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E enfim American Gods chegou a mais um season finale!

Depois de uma conturbada e um tanto quanto irregular temporada – talvez até um pouco mais perceptível que a anterior -, a série criada por Michael Green e Bryan Fuller reencontrou-se com alguns capítulos finais bastante interessantes, fazendo um bom uso de narrativas multi-temporais que ofereceram algumas respostas para uma obra tão complexa quanto esta, incluindo revelações sobre personagens como Sr. Wednesday (Ian McShane) e Mad Sweeney (Pablo Schreiber). Agora, tudo culmina em mais uma batalha envolvendo os deuses antigos e novos e, ainda que tenha perdido um pouco do brilho que trouxe nas iterações predecessoras, o episódio final do segundo ano traz um cliffhanger considerável que inclusive já dá o tom das tramas a ganharem forma daqui um tempo.

O primeiro ponto a analisar aqui é de que forma Odin prova ser um covarde, renegando seus aspectos divinos e literalmente entrando em seu clássico carro e fugindo noite adentro, deixando seu pupilo Shadow (Ricky Whittle) e seus aliados para trás para enfrentar a fúria de deuses que os desejam mortos. Para aqueles que não se recordam, Gungnir, sua lança mágica abençoada por Yggdrasil, foi transformada em pó e levada deste plano para um cosmos espiritual e inalcançável antes do último suspiro de Sweeney. Não é surpresa que, observando que sua sorte deixou de existir em um estalar de dedos, ele tenha fugido – afinal, grande parte de nós teria feito a mesma coisa.

Porém, é estranho analisar que, no último episódio do primeiro ano, o deus nórdico mostrou todo o seu poder ao enfrentar de mãos vazias seus inimigos, inclusive forçando Ostara (Kristin Chenoweth) a retornar para seu glorioso patamar e subjugar as construções humanas que se transformaram em criaturas inigualáveis e perigosas. Ora, até mesmo Media (Gillian Anderson à época) sentiu seus nervos tremerem perante a força descomunal. Então não podemos deixar de nos perguntar porque Odin resolver fugir justamente agora? Talvez como modo de deixar que Shadow trilhasse seu próprio caminho, lutasse com as próprias armas – mas ele já não o fez antes, quando foi brevemente capturado pelos asseclas do Sr. World (Crispin Glover)? É natural que essas perguntas insurjam nesses primeiros minutos – e estranhamente mais natural que existam mesmo com as resoluções premeditadas que o roteiro nos entrega.

A batalha aqui toma proporções catastróficas quando New Media (Kahyun Kim), conquistando finalmente seu espaço após ter sido ofuscada durante os oito blocos que compuseram a temporada em questão, utiliza suas habilidades manipuladoras para transformar Shadow e Wednesday em dois terroristas – e pior ainda: arrastar cada um de seus aliados para o fundo do poço, deturpando os acontecimentos reais em prol da mobilização forçada de uma sociedade movida pelo medo. Aliás, a primitiva sensação é explorada a fundo em cada um dos momentos, sendo trabalhada com força pela equipe criativa e recebendo múltiplas formas do começo ao fim.

Christopher J. Byrne, que fica a encargo da direção, arrisca alguns movimentos interessantes para tornar Moon Shadow, como ficou intitulada essa última aventura, diferente de seus predecessores. Os cortes bruscos, a convergência de cronologias diferentes e digressões cênicas que unem passado, presente e futuro em um único lugar funcionam dentro do panorama geral apresentado ao público, ainda que deixe de lado alguns arcos importantes – como por exemplo o de Laura (Emily Browning), que pressente uma importância que nunca se materializa, mas sim ganha um desfecho não tão satisfatório quanto esperávamos.

Inclusive, é quase imediato perceber a certa falta de cautela que o roteiro carrega consigo – não cautela no sentido de sutileza, e sim no tocante às lapidações de possíveis excessos. Com a chegada do terceiro ato e do principal clímax, que envolve todos os personagens até agora apresentados e uma ação de agentes da FBI que desejam prender Shadow e seus “comparsas”, os diálogos metafísicos e simbólicos parecem ceder a epifanias sem sentido e alegorias que poderiam ser melhor distribuídas ao longo até mesmo da temporada. Eventualmente, Shadow percebe de que forma poderá se salvar e salvar aos outros, enquanto é guiado por uma narração onisciente entre Ibis (Demore Barnes) e Anansi (Orlando Jones), cuja compreensão só se faz plausível após o frenesi imagético se acalmar.

Em outras palavras, há muito acontecendo, e pouco espaço para que tudo isso seja explorado de uma só vez. De qualquer forma, a coesão ainda existe e fala mais alto que os explícitos deslizes da season finale. De modo um pouco mais obscuro, o capítulo também ajuda a engatilhar a jornada-solo do protagonista em busca de seu verdadeiro eu e de seu propósito no mundo terreno. Afinal, como resgatado também durante um dos inúmeros flashbacks, Shadow nunca foi um garoto normal e traçou uma jornada epopeica bem inusitada, cruzando seu caminho com deuses e criaturas míticas para reencontrar seu objetivo. Mas que objetivo é esse?

É a partir daí que American Gods seguirá a sua linha narrativa. A luta entre os deuses antigos e novos continuará sendo essencial para o engessamento do pano de fundo, mas não pense que a carga dramática deixará de existir em detrimento do épico. Neil Gaiman, em seu romance-base, já nos mostrou que há muito mais entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia – e Shadow Moon finalmente se deu conta disso e está pronto (ou quase pronto) para enfrentar o que ousar se colocar em seu caminho.

American Gods – 02×08: Moon Shadow (Idem, 2019 – EUA)

Criado por: Bryan Fuller, Michael Green
Direção: Christopher J. Byrne
Roteiro: Aditi Brennan Kapil, Jim Danger Gray

Elenco: Ricky Whittle, Emily Browning, Ian McShane, Crispin Glover, Yetide Badaki, Pablo Schreiber, Orlando Jones, Bruce Langley, Omid Abtahi, Demore Barnes, Christian Lloyd, Kahyun Kim
Gênero: Drama, Fantasia
Duração: 60 min.

Confira AQUI nosso guia de episódios da temporada.

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