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Crítica | American Gods – 01×03: Head Full of Snow

As histórias de Neil Gaiman podem, em sua grande maioria, serem consideradas como obras atemporais que aproximam cronologias diferentes em uma mesma linha narrativa, muitas vezes brincando com o próprio conceito de tempo ao unir diversas mitologias criadas ao longo dos anos em uma mesma ambiência. E com American Gods, a mais nova sensação da Starz, não poderia ser diferente.

Desde o episódio piloto, a série nos presenteou com pequenas obras-primas de uma hora cada, delineando seus personagens principais com a máxima cautela e arquitetando tramas paralelas que harmonizassem com sua identidade questionadora sem cair nos clichês da saturação e das resoluções ao acaso. Em apenas dois capítulos, o público já entendeu o que estará enfrentando durante várias semanas – e agora com o anúncio de renovação, por alguns anos: uma construção arquetípica de parábolas e mitos mundiais que convergem para metáforas contemporâneas e que provam, mais de uma vez, que são passíveis de compreensão psíquica e moral até hoje.

A sequência de abertura desta terceira iteração, intitulada Head Full of Snow, resgata sua linha narrativa na mitologia egípcia, discorrendo sobre os acontecimentos pós-morte de uma velha senhora que não percebe que passou do plano terrestre para o espiritual – uma jogada muito interessante que se relaciona com mitos sobre espíritos desgarrados que não encontraram a luz após a desencarnação. Aqui, a personagem recebe a visita de Anúbis (Chris Obi) para guiá-la até o julgamento final – pesar o coração e ver se ela é digna de seguir caminho até a vida eterna.

Apenas com estas pequenas ações, conseguimos extrair uma importante referência antropológica retirada da própria relação cultural que o povo estadunidense mantém e retifica: a falta de identidade e a constante busca por um equilíbrio cósmico. Se analisarmos de forma coercitiva, conseguimos traçar um paralelo entre as três sequências iniciais dos episódios transmitidos até o último domingo (14). Em The Bone Orchard, vemos uma caravana de conquistadores estrangeiros rogando por seu deus da guerra em busca de uma salvação e de um sinal que possa levá-los de volta para casa; em The Secret of Spoons, uma orgia imagética envolvendo um navio negreiro traça paralelos com a mitologia africana e o futuro que aguarda os escravos nas terras americanas; e agora, somos introduzidos sutilmente a uma das mitologias árabes mais relidas e readaptadas dos últimos tempos. O roteiro assinado por Bryan Fuller e Michael Green passa por uma atenção mais que especial para não deixar que a ideia principal se perca em meio a tantos personagens novos e diferentes.

É notável constatar que tanto a obra original quanto sua releitura para as telinhas é lapidada minuto após minuto para criar um universo no qual uma mitologia inexistente tenha seu protagonismo. Em determina cena, o Sr. Wednesday (interpretado pelo carismático Ian McShane) diz que o povo americano está em constante busca do que realmente é. Todos se veem perdidos e passam por efêmeros momentos de epifanias psicológicas – e tal frase relaciona-se com a mistura entre elementos próprios da cultura norte-americana com divindades como Anúbis, Afrodite, Anansi e Marte. O hibridismo talvez seja a palavra que mais caracterize o que todos estão buscando.

E aproveito para, neste momento, fazer uma menção especial sobre o tema de abertura. Através de uma montagem psicodélica que mistura cores em neon e que, por vezes, causam distúrbios beirando a epilepsia. A escolha não poderia ser mais perfeita, contribuindo para o endossamento de American Gods como uma obra audiovisual que veio para ficar: vemos figuras que se assemelham a monstros e divindades muito conhecidos – Medusa, Vishnu, Buda, Apolo, entre outros -, mas adornados com câmeras, drogas, armas, tecnologia, poderio militar e todos os fatores que façam menção aos Estados Unidos. Ao final da intro, vemos uma imponente águia estendendo suas asas sobre tudo a que fomos apresentados, como se as diferentes culturas espalhadas pelo mundo tivessem como principal objetivo construir um cenário favorável para ascensão de novos deuses.

O grande tema-base deste terceiro episódio, além da busca por uma “crença concreta”, é mostrar até que ponto somos levados para realmente acreditar em algo inexplicável. O embate entre ciência e fé sempre foi alvo de discussão dentro do meio artístico, servindo para a criação de histórias em que isso chega a níveis nunca pensados. Normalmente, isso é pautado no melodramático, mas nesta série tudo acontece com cuidado e com sutileza – chegando às vezes a incomodar pela despretensão narrativa. O ápice é atingido com uma cena entre Wednesday e Shadow (Ricky Whittle), durante a qual os dois planejam roubar um banco e discorrem acerca das coisas inexplicáveis – tanto que, através de um “efeito placebo”, o protagonista consegue mostrar seu poder nato de fazer nevar.

Sua grandiosidade por vezes é ofuscada por outras tramas paralelas que ainda não se fazem claras o suficiente para a compreensão da história geral. Diferentemente dos capítulos anteriores, Head Full of Snow é pincelado por uma sequência que toma grande parte do segundo ato e que não precisaria ser tão longa assim: seguindo os mesmos passos de Bilquis (Yetide Badaki), passamos a conhecer Salim (Omid Abtahi), um deus ainda desconhecido – e que pode ser a primeira representação da nova geração sobrenatural – e que, ao lado de um mortal, praticamente cria uma dança sexual de tirar o fôlego e que é tanto bela quanto sinistra.

Apesar de seu ritmo mais lento e um pouco monótono, o novo capítulo de American Gods mantém a atmosfera tensa e traz um gancho inesperado para os próximos acontecimentos. Definitivamente, a série se mostra muito superior a diversas produções semelhantes – e já pode ter um lugar reservado na memória dos espectadores.

American Gods –01×03: Head Full of Snow (Idem, 2017, Estados Unidos)

Criado por: Bryan Fuller, Michael Green
Baseado em: Deuses Americanos, de Neil Gaiman
Direção: David Slade
Roteiro: Bryan Fuller, Michael Green

Elenco: Ricky Whittle, Emily Browning, Ian McShane, Crispin Glover, Yetide Badaki, Pablo Schreiber, Kristin Chenoweth, Jonathan Tucker
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 60 min.

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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