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É curioso como o reconhecimento, em geral, pode muito bem não vir por mérito. Odeio afirmar essas coisas, mas depois de conferir A Tortura do Medo, último filme relevante da carreira do britânico Michael Powell, certamente temos o caso perfeito de um artista subestimado.

Desde 1940, Powell e seu companheiro de trabalho Emeric Pressburger, já desafiavam o que era o “normal” para narrativas clássicas de uma época na qual o Cinema estava em sua forma de controle mais rígida.

Seja com as freiras lutando contra a impotência divina e a repressão firme do desejo sexual em Narciso Negro, ou pelo protagonismo feminino em um embate romântico sobre trabalho e amor em Os Sapatinhos Vermelhos, Powell sempre apresentava avanços narrativos, além de uma estética realmente única que também visava explorar distintas dinâmicas de montagem e até mesmo de efeitos visuais.

Aqui, Powell cruzaria todos os limites de narrativa clássica para a época, já indicando a onda de experimentações que a década de 1960 veria por tantas “novas ondas” cinematográficas em diversos países.

Nesse ano em especial, tivemos um zeitgeist muito interessante, já que tanto Powell e Alfred Hitchcock trariam dois clássicos que marcaram a história do cinema. Porém, enquanto Hitchcock mostrava privadas, o grafismo da violência do assassinato e o transformista em Psicose, Powell ousaria ir um pouco mais além ao trazer a primeira história em que temos a figura do psicopata como protagonista. Sofrendo muito com o departamento de censura britânica em diversos cortes da obra original, é quase um milagre que A Tortura do Medo seja a obra-prima que é.

Simpatia pelo Mal

É preciso muita coragem para trazer um olhar simpático sobre o assassino, o psicopata, o doente, afinal no formato clássico de narrativas temos posições concretas de protagonismo e antagonismo. A partir do momento que o roteirista apoia a figura do vilão (na concepção moral e ética da nossa sociedade), temos a subversão completa da estrutura que o público já estava acostumado. Por conta desse detalhe que faz toda a diferença, é um fato que A Tortura do Medo seja um filme mais corajoso que Psicose, embora seja menos violento.

Com roteiro de Leo Marks, somos apresentados a vida solitária de Mark Lewis, um assistente de fotografia totalmente fissurado em filmar elementos amedrontadores. Entre dias singelos de filmagem no pequeno estúdio que trabalha ou fazendo bicos ao fotografar ensaios eróticos, Mark se dedica ao sádico projeto de filmar mulheres enquanto são assassinadas por ele próprio. Porém, sua solidão é logo quebrada quando a simpática Helen surge em sua vida, revelando traços mais humanos em sua fria personalidade.

Em primeiro momento, o que mais chama a atenção sobre a história, além de todo o teor erótico que quebra o moralismo britânico sobre pornografia, é o quão certeiro Marks é ao construir a figura do psicopata. Os estudos comportamentais sobre a mente psicopata só seriam iniciados a partir de 1970 como retratado também pelo ótimo seriado Mindhunter, porém o roteirista já oferecia uma roupagem muito realista para o transtorno do protagonista. As características praticamente trazem a receita de bolo dos comportamentos que esses indivíduos apresentam: um tipo de alvo predileto, no caso mulheres loiras, um modus operandi original para o assassinato, a coleta de souvenires para relembrar a excitação do ato de matar, o retorno do assassino no local do crime na hora da descoberta do corpo, na aproximação destemida com a força policial e, finalmente, a origem do despertar da doença: constantes abusos psicológicos durante a infância.

São tantos, mas tantos acertos para tornar o psicopata realista e, inclusive, atemporal, que chego a suspeitar que o próprio roteirista do filme tenha sido um serial killer.

Logo, a apresentação de todas essas características inéditas para a época torna a figura do psicopata extremamente bem construída, mas vai além ao apresentar esse possível núcleo romântico com Helen que mostra uma face humanizada para o monstro.

Além do intuito de mostrar os crimes a motivação dos assassinatos, é muito curioso que o roteirista se dedique a criar um microcosmo muito interessante envolvendo o sobrenatural com a mãe de Helen, uma mulher cega muito sensível às intenções verdadeiras de Mark, além da dinâmica muito interessante da metalinguagem das sequências envolvendo a filmagem no estúdio que Mark trabalha.

