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Na semana passada, American Gods resolveu nos apresentar a uma nova perspectiva acerca da maniqueísta construção de Odin (Ian McShane), voltando algumas décadas no passado para explicar sua complicada situação com o filho. Agora, seguindo uma linha similar, a série arquitetada por Michael Green e Bryan Fuller nos entregou mais algumas revelações interessantes e um episódio extremamente imersivo e chocante que aproveita para colocar o público na última trilha para o aguardado season finale – no qual esperamos ver uma batalha épica entre os múltiplos deuses que lutam para sobreviver no nosso mundo. O interessante aqui é que, um pouco diferente da iteração predecessora, a trama principal também ganha um impulso e serve como reflexo de um remoto e bárbaro passado que também abre espaço para retomar a glória própria do romance de Neil Gaiman.

É justamente por isso que a narrativa resolve focar em uma das mais perturbadas criações desse fantástico universo. Mad Sweeney (Pablo Schreiber). Desde sua primeira aparição na temporada anterior, sabíamos que o renegado e centenário leprechaun era muito mais que apenas uma geniosa personalidade pronta para estraçalhar quem ousasse se colocar em seu caminho. Ao longo da jornada que até então nos foi apresentada, a história até mesmo abriu uma brecha para começarmos a criar laços com tal persona, ainda que não de forma tão forte quando em relação a outros. Talvez seja por essa razão que Tresure of the Sun resolva trazê-lo de volta para os holofotes – para explorar outras camadas de sua psique e, numa investida arriscá-la, dar-lhe uma catártica conclusão.

Para aqueles que não se recordam, Sweeney já teve sua backstory brevemente explorada na primeira iteração, mais precisamente no episódio A Prayer for Mad Sweeney, no qual o personagem de Schreiber cruzava caminhos com uma versão escocesa-vitoriana de Laura (Emily Browning). Ainda que tivesse vasculhado algumas vertentes da mitologia nórdica, não foi até agora que descobrimos que Sweeney, na verdade, está na Terra há muito mais tempo do que acreditávamos, tendo sido coroado rei de sua província séculos atrás. Ele, na verdade, era um guerreiro, uma espécie de deus onisciente e onipresente que tudo controlava e que tudo fazia para auxiliar o seu povo – claro, representado em sua forma humana. E, caminhando para um twist muito bem-vindo, cedeu às superstições e abandonou sua família para se salvar.

Apesar dos tropeços iniciais do novo ano, American Gods conseguiu recuperar seu ritmo e o brilho de originalidade que carregava consigo desde sua gestação. As múltiplas críticas à cega fé dos seres humanos eram os motes principais que uniam as divindades em um único lugar e que, eventualmente, contribuíam para que todas coexistissem no plano terreno. A ironia e o sarcasmo felizmente retornaram com força, porém embebidos num pano de fundo épico, quase beirando o melodramático se não fosse pela belíssima construção cênica do veterano Paco Cabezas.

Sweeney se vê em meio a uma guerra santa, lutando contra os católicos e defendendo a sua religião até receber o triste e melódico chamado das banshee, criaturas agourentas que prenunciam a morte. Nesse momento, ele abandona sua coragem e se esconde detrás de uma covarde vulnerabilidade que o leva a abandonar o campo de batalha, perder seu reino, suas posses, e refugiar-se em uma choupana de palha fadado ao esquecimento e à loucura iminente. Percebe-se também o porquê do guerreiro ter ganhado a pejorativa alcunha – devido a uma maldição que o acompanha até os dias de hoje e que o coloca num ciclo inquebrantável de compulsoriedade. E sua má sorte, algo ironicamente satisfatório considerando que ele é a representação da boa sorte, torna-se intrínseco à sua jornada e, por mais que não queiramos aceitar, preconiza sua morte.

Sim, Mad Sweeney nos dá adeus da forma mais inesperada possível. Após cair em si e perceber que a manipulação de Odin vem desde muito tempo – Wednesday, aliás, insurgiu como uma espécie de pai para ele até morrer nas mãos do filho e ter sido responsável por seu enlouquecimento. Ele, pois, desiste de seguir suas ordens e cancela o acordo prescrito há tantos anos, revoltando-se contra a luta dos deuses antigos para se manterem no poder e subjugarem os novos. Sweeney inclusive enfrenta Shadow (Ricky Whittle) e destrói a única arma que garantiria a vitória de Grimnir contra o Sr. World (Crispin Glover), a lança conhecida como Gungnir, que há algum tempo vem sido restaurada.

Treasure of the Sun é a melhor entrada da segunda temporada e, seguindo os passos do capítulo anterior, marca um retorno definitivo ao que permitiu nos apaixonarmos por essa epopeica aventura contemporânea. E, ainda que possamos encará-lo como mais um filler, é inegável dizer que a correspondência passado-presente forneceu continuidade à atmosfera beligerante e nos preparou como pôde para o aguardado season finale.

American Gods – 02×07: Treasure of the Sun (Idem, 2019 – EUA)

Criado por: Bryan Fuller, Michael Green
Direção: Paco Cabezas
Roteiro: Heather Bellson

Elenco: Ricky Whittle, Emily Browning, Ian McShane, Crispin Glover, Yetide Badaki, Pablo Schreiber, Orlando Jones, Bruce Langley, Omid Abtahi, Demore Barnes, Christian Lloyd, Kahyun Kim, Laura Bell Bundy, Derek Theler
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 60 min.

Confira AQUI nosso guia de episódios da temporada.

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