Franquias cinematográficas fazem parte de um círculo perigoso e muitas vezes vicioso, principalmente quando pensamos na originalidade da trama. Enquanto a primeira iteração normalmente emerge como uma perspectiva original e carregada de elementos contraditórios que a perscrutam com complexidade, divertimento e satisfação, as seguintes acabam perdendo um pouco do brilho e caem nas ruínas do esquecimento, rotuladas como “filmes genéricos” e com uma grande perda de potencial. Infelizmente, este é o caso de A Múmia: Tumba do Imperador Dragão, longa-metragem que traz um fim para as aventuras de Rick e Evelyn O’Connell.

A história é ambientada no período pós II Guerra Mundial, mais de vinte anos após os acontecimentos de O Retorno da Múmia (2001). Já aposentados, o casal protagonista tenta encontrar algum significado para suas próprias vidas, longe das areias dos desertos e com uma reputação que os acompanha até os dias atuais sobre seus trabalhos realizados para conter as ameaças de forças sobrenaturais e sobre suas capacidades investigativas. E depois da comum sequência introdutória – da qual falarei nos próximos parágrafos -, nos deparamos com uma das grandes mudanças da trilogia: a substituição de Rachel Weisz por Maria Bello como intérprete de Evy (parece que Weisz percebeu a decadência da franquia em que estava e não renovou seu contrato, obrigando os estúdios Universal a correr para a contratação de outra). E já posso dizer que, como era de se esperar, a mudança repentina trouxe certas reações quanto à química do casal principal.

Enquanto os dois lutam contra a monotonia de uma vida londrina, seja atirando em peixes para o jantar ou criando cenas de luta para um romance histórico, Alex (agora interpretado por Luke Ford) está na longínqua China da década e 1950, seguindo os passos dos pais ao abandonar a faculdade e mergulhar no descobrimento de um antigo santuário milenar que permaneceu escondido por séculos até ser encontrado. A partir daqui, fica fácil entender o desenrolar da história – cuja “nova perspectiva” é tamanha, que podemos prever o conteúdo de cada ato até o desfecho mais improvável e clichê que podemos pensar.

Primeiramente, vamos analisar o prólogo: seguindo o padrão estético e identitário de seus predecessores, Tumba do Imperador Dragão se inicia com uma narração sobre a vida de um dos líderes mais tiranos da história – o Imperador Han (Jet Li). Através de uma impetuosidade inenarrável e uma constante busca pelo poder supremo e pela imortalidade, o governante chinês destruiu centenas de vilarejos e dizimou exércitos numerosos para endossar o nome de sua crueldade, atraindo olhares malignos e, como podemos prever, traidores dentro de seu próprio séquito. Após encontrar uma feiticeira chamada Zi Juan (Michelle Yeoh), a qual poderia lhe garantir a vida eterna, ele é amaldiçoado e é transformado numa estátua de barro, assim como todos os seus seguidores.

Não é preciso pensar duas vezes para descobrir como o poder maligno do imperador seria libertado: afinal, a família O’Connell parece estar conectada de modo quase inverossímil ao despertar de forças das trevas que têm como único objetivo a destruição de seus inimigos e a reafirmação da onipotência. Alex é o responsável, ainda que indiretamente, pela descoberta, mas é a combinação de vários acontecimentos envolvendo todos da família – incluindo o sempre bem-vindo escape cômico John Hannah como Jonathan Carnahan – que possibilita aos antagonistas da narrativa concretizarem seus planos.

É quase automático realizar uma comparação entre o terceiro filme da franquia e os dois anteriores. As coisas aqui são representadas através de um maniqueísmo utilitário e desnecessariamente pseudometafórico, pois, enquanto Imhotep (Arnold Vosloo) trazia consigo um arco histórico e uma delineação arquetípica que transcendia os conceitos do bem e do mal – ainda que fosse movido por um desejo corrompível -, Han é simplesmente fruto de um cansaço criativo por parte dos roteiristas Alfred Gough Miles Millar e não emerge como um personagem nem agradável nem odiável – mas simplesmente… Existente. A vingança de Imhotep era banhada por um passado de romance e traição que o levaram por um caminho obscuro e culminaram em sua condenação a um destino pior que a morte – a suspensão no purgatório. O Imperador é essencialmente mal, mas essa vertente de sua personalidade não é explorada com afinco e não permite a conexão entre o mundo criado e o espectador.

Brendan Fraser retorna como Rick em mais uma de suas encarnações cômicas. Entretanto, o que parece é que a altivez de outrora que acompanhava seu personagem através das aventuras e o permitia dosar de modo equilibrado a comédia e o drama deu lugar à letargia cênica. A química entre ele e Weisz era invejável e mostrava de forma mútua como o potencial de dois atores poderia ultrapassar os limites físicos de um longa-metragem e transbordar para os olhos fixos do público; mas com Bello, essa paixão é inexistente. Não o vemos como um casal, e sim como construções publicitárias que visam à venda de um filme já morto.

A própria arquitetação da família é falha; em outras palavras, Jonathan, Rick, Evy e Alex não estão na mesma sintonia narrativa e parecem presos a cada um de seus microcosmos, cada um lutando pela retificação da valores – retificação que não é explorada nem mesmo superficialmente pela história. Os conflitos internos de cada personagem, antes com valor agregador à narrativa, desapareceram para darem lugar às resoluções de roteiro do mundo blockbuster no qual a franquia infelizmente se afundou.

Não posso tirar mérito do design de produção, porém; apesar dos graves erros de CGI e dos efeitos especiais extremamente mal-utilizados e que trazem uma saturação desconfortável para a tela, a construção dos cenários é interessante e consegue trazer o melhor de dois mundos para uma mesma sequência. A atemporalidade é um elemento claramente visível quando temos, num mesmo frame, a presença da modernidade pós-Guerra chegando à China – revólveres, vestimentas, automóveis e até mesmo decorações de ano-novo – entrando em um choque agradável aos olhos com a medievalidade do governo imperial, com a arquitetura suntuosa e a crença constante no sobrenatural.

O terceiro e último filme da franquia A Múmia marca sua própria decadência, perceptível desde seu predecessor. Através de um roteiro muito fraco e sem identidade, baseando-se em elementos formulaicos da vertente narrativa das histórias de aventura, podemos ficar muito felizes – ou talvez não – de que um dos monstros mais icônicos a já permearem o imaginário das pessoas teve seu fim e encontrará um muito próximo reboot. Só não podemos deixar de ficar tristes pela jornada da família O’Connell ter entrado numa queda livre – e talvez isso seja o que nos doa mais.

A Múmia: Tumba do Imperador Dragão (The Mummy: Tomb of the Dragon Emperor, EUA – 2008)

Direção: Rob Cohen
Roteiro: Alfred Gough, Miles Millar
Elenco: Brendan Fraser, Maria Bello, John Hannah, Jet Li, Luke Ford, Michelle Yeoh, Isabella Leong
Gênero: Aventura
Duração: 116 min