Nesta semana, American Gods resolveu explorar um pouco mais a humanidade de seus personagens e a própria mitologia ao mudar o foco das atenções para uma das figuras mais controversas e poderosas que já nos apresentou: Sr. Wednesday, também conhecido como Grimnir ou Odin (interpretado pelo sempre carismático Ian McShane). Em Donar the Great, como ficou intitulado o sexto episódio da nova temporada, somos transportados para meados do século passado, mais precisamente para a insurgência das várias casas de cabaré dos subúrbios e das cidades grandes que procuravam oferecer um sedutor e divertido show para impedir que as pessoas cedessem às tentações de se matarem em meio a tantos problemas.

Como Neil Gaiman já nos explicou em seu romance, refletido por Michael Green e Bryan Fuller na adaptação seriada, os deuses antigos já não possuem mais tanta força quanto antes e, agora, são ameaçados pela expansão das novas divindades criadas pelos desejos supérfluos e momentâneos do próprio ser humano. Aqui, faço um parêntese para deixar bem claro que a História mais uma vez se repete: enquanto forças cósmicas de outrora subjugavam seus crentes com ameaças e com um poder inimaginável, os deuses modernos fazem a mesma coisa, porém com maior sutileza – se trazermos para nossa realidade, é muito fácil perceber de que forma nos tornamos complacentes com a escravidão promovida pela tecnologia e pelos aparatos midiáticos.

É nesse contexto que Odin, ganhando força como líder dos deuses clássicos, se lança numa jornada para resgatar seus tempos de glória, procurando jeitos de reconquistar fiéis – e que modo mais interessante e prático que criar uma casa noturna? Ora, o episódio já inicia com um belo prólogo em que o personagem de McShane se rende a um breve musical (vemos até algumas referências a Cabaret e a Chicago trazidas pela diretora Rachel Talalay), apenas refutando essa dançante e feliz atmosfera quando começa a conversar com seu filho, Donar (Derek Theler). Muitos fãs podem achar estranho e irreconhecível o nome, mas tenho certeza de que a maior parte do público o conhece por seu título mais consagrado: Thor, o Deus do Trovão.

Talalay, em conjunto com a roteirista Adria Lang, não apenas cria um filler muito bem estruturado, como também dá continuidade para a titânica guerra que se aproxima e responde algumas questões levantadas nos capítulos anteriores. Afinal, Odin agora está em busca de um anão-ferreiro que possa reconstruir sua famosa lança, canal principal dos poderes que carrega consigo. A principal pergunta é: como esse poderoso objeto conseguiu quebrar? Bom, a resposta é mais simples do que podemos imaginar. Ao que tudo indica, uma discussão nada amigável entre pai e filho resultou num momentâneo embate que não apenas destruiu o venábulo, mas também na morte de Donar, consequência de uma série de manipulações e mentiras arquitetadas por seu próprio pai.

A iteração também traz a presença de uma esquecida deusa romana, Columbia (Laura Bell Bundy), que entrou numa jornada sem rumo final após perder seu posto para uma reconstrução conhecida e eternizada pelos povos europeus – a figura da Liberdade, pertencente à história francesa e ao complexo e contraditório Destino Manifesto. Após cruzar caminho com Odin, ela se apaixonou por Donar e ambos passaram a viver dentro do cabaré até resolverem fugir juntos para a Califórnia, vivendo o resto de seus dias até partirem deste plano para o espiritual como meros mortais. O problema é que, para proteger seu filho, Grimnir se juntou a Technical Boy (Bruce Langley), ainda nos primeiros de vida, e prometeu a ela o renome que perdera há muito tempo.

A breve e notória conversa entre o trio, na verdade, revela algo que sempre se mostrou intrínseco a todo e qualquer deus: a necessidade da luta. Afinal, Columbia era vista como a principal divindade da guerra ao lado de Marte, provocando-nos uma necessária análise de que, para haver liberdade, sangue deve ser derramado – ainda mais pensando nas concepções antigas da sociedade greco-romana. E bom, mesmo séculos depois de uma palpável evolução, cá estamos: na iminência de mais uma batalha que deve resultar na morte de diversos inocentes, sejam eles deuses ou mortais. A partir disso, Columbia começa a questionar se deve fugir mesmo para Califórnia ou pensar apenas em si e, acreditando piamente que seu amante a deixou para recuperar sua imortalidade, ela parte em sua própria jornada.

Esta é a primeira vez em que Odin demonstra qualquer sinal de arrependimento. Afinal, ele se sente culpado pelo filho ter se matado e, sem quaisquer seguidores para honrar sua imagem, jamais retornou para a companhia do pai. Humanizá-lo para além do que poderíamos esperar foi uma jogada ousada e que funcionou dentro de um panorama geral. Eventualmente, a trama presente perde um pouco de seu brilho por ser fragmentada demais em comparação com os flashbacks, faltando-lhe uma consistência mais sólida – que é varrida para debaixo do tapete para alguns ápices de humor e irreverência.

American Gods continua arriscando e, seguindo os desejos de seus personagens, também retorna ao seu esplendor. Agora, o próximo obstáculo a ser enfrentado pelo time criativo é descobrir um jeito de terminar a história da segunda temporada sem fazer uso de conclusões frenéticas. Afinal, estamos a um episódio da season finale. E as coisas estão começando a ficar muito boas.

American Gods – 02×06: Donar the Great (Idem, 2019 – EUA)

Criado por: Bryan Fuller, Michael Green
Direção: Rachel Talalay
Roteiro: Adria Lang

Elenco: Ricky Whittle, Emily Browning, Ian McShane, Crispin Glover, Yetide Badaki, Pablo Schreiber, Orlando Jones, Bruce Langley, Omid Abtahi, Demore Barnes, Christian Lloyd, Kahyun Kim, Laura Bell Bundy, Derek Theler
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 60 min.

Confira AQUI nosso guia de episódios da temporada.

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