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Crítica | American Horror Story – 07×01: Election Night

Todo homem tem o seu monstro interior.

American Horror Story sempre foi conhecida por sua distorção do gênero do terror, reclinando-se para diversas vertentes narrativas como forma de criar um panteão sobrenatural, sanguinolento e sensual, perscrutado por personagens verossímeis, críveis e com arcos muito bem estruturados – na maioria da vezes. Desde sua estreia em 2011, Ryan Murphy, Brad Falchuk e todo o time criativo por trás da antologia forneceram suas próprias perspectivas para tramas já saturadas no cenário hollywoodiana, principalmente pelas inúmeras tentativas de remakes e releituras de clássicos do horror – e, apesar de alguns deslizes claros que começaram a ocorrer desde Coven, o show teve grande sucesso ao fornecer uma nova roupagem para tudo isso.

E agora estamos diante do que pode ser uma das temporadas mais intensas e insanas de toda a antologia. Seguindo o padrão identitário-narrativo de Roanoke, Cult nos traz ao limite da razão e da loucura já em seu primeiro episódio, intitulado Election Night. Lidamos com duas forças opostas aqui, uma representada pelos reacionários ideais encarnados por Kai Anderson (Evan Peters) e a outra pela moderna e flagelada Ally Mayfair-Richards (Sarah Paulson). O tema-base principal dessa nova iteração não poderia ser mais claro: o medo. Como gatilhos psicológicos podem se infiltrar na mente humana, obrigando-a a ver aquilo que não deseja e influenciando em todos ao seu redor – e tudo parte de um fator muito bem escolhido: as eleições presidenciais dos Estados Unidos de 2016.

Mais uma vez, AHS abandona sua afeição por tramas passadas para focar no presente, aproximando um crescente público da série da mensagem que quer transmitir. Ally é casada com Ivy (Alison Pill) e as duas já sofrem nos primeiros minutos de presidência de Donald Trump, imaginando um futuro desastroso para sua vida como casal lésbico e para todos aqueles que estavam sendo atacados pelos discursos preconceituosos do candidato – incluindo a comunidade LGBTQ, os imigrantes, os negros e as mulheres. Enquanto isso, a perspectiva fornecida por Peters é uma das mais irradiantes possível, roubando a cena no momento em que sua caracterização busca o extremismo – levando a atuação dele a um patamar inimaginável.

“A revolução começou”, ele declara, logo no início do ato inicial. Não entendemos exatamente o que ele quer dizer, mas suas ações no decorrer do episódio começam a esclarecer algumas dúvidas – e a levantar muitas outras: primeiramente, deve-se entender que Kai é o símbolo de toda o retrocesso social contra o qual a candidata democrata Hillary Clinton lutava, e o que pensa será, querendo ou não, dito para o mundo. O personagem tem uma visão sobre o medo e sobre o caos que ultrapassa as barreiras antropológicas e o transforma num arauto da decadência, buscando o terror infligido sobre outras pessoas para demonstrar superioridade, razão e sabedoria. Em determinada sequência, ele escolhe como alvo um grupo de mexicanos, realizando todo tipo de grosseria contra sua cultura para provar um ponto de vista que pode ser premeditado desde o princípio – e a ideia aqui é nos tirar do sério, sem sombra de dúvida.

Já se pode especular que Kai seja o líder ou um dos líderes do culto ao qual o subtítulo da temporada de refere. E, como todo grupo ideológico, temos uma identidade um tanto quanto amedrontadora que remonta às máscaras circenses dos teatros italianos do século XV – mas com um certo toque de terror. Buscando inspiração na franquia gore The Purge, os prováveis seguidores do personagem supracitado usam máscaras de palhaço e submetem-se aos atos mais obscenos para provar um ponto: como alguém pode ser levado à loucura de forma rápida e rasteira. O alvo, ao que tudo indica, é Ally, principalmente pelos resultados das eleições terem ativado um gatilho que há muito tentava esquecer – sua coulrofobia (medo de palhaços). O transtorno, ocorrido na maior parte das vezes em crianças, se mostra com grande intensidade na mulher, e Paulson aproveita para se entregar ao papel e realmente viver dentro de uma bolha de insegurança e perigo constantes.

A complexidade de Ally vai muito além desse medo. Realizando visitas frequentes ao terapeuta, Dr. Rudy Vincent (Cheyenne Jackson), ela tenta explicar o que está acontecendo sem parecer maluca. Afinal, além de seu medo por palhaços, sua mente começa a abrir margem para possíveis fobias que já se escondiam no subconsciente, incluindo uma irracional repulsa por buracos pequenos e padronizados (tripofobia) e seu terror pela simples ideia de ficar presa em espaços pequenos (claustrofobia). Diferentemente da temporada anterior, Cult não dosa e não prepara o espectador para todos os elementos que tem na manga, jogando-os de forma muito precisa com a intenção de chocar – afinal, o resultado das eleições trouxe momentos de catarse tanto negativa quanto positiva para os cidadãos estadunidenses.

O sobrenatural, marca registrada de Murphy em sua obra, vem no resgate de Twisty, o Palhaço (John Carroll Lynch) como maior easter egg da iteração. Ele é o responsável por atormentar a sanidade de Ally e causar alguns distúrbios em seu casamento com Ivy, além de recuperar um dos personagens mais desperdiçados em Freakshow. Não sabemos exatamente como ele será utilizado nos próximos capítulos, mas temos certeza de que sua presença virá acompanhada de muito sangue, mortes e agonia. A contrapartida do âmbito místico vem encarnada por Billie Lourd como Winter, irmã de Kai, que aparentemente vive um conflito próprio, desejando agradar ao seu semelhante ao mesmo tempo em que busca seu lugar na sociedade em que vive, mesmo que isso signifique ir contra seus princípios.

A montagem do primeiro episódio é algo a ser mencionado neste primeiro texto. Afinal, nota-se de forma bem clara que os maneirismos condescendentes das temporadas anteriores são varridas para debaixo do tapete sem abandonar a identidade imagética da antologia. Bradley Buecker deseja abraçar na completude total a metáfora para o confinamento e a pequenez do ser humano, idealizando composições cênicas que partem de uma perspectiva geral e canalizam, em último plano os personagens. Em uma das sequências mais dilacerantes, Ally está fazendo comprar no supermercado, e sua presença perde o foco quando a câmera transparece a imensidão dos corredores e das prateleiras em detrimento de seu protagonismo. Isso não ocorre só aqui, mas em diversos momentos nos quais a grandiosidade da atmosfera ultrapassa a necessidade do individualismo.

Combinado a uma paleta de cores pautada nas cores da bandeira dos Estados Unidos – azul, vermelho e branco -, Cult é certamente uma aposta ousada para a FX, principalmente por fornecer mais uma camada à antologia de terror que nos deixou sem dormir várias vezes. A crueza de acontecimentos – com ênfase em degolações e sexo em público – pode não agradar à prima vista parte da audiência, mas isso é só questão de costume e de acertar o tom da narrativa.

American Horror Story – 07×01: Election Night (Idem, 2017 – EUA)

Criado por: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Direção: Bradley Buecker
Roteiro: Brad Falchuk, Ryan Murphy
Elenco: Sarah Paulson, Evan Peters, Cheyenne Jackson, Billie Lourd, Alison Pill, Colton Haynes, Billy Eichner, Leslie Grossman, Adina Porter, Lena Dunham, Emma Roberts
Emissora: FX
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 45 minutos

Confira AQUI o nosso guia de episódios da temporada!

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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