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Em 2017, American Gods chocava a televisão contemporânea e insurgia como uma das melhores produções dos últimos anos. A série, baseada no romance Deuses Americanos, do memorável e icônico Neil Gaiman, oferecia uma perspectiva sem escrúpulos e praticamente livre de revestimentos fabulescos acerca da relação conturbada entre os homens e os seus ídolos religiosos – mas não da forma como podemos estar pensando: aqui, o embate entre deuses novos e antigos é bastante clara. Enquanto as clássicas divindades perecem às margens da civilização, construções artificiais e tão adoradas quanto as mitológicas futuras começam a dar as caras e a reger uma sociedade movida pelo consumo, pela rapidez e pela submissão à tecnologia – e não é nenhuma surpresa que o embate entre iconoclastia e iconofilia seja uma das bases para a construção narrativa.

De qualquer forma, o show encontrou uma aplaudível season finale em que Ostara (Kristin Chenoweth), também conhecida como Páscoa, se livrava das amarras católicas, libertando-se de sua versão mais comercial para recuperar a glória e o poder de uma perigosa deusa que não iria mais atender aos humanos sem ser louvada como antes. E além disso, Sr. Wednesday (Ian McShane) revelava ser Odin, o supremo deus nórdico da vida e da morte e um dos seres mais poderosos do universo. Tal qual é nossa surpresa quando ele resolve fazer bom uso de seus poderes para assustar e derrotar alguns de seus adversários, assustando-as de forma inesperada apenas para culminar na chegada de um aguardado segundo ano.

Quebrando a construção da iteração original, a série não se vale de um prólogo remoto para nos apresentar aos novos personagens, preferindo, desse modo, a trazer rostos conhecidos em uma narrativa mais coesa e palpável em detrimento de sua sobrenaturalidade. É com isso que Technical Boy (Bruce Langley) e Sr. World (Crispin Glover) se reúnem em uma espécie de quartel-general para vigiar Wednesday e sua equipe, tomando nota de cada um de seus passos para que sempre estejam à frente. Entretanto, é interessante ver que o time “vilanesco”, por assim dizer, ainda não está completo, visto que até mesmo o público sente falta da presença irreverente e apaixonante de Media (interpretada anteriormente por Gillian Anderson e agora substituída por Kahyun Kim).

Em uma cronologia paralela, Shadow Moon (Ricky Whittle) ainda luta para acreditar em como sua vida mudou de cabeça para baixo, à medida que acompanha seu “chefe”, que agora enxerga como o todo-poderoso Odin, e percebe que sua esposa, Laura (Emily Browning) está viva (ou algo assim). O trio, acompanhado pelo leprechaun Mad Sweeney (Pablo Schreiber) viaja para um lugar intitulado Casa na Pedra, cujo nome é emprestado ao capítulo, House on the Rock, uma espécie de parque de diversão construído por um homem nunca visto e que constante e magicamente continua se ampliando. O lugar pode até ter sua dose de entretenimento, com atrações conhecidas pelos meros mortais, mas também funciona como um portal e uma assembleia utilizados por deuses antigos para dialogarem sobre como deverão se manter vivos mesmo após terem caído no esquecimento.

É aqui que as múltiplas conexões religiosas retornam com bastante força, jogando fora a visão simplista e bastante refutável de que apenas uma divindade exista. Desde seu início, American Gods provou ser uma obra que jamais renegou a existências de diversas fés, utilizando a singularidade de cada uma para criar um cosmos nunca antes visto e que inclusive cutuca a presença efêmera e egocêntrica dos seres humanos, colocando-os em um patamar bastante inferior que não se compara à iminência de uma guerra entre criaturas poderosas que poderiam nos destruir em um piscar de olhos. E conforme os antigos se reúnem, eles abrem mão de sua onisciência para consultar o Oráculo – figura própria da mitologia greco-romana – e viajar para além da realidade que conhecemos como forma de impedir que seus inimigos descubram quais são seus planos para o contra-ataque.

É claro que, eventualmente, o show dá ares formulaicos demais até para o que se propõe a nos entregar. Em contraposição à crueza e à explicitação constante do ano predecessor, a segunda temporada começa de forma mais branda e acalmada, ousando um pouco menos do que poderíamos esperar. Porém, dizer que ele tornou-se banal ou perdeu o seu brilho é cair em um infeliz erro, tirando crédito de Michael Green e Bryan Fuller e desacreditando no incrível potencial que ela continua carregando. Afinal, todos sabemos que depois da tempestade, vem a calmaria – e considerando a épica conclusão da primeira iteração, era mais que óbvio uma desaceleração dos frenéticos acontecimentos para que um novo jogo se iniciasse (e é justamente isso o que está acontecendo).

Ainda que se mantenha em uma zona de conforto dramática, o episódio já coloca personagens interessantes que, por mais incrédulos que estejam sobre a batalha entre os deuses novos e antigos, deverão escolher o seu lado antes que o caos reine sobre a realidade que conhecemos. Mais uma vez, não podemos nos esquecer de que, apesar da condição divina, esses seres são tão humanos quanto nós, passíveis de falhas e de uma fragilidade angustiante que contribui para um cliffhanger de tirar o fôlego, não pensando duas vezes antes de realizar um chocante sacrifício.

American Gods está de volta e, ainda que tenha nos apresentado a um começo mais engessado e limitado, continua entregando algo aprazível e satisfatório. Claro, é preciso que o time criativo logo retorne ao dinamismo e ao frenesi narrativo que tanto nos envolveu no passado – e caso eles precisem de uma ajudinha, é sempre válido fazer uma rápida prece às divindades que conhecemos.

American Gods – 02×01: House on the Rock (Idem, 2019 – EUA)

Criado por: Bryan Fuller, Michael Green
Direção: Christopher J. Byrne
Roteiro: Bryan Fuller, Michael Green

Elenco: Ricky Whittle, Emily Browning, Ian McShane, Crispin Glover, Yetide Badaki, Pablo Schreiber, Orlando Jones, Bruce Langley, Omid Abtahi
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 60 min.

Confira AQUI nosso guia de episódios da temporada.

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