As coisas estão começando a esquentar em American Gods – e mesmo após dois capítulos relativamente mornos, isso pode não significar muito. É claro que, considerando que a série retornou após dois anos de hiato, era natural que o primeiro episódio da nova temporada rearranjasse o conturbado embate entre os deuses novos e antigos, procurando reafirmar o tom épico de sua narrativa atemporal – talvez essa seja a justificativa mais plausível para os inúmeros convencionalismos que ganharam forma no segundo ano -, mas agora os criadores Bryan Fuller e Michael Green parecem cansados demais para nos entregar uma história tão irreverente e tão chocante quando as que nos mostraram em 2017.

Veja, a série baseada no icônico e memorável romance de Neil Gaiman foi uma das surpresas dos últimos anos da televisão contemporânea por não se restringir às construções arquetípicas de produções do gênero e ousar dar um passo a mais na arte do storytelling. Unindo temas interessantes e pertinentes a um incrível elenco, essa ousadia era o que nos mantinha extremamente envolvidos e aumentou nossas expectativas para a próxima iteração – e o brilho em questão parece estar se desvanecendo a cada nova entrada. E não podemos deixar de esperar uma produção competente por parte da equipe criativa, ainda mais considerando que cada episódio entrega um soberbo cliffhanger para as próximas aventuras de Shadow Moon (Ricky Whittle) e Sr. Wednesday (Ian McShane).

Para aqueles que não se recordam, o capítulo anterior concluiu seu arco com um inesperado acidente de trem arquitetado por Wednesday/Odin, a priori indicando que este era o único jeito de salvar Shadow de sua tortura. Entretanto, não é exatamente isso o que acontece em Muninn, título dessa terceira parte: o poderoso deus, na verdade, deu uma mãozinha para que o protagonista se libertasse das amarras do Sr. World (Crispin Glover) e encontrasse seu próprio caminho para o campo de batalha para a continuidade do embate entre duas gerações poderosíssimas de divindades que continuam lutando pela supremacia do mundo – e, enquanto nosso herói sofre com as mazelas de seu cárcere e vaga sem rumo pelas estradas interioranas dos Estados Unidos, o roteiro também abre espaço para adicionar alguns elementos das mitologias grega e egípcia.

Aqui, temos o retorno de Sr. Íbis (Demore Barnes), cuja clara referência se respalda no deus egípcio Toth, responsável pelo tempo e pela sabedoria – não é à toa que trabalhe no plano terrestre em uma espécie de entomologia forense. Ele é o principal nome que mantém Laura (Emily Browning) “viva”, por assim dizer, e, após ter as partes de seu corpo reconstituídas, ela acaba viajando com Wednesday para uma firma de segurança para encontrar outra famosa criatura – Argus (Christian Lloyd), o titã de mil olhos que permanece em cima do muro e não sabe exatamente a qual lado jurar fidelidade eterna.

Argus representa a fusão do novo e do antigo, visto que sua concepção clássica retoma as lendas do império greco-romano; porém, ele também é dotado de uma roupagem bastante modernizada, tendo sido condecorado como a principal entidade por trás das câmeras de segurança, utilizando “o olho que tudo vê” para assegurar a pacificidade e a segurança dos meros mortais. E é claro, tê-lo como aliado poderia ser vantajoso – não é surpresa, pois, que os asseclas de World também trilhem seu caminho para encontrá-lo; mas Wednesday, em outra perspectiva, sabe que não se pode confiar em qualquer um, e é por isso que faz uma visita para matá-lo (ou mais especificamente, para que a força sobre-humana de Laura consiga libertá-lo de sua encarnação carnal e mandá-lo de volta para o plano espiritual).

Finalmente temos nosso primeiro relance de Media, aqui encarada como a Nova Media. E bom, é um fato dizer que um dos ápices da temporada original foi a múltipla interpretação de Gillian Anderson como memoráveis personagens da indústria do entretenimento – incluindo Lucy, de I Love Lucy, David Bowie e Marilyn Monroe. E após os eventos do primeiro season finale, Media acabou se escondendo em seu próprio cosmos para se fortalecer e voltar em uma forma mais rejuvenescida e contemporânea, afastando-se do classicismo do século XX com Kahyun Kim (que parece fazer referência às novas tecnologias que permeiam nossa sociedade). Todavia, a personagem não goza da mesma originalidade de outrora e se força através do episódio em sequências risíveis, para não dizer trágicas.

Fuller e Green parecem não saber exatamente de que forma seguir a história, abrindo espaço para tantas subtramas que elas acabam insurgindo como pontos narrativos desnecessários e confusos que em nada contribuem para o desenrolar do panorama principal. É compreensível que cada grupo de deuses se lance em uma epopeia para reunir aliados e seguidores como forma de preparação, mas mesmo os personagens mais beligerantes ficam apagados em meio a tantos acontecimentos breves, rápidos e jogados de qualquer forma dentro do escopo cênico – e ainda que essa ideia tenha funcionado perfeitamente no ano anterior, aqui já dá ares de saturação.

American Gods ainda não se reencontrou em sua completude, o que por um lado é infeliz e, por outro, entra como aviso para os criadores de que algo deve mudar e muito em breve. Afinal, renovar e reestruturar uma obra como esta pode não ser um trabalho muito fácil, mas sem dúvida trará resultados bastante interessantes para um futuro próximo.

American Gods – 02×03: Muninn (Idem, 2019 – EUA)

Criado por: Bryan Fuller, Michael Green
Direção: Deborah Chow
Roteiro: Heather Bellson

Elenco: Ricky Whittle, Emily Browning, Ian McShane, Crispin Glover, Yetide Badaki, Pablo Schreiber, Orlando Jones, Bruce Langley, Omid Abtahi, Demore Barnes, Christian Lloyd, Kahyun Kim
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 60 min.

Confira AQUI nosso guia de episódios da temporada.

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