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Comer Para Viver – O Final Explicado de O Poço

Spoilers de O Poço abaixo

O novo filme da Netflix, O Poço (Galder Gaztelu-Urrutia), se tornou uma das maiores surpresas da Netflix, isso pelo fato de ter ficado em primeiro lugar no ranking de produções mais assistidas do serviço de streaming no Brasil. O longa espanhol deu muito que falar entre o público e os fãs assíduos da plataforma justamente por trazer uma trama cheia de enigmas e com um final com várias interpretações possíveis.

O Poço é uma Prisão?

Quando Goreng (Ivan Massagué) surge no início do filme, em uma espécie de cela, muito se questiona onde ele está e que lugar é aquele. Logo descobrimos que se trata de uma espécie de prisão, mas não há muitos detalhes se é um sistema prisional mesmo, até porque o próprio protagonista foi parar ali a fim de ficar preso por seis meses.

Em toda a narrativa surgem personagens que também estão lá ou por cometerem crimes ou por outros motivos. O que chama a atenção é o fato do personagem Trimagasi (Zorion Eguileor) falar que cometeu um assassinato e por isso seria preso, mas em vez disso foi parar nessa outra espécie de prisão. Tal fato faz pensar que o poço em si não é uma prisão, mas uma espécie de castigo para que as pessoas fiquem lá e sofram todos os pecados inimagináveis, já que há a possibilidade de se viver sem comida ou de ser assassinado por um companheiro de cela ou até mesmo ser devorado vivo enquanto dorme.

Na realidade, tudo isso é uma grande metáfora sobre a expiação de seus crimes e pecados praticados em vida. O protagonista é uma pessoa humana, com intelecto já que lê Don Quixote (Miguel de Cervantes), mas mesmo assim acontece dele acabar caindo naquilo que ele mais abominava que era o fato de praticar violência gratuita e até mesmo comer carne humana para ter de sobreviver.

Uma coisa interessante a ser analisada em O Poço diz respeito a questão social que o filme apresenta, pois fica claro que assuntos como egoísmo e até mesmo a questão da fome são temas recorrentes na produção. O sistema da suposta prisão é cruel, com as pessoas de cima comendo bem, e as que estão embaixo não. Essa é outra grande metáfora que reflete a pirâmide social da sociedade, em que os ricos têm muito e os pobres tão pouco.

Há também uma discussão a respeito do consumismo, em que os mais poderosos – no caso os que estão em cima – tem mais e compartilham menos, enquanto os que estão embaixo tem pouco, mas quando ascendem socialmente tratam as minorias da mesma forma que foram tratados antes pelos que tinham mais.

A Criança é a Mensagem

Quase sempre a personagem Miharu (Alexandra Masangkay) era vista descendo junto com a plataforma para procurar a sua filha, que segundo ela estaria perdida no local. Goreng viu as mais diversas atitudes inumanas naquele local, todo o tipo de crueldade possível. Eis que quando chega ao último andar e encontra a garota acaba por ter um gesto de solidariedade ao dar para a menina a panna cotta e assim acabar com o símbolo que seria entregue de volta.

O fato de o protagonista ter que descer todos os andares é como se estivesse vivenciando os piores acontecimentos existentes em uma sociedade e isso acaba por dar um sentimento de esperança para o personagem, já que ele havia frequentado todas as fases daquele lugar, e assim criado maior compaixão com o próximo, no caso a garota.

O Final

Quando Goreng e Baharat (Emilio Buale) estão descendo ao fundo do poço e após encontrarem a criança perdida, há muitas análises a serem feitas quanto ao final do filme, já que muitas coisas podem ser imaginadas, levando em conta que o diretor Galder Gaztelu-Urrutia quis deixar o final aberto a fim de que o longa tivesse várias interpretações.

Como Goreng imaginava havia um final no fundo do poço, e ele era escuro, sem vida ou sem a presença de ninguém. A grande dúvida é que lugar é aquele em que Goreng foi parar no fim. Há vários jeitos de ler a cena final, em que Goreng encontra o seu primeiro colega de cela, Trimagasi. Em grande parte do filme Goreng vivia o encontrando, não na realidade, mas como forma de ilusão, era algo que vinha de sua cabeça imaginar o velho que foi o primeiro a lhe dar informações sobre o local em que estava. Essa criação inicial de elo entre os dois é algo que o protagonista leva até o final.

Uma primeira análise diz que Goreng, ao chegar ao fim do poço, já estava morto e até por isso encontra o seu amigo e vai em direção a escuridão, ou vai descansar já que cumpriu sua missão de encontrar a criança. Outra possibilidade é a de que Goreng continuou vivo, vivendo lá embaixo, ou esperando chegar no próximo dia que a plataforma chegasse para tentar subir, isso não fica muito claro, mas é uma possibilidade que pode ser debatida. Uma terceira alternativa diz respeito que Goreng cansou de lutar contra o sistema, até porque o personagem entrou ali sem uma missão específica, e após ver tanta desumanidade se revoltou e resolveu lutar contra o sistema, e ele mesmo se tornou uma pessoa desumana, comendo carne humana e matando, algo que vai contra a sua índole, até por isso seria um grande motivo para Goreng abandonar tudo e ficar ali, e provavelmente morrer naquele local em que tantas maldades foram feitas.

Há outra interpretação sobre os fatos, e diz respeito a panna cotta com que Goreng desceu pela plataforma com o intuito de levar de volta. O doce é um símbolo de esperança, e aquela garota que a come não existiria, e sim seria um fruto da imaginação de Goreng, isso tendo em vista que o personagem já tinha um histórico de imaginar as coisas enquanto esteve preso no poço. Uma questão bastante pertinente, já que a menina está toda limpa, com boa aparência e parece estar bem alimentada, isso estando no último andar. Fora o fato de que menores de 16 anos não podem entrar no local, e que a mãe da menina descia todos os dias e nunca a encontrava. Esta interpretação leva em conta que se a garota não existiu, logo ninguém comeu a sobremesa, sendo assim, ela subiu com a plataforma até o andar 0, e aí dá para se entender a cena em que o chefe está brigando com seus funcionários pelo simples fato de ter encontrado um fio de cabelo nela, ou seja, os que mandam no sistema entendem que ninguém comeu a panna cotta porque havia um fio de cabelo nela e por isso não irão se importar com todo o trabalho que Goreng teve para mostrar que o egoísmo das pessoas havia sido vencido. O sistema sempre vence.

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Publicado por Gabriel Danius

Jornalista e cinéfilo de carteirinha amo nas horas vagas ler, jogar e assistir a jogos de futebol. Amo filmes que acrescentem algo de relevante e tragam uma mensagem interessante.

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