nota-3

Quando anunciaram a participação de Motorista Fantasma em Agents of S.H.I.E.L.D. na Comic-Con deste ano, fiquei bem preocupado. Mesmo com uma evolução clara em cada temporada, a série criada por Joss Whedon possui um tom mais “amigável” se comparada, por exemplo, as produções originais da Netflix. Ou seja, a inclusão de um personagem com características violentas certamente acarretaria em mudanças para este ano. Bem, o resultado destas alterações já são perceptíveis aqui, porém há uma ligeira sensação de ainda não estar encaixada ao espírito da série.

Já nos minutos iniciais, o episódio apresenta uma competente cena de ação, dando um gostinho do Espírito de Vingança. Daisy Johnson, a ex-agente Skye, se encontra em mais uma noite como vigilante procurando por membros de gangues. Durante mais uma caçada, eis que é surpreendida com a presença de uma nova figura: em alta velocidade, um Dodge Charger modelo ’69 vem se aproximando dos criminosos atingindo-os em cheio. O carro que antes era apenas um mero modelo clássico, de repente resplandece com suas chamas em meio a avenida. Dentro dele, uma silhueta desconhecida surge deixando os bandidos sem escapatória. Um deles tenta fugir, porém perde sua vida no mesmo instante. Outro pede clemência, no entanto sangue é arrancado de seu corpo brutalmente, sendo espirrado ao rosto de seu colega. Este, por enquanto, possui sorte e é apenas levado preso no porta malas. Voltamos ao olhar de Quake, tentando distinguir o que acabara de ver em meio a tanto fogo.

Um início mais que agradável. O teor escuro da cena cria um destaque deslumbrando às chamas empolgando o expectador. O sangue apresentado de maneira explícita revela a pegada, o tom, que esta temporada propõe. No entanto, ao adentrarmos para o universo já estabelecido da série e seus personagens fixos, percebemos a desconexão a qual citei no início deste texto.

Veja bem, Agents of S.H.I.E.L.D. é uma série que expande o universo Marvel, servindo como um complemento ao que ocorre nos cinemas. Em meio a um filme ou outro, a série está lá tapando o buraco nos mantendo atualizados, mesmo que alguns acontecimentos sejam irrelevantes ao cinema. E seguindo o estilo Marvel de ser, o programa sempre adotou um lado mais científico em meio suas tramas. Porém, agora com a chegada do filme do Doutor Estranho, o programa aposta na propriedade mais mística do universo apresentando Motorista Fantasma.

Agente Coulson e Mack procuram por Daisy, mesmo proibidos pelo Diretor da Divisão.. Insistentes, recebem algumas dicas de Melinda May sobre seu paradeiro. Simmons descobre a situação; ela que lida com o Diretor de uma forma mais próxima, passando por detectores de mentira todos os dias, teme as consequências. Enquanto isso, Holden Radcliffe apresenta seu novo projeto, a androide AIDA, para o agente Leo Fitz, que após uma boa reflexão, é convencido a ajudar desenvolver melhor o robô.

O núcleo de Coulson encontra-se correto em sua proposta. A procura por Quake terá um ótimo resultado caso eles se encontrem, e procurem seguir os passos de Robbie Reyes juntos. Fora isso, há conflitos ainda a serem tratados que sobraram para esta temporada.

Agora, tratando-se de Fitz… Devo admitir, tenho problemas com o personagem. Não só com ele, mas a sua namoradinha Simmons também me faz perder uns fios de cabelo. As falas bobas de ambos, suas personalidades de adolescentes (junto a cara de 30 anos dos atores) rendem os piores momentos da série. Porém, isso aqui já é assunto para outra hora. Fitz e sua relação com Radciffe no aperfeiçoamento de AIDA, assemelha-se muito com a criação de Ava em Ex-Machina. Certamente um plot interessante, porém a impressão que fica é a de que logo seremos atacados pelo clichê do gênero. A máquina se rebelando a seu criador.

Ora, se a Marvel realmente quisesse trabalhar com o seu lado mais sombrio, seria preferível uma série solo de Robbie Reyes ou algum outro “Rider” – clamamos por uma nova versão Johnny Blaze. Uma produção com um roteiro focado em uma única proposta, sem perda de tempo (e paciência) com subtramas bobas e clichês seria o ideal. Ou seja, temos aqui um exemplo de intenção de lucro com uma marca estabelecida. E não aceito como desculpas que a ausência de um carinho maior ao personagem seja um teste para vê-lo como funciona meio a esse universo. Lembre-se que Demolidor e Justiceiro também tiveram um passado medonho, porém de maneira alguma isso impediu para que ambos personagens ganhassem uma excelentíssima nova roupagem.

Para encerrar, gostaria de elogiar os efeitos especiais incorporados ao Motorista Fantasma. Certamente não é o melhor trabalho de CGI disponível no mercado, mas fica longe de ser ruim. Comparado a outros personagens horrivelmente adaptados para a série, Motorista merece aplausos nos minutos em que é apresentado com clareza (mesmo que seja num duelo tão fraco com Quake). A tecnologia de motion capture é bem utilizada, deixando os movimentos do crânio fantasmagórico condizentes ao corpo de Gabriel Luna. E o visual de Robbie Reyes possui traços fieis aos quadrinhos. Ponto marcado!

No mais, reitero: Agents of S.H.I.E.L.D precisa definir seu tom. Apesar da aposta no esquema mais sombrio a princípio, torçamos para que seja bem explorado durante a temporada e que faça sentido, não sendo um mero fan service complementar ao cinema.

Escrito por Kevin Castro

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