, J.B. Books, aqui exatamente como uma amálgama de todos os personagens de sua carreira, e quase como se tivessem sido sempre a mesma pessoa esse tempo todo.

“Eu não serei injustiçado. Não serei insultado. Não irei encostar uma mão em você. Eu não faço essas coisas para outras pessoas, e eu exijo o mesmo delas!”

Não é à toa que o filme se inicia ironicamente com imagens tiradas diretamente de filmes como No Tempo das Diligências; Onde Começa o Inferno; Rastros de Ódio e El Dorado, alguns de seus melhores filmes. Porque se Clint Eastwood teve o seu magistral Os Imperdoáveis para se despedir da sua carreira no gênero Faroeste, John Wayne com certeza merecia o seu filme de despedida, e não foi pelo seu Bravura Indômita como muitos pensam e consideram, esse foi sim um bom filme que apenas lhe deu um Oscar de compensação pela carreira, enquanto O Último Pistoleiro foi essa sua dolorosa porta de despedida à atravessar uma última vez.

Como se aquele mesmo personagem que vimos incontáveis vezes nos grandes Faroestes que Wayne participou, alcançasse aqui finalmente a fase da velhice do presente, vindo de um ultrapassado passado onde uma vez uma lenda, hoje não passa de ser apenas mitos e histórias quebradas e esquecidas, com a amargura dos pecados passados tomando conta de seus sentimentos.

E claro, pode se discutir com razão que a trama não é nada original deveras: pistoleiro velhaco e amargurado do passado, senta e mostra seu lado bom para pessoas que cria laços e no final enfrenta seu passado uma última vez. Quase basicamente a mesma trama que já vimos inúmeras e incontáveis vezes no gênero, e o filme parece ser tão ciente que disso ao ponto de compartilhar uma estrutura de narrativa MUITO semelhante à de filmes de Wayne como os já mencionados Onde Começa o Inferno ou El Dorado (dois dos melhores Westerns estrelando o ator), com a maior parte do cerne do filme sendo focado no drama dos personagens recheado de um bom humor e surpreendente pureza, mesmo no meio de toda a aura potencialmente depressiva presente no arco do personagem de Wayne, e deixando os tiroteios e violência sendo guardados para os momentos chaves do desenvolvimento da história.

“Sabe, Books, eu não sou um homem especialmente valente. Mas, se eu fosse você e tivesse vivido toda a minha vida do jeito que você viveu, eu não acho que a morte que acabei de descrever para você é a que eu escolheria!”

Mas é exatamente nesse teor metalinguístico que o roteiro do filme carrega em si, que se encontra o verdadeiro brilhantismo do filme de Siegel! A própria presença do sintoma de câncer assombrando o personagem de Wayne é a maior prova disso já que o ator sofria do mesmo na época do filme, sem deixar de mencionar claro a presença de um sempre ótimo James Stewart como um amigo de seu passado, que é uma alusão direta ao filme de John Ford O Homem que Matou o Facínora uma obra-prima onde se pode ver um icônico encontro entre os dois gigantes.

E para aqueles que já assistiram vários dos grandes filmes que Wayne interpretou esse imbatível personagem, bem humorado e rápido na pistola, pode ser posto aqui de fronte um verdadeiro drama melancólico que questiona abertamente o legado de seu heroísmo e decadência, e deveras altamente doloroso de acompanhar já que a empatia por seu personagem é, como sempre, simplesmente instantânea.

“Bond? Que belo nome para uma mulher!”

Mas como disse, não é um Western dramático totalmente depressivo, afinal é John Wayne que estamos falando aqui! A história sim carrega esse peso psicológico e físico, mas não é isenta  de humor e um sempre brilhante carisma do ator que não destoa em nada o tom do filme, e só o torna mais verdadeiro e especial! Claro, a presença de um jovem Ron Howard é um tanto ultra clichê e até um pouco distrativo, mas que funciona em seu teor no filme. Quem brilha de verdade é uma soberba Lauren Bacall como o suposto interesse amoroso do protagonista, e a atriz consegue carregar uma carga emocional e criar uma dualidade dramática com o personagem de Wayne tão pura e verdadeira capaz de emocionar aos corações mais duros.

E principalmente esse filme que consegue com certeza atingir aqueles que admiram e acompanham o gênero Western desde seus áureos tempos clássicos e desfrutou da presença de incontáveis clássicos com a presença icônica do herói de John Wayne, e consegue ter aqui uma despedida tão honrada e emocionante a esse herói. Com o sempre subestimado Don Siegel realizando não só um de seus filmes mais dramáticos, mas também uma verdadeira carta de amor para John Wayne e seu marco no gênero Faroeste e em todo o cinema!