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Crítica | A Voz Suprema do Blues – O Agridoce Preço da Ambição

Adaptações de peças teatrais são difíceis de acertarem com precisão o dinamismo que vemos em palco: afinal, a estrutura em caixa, dominada pelos holofotes e pela interação imediata com o público tem um íntimo propósito de nos carregar durante duas ou até mais horas por uma narrativa imediatista, pungente e recheada de atuações on point que nos transportam das cadeiras da plateia à apresentação em si. Trabalhando ao lado da quarta parede e utilizando a plateia como um confessionário que não irá nos julgar, transpor isso para as telas do cinema, da televisão e dos serviços de streaming é um algo árduo e complexo de se fazer – mas uma esfera em particular parece estar dando bem certo: a coletânea de peças do renomado dramaturgo August Wilson.

Conhecido por sua verborragia incessante e crítica, as obras de Wilson utilizam elementos do cotidiano para se infiltrarem em questões existencialistas e metafísicas – como é o caso de Cercas. Quando Denzel Washington resolveu abraçar essa narrativa vencedora de inúmeros prêmios, ganhamos uma substituição metafórica para o título, Um Limite Entre Nós, garantindo uma aclamação quase imediata que, apesar dos claros deslizes, mostrou-se convincente e sólida o bastante, ainda mais com sua alegoria performática ao lado de Viola Davis (que levou o Oscar pela atuação no filme). Agora, Washington volta para detrás das câmeras como produtor de um dos longas-metragens mais aguardados do ano: A Voz Suprema do Blues.

Não apenas por seu elenco estelar e pelo resgate apaixonante da carreira de Wilson (mais uma vez), Washington uniu-se ao conhecido diretor teatral George C. Wolfe para fornecer uma perspectiva remasterizada da vida de Ma Rainey, apelidada carinhosa e merecidamente como a Mãe do Blues. Interpretada por Davis, a condução cinemática de um enredo conhecido se transformou em uma homenagem à própria artista e ao autor que a levou a priori para os palcos e em um dos melhores longas-metragens do ano. E, enquanto Davis a encarna com maestria, ela divide os holofotes com Chadwick Boseman em sua última performance antes do trágico falecimento – e o melhor personagem de sua carreira.

O filme abre com um arco claro da fama que Ma Rainey e sua banda conseguiu em um tempo rápido demais, migrando do sul da Geórgia e conquistando o mundo com sua ácida e única voz. Entretanto, a ideia da iteração não é apenas contar a biografia da cantora e compositora e de seu turbulento relacionamento com o estúdio responsável por suas músicas e com seus colegas de profissão. Pelo contrário: Wolfe restringe-se em um claustrofóbico e pessoal retrato de um momento em específico da carreira da banda, em que viajaram para Chicago em 1927 para finalmente levarem o inédito disco à comunidade do norte dos Estados Unidos. O resultado é exatamente o que esperamos: um poderoso drama com reviravoltas chocantes, guiado pela química explosiva e tensa entre seus protagonistas e coadjuvantes.

É quase redundante dizer que Davis faz seu próprio show como Ma Rainey e como uma das atrizes mais versáteis de sua geração. Depois de Dúvida, How To Get Away with Murder e o supracitado Um Limite Entre Nós, era difícil imaginar que a atriz se superaria sem tropeçar em certos obstáculos – mas ela nos prova errado: seu sucesso espetacular se dá por um apaixonante e intrínseco laço que cria com aquilo que lhe é dado. A protagonista é uma mulher negra impetuosa que é olhada com desdém pelos homens brancos que acompanharam-na durante a vida, pelo simples motivo de exigir respeito e exigir que seja tratada como merece. Afinal, o blues, assim como o jazz e o rap (décadas mais tarde, é claro), é pertencente à comunidade afrodescendente e serve como meio de encontrar voz em uma sociedade dividida e racista. Desde seu primeiro momento em cena, Ma Rainey reclama para si o centro dos holofotes – e para mais ninguém.

O mesmo pode ser dito de Boseman. Depois de seu sucesso em Pantera Negra e de roubar a cena em Destacamento Blood, o ator volta a encarnar uma construção totalmente diferente daquilo que estava acostumado e, nos últimos momentos de vida, também revela uma adaptação camaleônica invejável. Aqui, Bosemane encarna o jovem trompetista Levee, que parece não aceitar o sucesso de sua “chefe” e, desde o princípio, deseja deixar o grupo, fundar o próprio grupo e alcançar a fama e a glória a que acreditar estar destinado. Por mais jovem que os integrantes, ele entra em constante conflito com os outros músicos e com a Ma Rainey, não aceitando abaixar a cabeça e utilizando traumáticas experiências passadas para deixar sua marca no mundo. Não é surpresa que, quando ele se vê num literal beco sem saída, custe a perceber que alcançar seus sonhos sendo um homem negro em um mundo supremacista é bem mais difícil do que pensa.

Recheado de simbologias visuais que contribuem para a complexidade de cada um dos personagens, Wolfe é sagaz ao transformar os poucos cenários do longa-metragem em uma tradução mística da atmosfera que gradativamente insurge. As inflexões estonteantes de uma Chicago da década de 1920 entram em contraste com a mórbida sala de ensaios do estúdio de gravação e com a linearidade sóbria e altercada do salão principal. É dessa maneira que, aliado à potente fotografia de Tobias A. Schliessler, que recupera elementos de seu trabalho em Dreamgirls e em O Dia do Atentado, os movimentos de dilatação e contração transmutam o pequeno prédio em um labirinto de mentiras e de ressentimentos.

Abrindo espaço para críticas atemporais sobre gênero, raça e o poder da música, A Voz Suprema do Blues é uma das melhores entradas do catálogo da Netflix e uma obra-prima cinematográfica que ficará marcada na mente dos espectadores por anos e mais anos.

A Voz Suprema do Blues (Ma Rainey’s Black Bottom – EUA, 2020)

Direção: George C. Wolfe
Roteiro: Ruben Santiago-Hudson, baseado na peça de August Wilson
Elenco: Viola Davis, Chadwick Boseman, Glynn Turman, Colman Domingo, Michael Potts, Taylour Paige, Dusan Brown, Jonny Coyne, Jeremy Shamos
Duração: 94 min.

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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