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Se há uma coisa que os estúdios Walt Disney sabem fazer de melhor é realmente se comprometer àquilo que prometem. E eles não apenas conseguem se sobressair a cada produto entregue a uma crescente legião de fãs, mas também permite-se trazer inúmeras referências histórias e clássicas para as telonas de um jeito lúdico, interessante e emocionante, sempre trazendo toques próprios como as músicas, os trejeitos cênicos e o modo único de lapidar as técnicas de animação que se já são naturalmente associadas à companhia. E, bom, desde o lançamento de Branca de Neve e os Sete Anões, o time criativo desse macrocosmos imperial vem tentando se render a novos jeitos narrativos – e é de forma interessante que conseguem chegar ao sutilmente belo A Dama e o Vagabundo.

A história é tão simples quanto parece e já pelo escopo nos traz inúmeras referências que posteriormente seriam utilizadas pelo gênero dos romances contemporâneos e comédias românticas – e ainda que emerja como algo essencialmente original, levando em conta que os personagens principais são cães, o longa também traz sua carga mimética ao inclinar-se para as peças trágicas de William Shakespeare, incluindo Sonho de uma Noite de Verão e Romeu e Julieta. Porém, em se tratando de um produto voltado para o público infantil, temas como sacrifício, descobrimento sexual e independências são tratados com mais cautela.

O brevíssimo prólogo já entra nos moldes de uma ode a todos os animaizinhos de estimação, sejam eles de puro-sangue ou vira-latas; afinal, como dizia o ditado, “o cão é o melhor amigo do homem” – e basicamente é isso que veremos aqui, porém de uma perspectiva original e que conversa com os ideais antropomórficos defendidos por Disney. E, bom, se em Cinderela tivemos a ilustre presença dos hilários ratinhos costureiros, aqui esse resquício de protagonismo permite que os personagens elevem-se a um nível de complexidade muito maior, a começar pela personalidade mimada e inocente de Lady/Dama (Barbara Luddy), uma cocker spaniel que chega para alegrar a casa dos Darling (na verdade, os dois humanos se tratam por apelidos como “querido” e “querida”, e é por isso que Lady os chama assim).

É quase impossível não se apaixonar pela primeira aparição da pequena cadela. Ela é um filhote e, assim como os bebês humanos, ainda está se adaptando à nova realidade, andando de modo desengonçado, esbarrando nos móveis da casa e recheada por um sentimento de carência e necessidade de carinho que nos é comum – e nos parte o coração ver que ela deveria ter sido obrigada a dormir em uma pequena cama na cozinha. Entretanto, seus donos permitem que ela durma “apenas por uma noite” junto a eles – e é aí que percebemos a capacidade de persuasão de Lady à medida que o tempo passa e ela cresce, passando todos os dias ao lado de seus humanos.

Essa zona de conforto é amplamente explorada pelo trio de diretores formado por Clyde Geronimi, Wilfred Jackson e Hamilton Luske, não se restringindo apenas ao cosmos da gigantesca casa, mas abrindo o leque para os quarteirões vizinhos e nos apresentando a outros personagens de extrema importância para a maturidade da nossa heroína, incluindo o adorável escocês Jock (Bill Thompson), um dos guias espirituais e conselheiros de Lady que, junto ao “veterano de guerra” Trusty (Bill Baucom), tentam mantê-la a salvo de um mundo exterior perigoso, além de coagi-la inconscientemente a permanecer lado a lado de seus donos não importa o que aconteça – premeditando uma possível falta de atenção que irá receber ao longo da história.

Em paralelo a isso, temos o arco de Tramp/Vagabundo (Larry Roberts), sem dúvida uma personalidade mais rebelde que traz uma construção pautada nas vivências traumáticas de um passado que não voltará a existir. Ele vive por si só, ainda que tenha consigo alguns companheiros inseparáveis, e funciona como o “malandro” dos becos da cidade, sendo gentil e irreverente com todos ao mesmo tempo em que carrega uma aura protetora e heroica que o permite cruzar caminhos com Lady, a qual se torna seu par romântico. Esses dois alelos paradoxais eventualmente criam um laço de confiança que fornece novas perspectivas tanto para um lado quanto para o outro, e permite que o cosmos do filme se amplie ainda mais e nos entregue uma das cenas mais emocionantes do panteão animado: a sequência do jantar entre a Dama e o Vagabundo, respaldado pela música A Beautiful Night/La Bella Notte e que tanto inspirou obras futuras.

Pensando nesse pano de fundo relativamente “clichê”, o time criativo sem sombra de dúvida conseguiu elevar as expectativas – e não consigo compreender a quantidade de críticas negativas que o longa recebeu à época de seu lançamento. Além da narrativa convincente, as técnicas fílmicas são empregadas com uma finalidade única e que seria posteriormente utilizada por cineastas como o lendário Steven Spielberg em E.T. – O Extraterrestre: a mudança da linha do horizonte. Primeiro, as feições dos personagens humanos são quase inexistentes e, se aparecem, são em momentos pontuais, normalmente marcados por um blur proposital que nos afasta do convencionalismo e nos aproxima das delineações antropomórficas dos animais. Segundo, a câmera permanece em um prospecto mais baixo, mantendo-se na linha do olhar dos personagens caninos, o que também reforça essa empatia animalesca.

Em suma, A Dama e o Vagabundo tornou-se um filme subestimadíssimo por razões que simplesmente não existem; afinal, o público não apenas é apresentado e uma doce e envolvente história de amor, mas também lida com referências passadas e futuras atemporais que o transmutam em uma apagada obra-prima que só seria redescoberta anos depois de seu lançamento.

A Dama e o Vagabundo (Lady and the Tramp, EUA – 1955)

Direção: Clyde Geronimi, Wilfred Jackson, Hamilton Luske
Roteiro: Erdman Penner, Joe Rinaldi, Ralph Wright, Don DaGradi, baseado na história de Ward Greene
Elenco: Peggy Lee, Larry Roberts, Bill Baucom, Verna Felton, George Givot, Stan Freberg, Lee Millar, Barbara Luddy, Bill Thompson, Dal McKennon, Alan Reed, The Mellomen
Gênero: Animação
Duração: 76 min

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