American Gods, sem muitas dúvidas, teve um início bastante interessante com uma temporada de tirar o fôlego e cujas histórias se afastavam bruscamente dos dramas fantásticos que compunham o panorama da televisão contemporânea. A saga épica de Shadow Moon (Ricky Whittle) na batalha entre os deuses antigos e novos criou uma fusão de gêneros deliciosamente inesperada, buscando inspirações diversas para construir múltiplas parábolas contemporâneas mostrando de que forma as pessoas lidam com suas crenças e em que elas depositam sua cega confiança – e, nos dias de hoje, é bem fácil perceber que a devoção espiritual deu espaço para a insurgência de novas entidades cósmicas e mais palpáveis e influentes do que podemos imaginar (como a Mídia, a Tecnologia e o Conforto).

Com um impacto tão grande assim, era óbvio e até mesmo natural que os fãs do show trazido à vida por Bryan Fuller e Michael Green ficassem com as expectativas em um nível inenarrável para o retorno dos episódios e o início de um novo e épico ano. Porém, a segunda temporada da icônica série parecesse ter perdido um pouco de seu brilho, funcionando, através de tramas melodramáticas e quase novelescas – salvo exceções – como uma ramificação de tantos outros produtos audiovisuais conterrâneos. Claro, não podemos tirar certas conquistas aplaudíveis e sequências de tirar o fôlego que os showrunners e sua equipe criativa trouxeram-nos nesses primeiros capítulos, mas não podemos deixar de sentir um certo cansaço que não nos deixa tão animados para a próxima semana – não do jeito que costumávamos ficar.

Felizmente, a série retornou para sua “esquecida” glória com duas belas entradas que trazem diversos personagens em uma miscelânea narrativa inesperada e bem-vinda, recheada de críticas pesarosas que servem como reflexão para a hipócrita humanidade que habita os quatro cantos do planeta. Logo em The Greatest Story Ever Told, o próprio título preconiza o que espera o público: um prólogo bastante interessante que coloca em xeque duas gerações muito diferentes e dá margens para o nascimento palpável de Technical Boy (Bruce Langley) e sua iminente ruína e “aposentadoria” pelas mãos do cínico e mortal Sr. World (Crispin Glover).

Porém, apesar de a dupla ter o seu momento de foco, é um trio em especial que rouba a cena – trio este que já deu as caras algumas vezes no escopo da série, mas sempre acabou varrido para debaixo do tapete. Sr. Nancy, mais conhecido como a divindade Anansi (Orlando Jones), Bilquis (Yetide Badaqui) e Sr. Íbis (Demore Barnes), traçam diálogos ácidos e agonizantes sobre de que forma eles deixaram seus seguidores morrerem nas mãos de brancos, perecendo em um racismo estrutural que perdura até hoje e vem sido tecido desde muito antes da configuração moderna de sociedade que conhecemos. Aqui, a proposital falta de sutileza e o intimismo cênico reafirmado por uma construção imagética mais fechada e claustrofóbica é o que acaba por nos envolver, em detrimento de um dinamismo fabuloso.

Tal subtrama também ganha espaço no episódio seguinte, The Ways of the Dead, em que Shadow passa a ser assombrado pelo espírito de Will James (Warren Belle), um negro que foi assassinado por meio de enforcamento e tiros à queima-roupa, e teve seu corpo arrastado por milhas e mais milhas até se reduzir a uma poça de sangue. Ele é a representação da luta que o nosso protagonista deve enfrentar, incluindo a inescapável morte – não é à toa que fica repetindo a máxima “memento mori” (“lembre-se de que vai morrer”) diversas vezes até culminar em uma explicação cujas cartas serão exploradas nas próximas iterações. É através dessa conjuntura, perscrutada por flashbacks explicativos que remontam a um passado remoto, que Fuller e Green trazem o que Neil Gaiman contou com tanta destreza em seu romance, brincando com a ideia anacrônica de passado e presente convergidos para uma mesma realidade.

É claro que, além desses personagens, Sr. Wednesday (Ian McShane) também dá a sua costumeira entrega performática on point, mas não é, nem de longe, a persona que mais nos envolve nos novos capítulos. Ele ainda se joga numa missão interminável para recrutar aliados, agora voltando-se para a mitologia irlandesa, desejando reconstruir um poderoso objeto que pode destruir ou ao menos amedrontar seus inimigos. Laura (Emily Browning), por sua vez, desiste de participar dessa exaustiva competição e retorna para Mad Sweeney (Pablo Schreiber), fazendo-lhe companhia até que decidam o que fazer – e, ao que tudo indica, as coisas podem ficar um pouco mais apimentadas para os dois personagens que outrora se odiavam com tanta força.

Stacie Passon e Salli Richardson-Whitfield, duas veteranas da indústria televisiva, encabeçam as entradas em questão e trazem uma atmosfera renovada para a série, mergulhando com precisão no agridoce cosmos arquitetado pelo romancista. Diferente do amorfismo descontruído trazido pelos outros diretores, elas carregam consigo a plena noção de suas habilidades e transportam seus respectivos pontos de vista para o que desejam contar – seja um tour-de-force enigmático, seja uma história de amor e suspense com viradas incríveis que dão o tom para o que quer que seja que nos aguarde num futuro próximo.

American Gods deu um incrível salto nessas últimas duas semanas e reacendeu nossas expectativas para as próximas semanas. Em meio a uma compreensiva e convulsionante storyline, o dinamismo e o choque que tanto nos acompanharam na temporada anterior retorna com força – e esperamos que se mantenha até o season finale.

American Gods – 02×04: The Greatest Story Ever Told / 02×05: The Ways of the Dead (Idem, 2019 – EUA)

Criado por: Bryan Fuller, Michael Green
Direção: Salli Richardson-Whitfield, Stacie Passon
Roteiro: Rodney Barnes, Peter Calloway, Aditi Brennan Kapil

Elenco: Ricky Whittle, Emily Browning, Ian McShane, Crispin Glover, Yetide Badaki, Pablo Schreiber, Orlando Jones, Bruce Langley, Omid Abtahi, Demore Barnes, Christian Lloyd, Kahyun Kim
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 60 min.

Confira AQUI nosso guia de episódios da temporada.

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