A nítida preocupação em estabelecer o personagem vem através do uso muito inteligente dos flashbacks que surgem de modo inusitado através da apresentação de filmetes mostrando as pequenas torturas que o pai praticava durante a infância do personagem. Desse modo, balanceando a vida profissional, a criminosa, seu passado perturbado e a prospecção de um futuro redentor com o descobrimento do afeto e amor pela primeira vez na vida, é possível sim sentir empatia por um personagem tão vil. Para isso, também colabora bastante o desempenho sólido do ator Karlheinz Böhm que consegue transmitir essa game de sentimentos conflituosos em uma performance minimalista.

Mestre da Encenação

Enquanto Hitchcock aprimorava ao ápice sua técnica de montagem e direção em Psicose, cravando de vez na História seu nome como mestre do suspense, é digno dizer que Michael Powell merece ser chamado de mestre da encenação com A Tortura do Medo. O diretor que sempre foi vanguardista atinge seu ápice com a experimentação vista em seu slasher.

Iniciando o longa colocando o olhar do espectador diretamente no olhar do assassino com câmera subjetiva em plano sequência, há um impacto inicial do assassinato de uma forma nunca vista antes. Esse efeito tão criativo que acabou até mesmo influenciando o começo de Um Tiro na Noite, clássico de Brian De Palma que adota a mesmíssima escolha estética nos minutos iniciais.

Passado isto, Powell sempre traz surpresas agradáveis na manga, mesmo que realize menos proezas com a mobilidade da câmera. O que mais fica evidente é o cuidado com os enquadramentos e a atmosfera das cenas que ocorrem na câmara escura de Mark e também dos assassinatos (com óbvio destaque pela sequência apaixonada da segunda morte que ocorre justamente no estúdio que o protagonista trabalha).

A criatividade não fica somente na apresentação indiscriminada do filme snuff, da câmera subjetiva e da estética sombria maligna quase expressionista dos aposentos de Mark, mas também pela apresentação do flashback em filmetes antigos (como mencionei acima), da trilha musical curiosamente relacionada ao estilo do Cinema Silencioso, além do uso sempre forte da iluminação da vibrante fotografia de Otto Heller que traz as cores saturadas Technicolor típicas dos longas de Powell.

Obviamente, há toda a relação voyeur do título original da obra. Mas o voyeurismo não vem do ato de bisbilhotar o erótico, afinal o olhar subjetivo da câmera nos assassinatos deixa claro a posição explícita do assassino. A tensão do observar está justamente quando Mark revisita as cenas do crime e registra a ação policial causada por ele. Powell constrói um bom suspense somente em uma das três vezes que Mark está espionando a polícia. De resto, não há uma tensão realmente elaborada, afinal o espectador acompanha o assassino. Somente no clímax, com a resolução absoluta da narrativa, que existe essa forte tensão, apesar de ser um desfecho um tanto desequilibrado e pouco condizente com o resto da obra.

Entre tantas novidades que Powell apresenta aqui, há até mesmo a inserção de um humor polêmico durante uma das cenas de metalinguagem, além de fazer uma brincadeira sempre interessante de filmar o objeto que filma o filme – algo parecido com a abertura de O Desprezo na qual Godard filma uma equipe de filmagem filmando e vindo em direção à câmera.

A Tortura do Esquecimento

Apesar de Michael Powell ser bastante comentado e reconhecido em círculos de cinéfilos e profissionais da área, é bastante perturbador que ninguém ao menos mencione A Tortura do Medo como um dos pilares dos filmes de terror modernos, além de toda a coragem ousada que o diretor apresentou nesta obra repleta de surpresas inventivas tanto em narrativa quanto na própria execução do filme. Com tantos louros merecidos para Psicose, certamente alguns deveriam ir para essa fantástica obra que é apenas torturada por estar na margem da História, pois sua qualidade é muito equivalente do outro clássico slasher de 1960.

A Tortura do Medo (Peeping Tom, Reino Unido – 1960)

Direção: Michael Powell
Roteiro: Leo Marks
Elenco: Karlheinz Böhm, Moira Shearer, Ana Massey, Maxine Audley, Pamela Green, Esmond Knight
Gênero: Terror, Suspense, Drama
Duração: 101 minutos

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