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Crítica | American Horror Story – 07×04: 11/9

O quarto episódio de Cult é um filler interessantíssimo.

Ryan Murphy sempre teve uma mão incrível para criar histórias de terror e sexo que prendessem o público ao mesmo tempo em que servisse de base para reflexões humanistas e pessoais acerca de temas considerados tabus. Na sétima temporada, essa expressividade se desvincula dos pretextos metafóricos para fornecer uma nova simbologia, pautada no cru e no explícito – aproveitando a perspectiva originária em Roanoke. Entretanto, diferentemente da iteração anterior, os acontecimentos não emergem em detrimento da narrativa, e sim atados de forma não-convencional a ela.

11/9, assim intitulado esse novo capítulo, nos mostra algo pelo qual ansiávamos desde o princípio: os eventos que se sucederam no dia da eleição para presidência dos Estados Unidos. Afinal, nas últimas iterações, o foco residiu sobre um tema muito explorado em obras de terror – a própria existência dos medos. Focando em Ally (Sarah Paulson), uma mulher traumatizada pelo resultado das eleições e que teve suas fobias desencadeadas de uma vez só, e em Ivy (Alison Pill), sua esposa, fomos apresentados a uma perspectiva de constante mergulho nas consequências do medo e da violência (esse último tema representado pela figura histérica de Evan Peters como Kai).

Agora, precisávamos de algo que dialoga muito bem com produtos do gênero: a origem de todo o mal. No caso, o antagonismo é representado pelo fanatismo político encarnado pelo personagem de Peters, o qual parece ser o líder de um clã de palhaços assassinos que tem como principal objetivo espalhar o medo pelos lugares que passam, como forma de obrigar os cidadãos acuados a se submeter a um grupo cada vez mais crescente. 11/9 tem o seu pano geral bem arquitetado, incluindo os protestos calorosos entre democratas e republicanos acerca de quem seria melhor para liderar o país, mas a principal estratégia é focar em três storylines diferentes para personagens já apresentados.

O primeiro se configura como a exaustiva trabalhadora Beverly Hope (Adina Porter), cuja instabilidade emocional piorou muito depois dos jargões sexistas proferidos pelo candidato Donald Trump, levando-a a um breakdown inesperado que a afastou da emissora na qual trabalhava. Sua complexa personalidade, apesar de brevemente explorada, atrai a atenção de Kai, que a rodeia como forma de recrutá-la para o culto em formação, utilizando-se de gatilhos para ativar uma crescente raiva na mulher. Ao que tudo indica, sua competência parece não ser o bastante para atrair a atenção do chefe em busca de uma promoção merecida; um rosto mais jovem e desinibido, encarnado pelo retorno triunfal de Emma Roberts, ofusca suas conquistas cada vez mais e ameaça seus planos futuros – até o surgimento de uma força superior e desconhecida que promete “salvá-la”.

O segundo emerge no casal Harrison e Meadow Wilton (Billy Eichner e Leslie Grossman, respectivamente), cujas vidas financeiras e pessoais estão em uma queda livre. Kai conhece Harrison ao matricular-se em uma academia e começar seus treinos, escolhendo-o como seu personal trainer. Entretanto, logo percebemos que o trabalho do personagem não condiz com seus sonhos, visto que seu chefe abusa da superioridade hierárquica e de sua orientação sexual para submetê-lo aos mais humilhantes trabalhos – que são bem explícitos visualmente. Logo, não é nenhuma surpresa que a presença messiânica de Kai abra em seu psicológico uma brecha para liberar toda a frustração internalizada e finalmente se livrar de algo tóxico.

O terceiro, e talvez o mais chocante, vem na incrível presença de cena de Chaz Bono, o qual deu as caras durante o episódio inicial. Aqui, ele encarna Gary Longstreet, um dono de supermercado reacionário que não se conforma com o apoio à candidata Hillary Clinton e vê a iminente votação como sua chance de mostrar ao mundo que pode participar de algo importante. Aqui, o tema do individualismo é tratado com grande força, e os ideais seguidos tanto por Gary quanto por Kai entram num ritmo dialógico que culmina, mais uma vez, no sacrifício para o bem maior – e, eventualmente, o caminho do lojista cruza o de Ivy e o de Winter (Billie Lourd), nos levando a outra revelação encantadora e misteriosa.

Afastando-se da narrativa movida pelo desejo intrínseco do ser humano em se sentir protegido e de seu pavor pelo desconhecido e pelo inexplicável, este novo capítulo tem como função mostrar como o medo e o ódio andam de mãos dadas. As cartas do jogo foram finalmente distribuídas – e agora que conhecemos todas as regras, a compreensão do macrocosmos de Murphy encontra seu lugar na audiência e permite mais uma vez que os espectadores criem uma conexão lógica e autoexplanatória sobre o que virá a acontecer. Afinal, a representação do caos – Kai – é a força-motriz do culto principal, que visa libertar fluxos de raiva dentro de suas vítimas e canalizar as frustrações de sua invisibilidade social para o exterior – ou seja, para outras pessoas.

O desfecho desses três arcos exige sacrifícios físicos, como supracitado, culminando na morte das nêmeses do personagens em questão. Serena (Roberts) é apunhalada brutalmente pelos mesmos palhaços que surgem do nada para cumprir uma missão derradeira e mortal; o chefe de Harrison é morto por seu próprio empregado; e Gary, ao melhor estilo gore de Jogos Mortais, serra o braço como forma de libertar – literal e espiritualmente – de seus inimigos para “fazer história” (ou ao menos acreditar nisso). O ponto-chave para o entendimento do episódio é a subversão da cronologia narrativa de Murphy e de seu time criativo, a qual cria várias linhas temporais que culminam no famigerado dia da votação.

Apesar de não manter o ritmo frenético, American Horror Story firma mais uma vez seu sanguinolento império televisivo, trabalhando o conceito de horror e terror de uma forma nada convencional. Espera-se, agora, que a história fique ainda mais densa – e talvez mais aterrorizante que o normal.

American Horror Story – 07×04: 11/9 (Idem, 2017 – EUA)

Criado por: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Direção: Gwyneth Horder-Payton
Roteiro: John J. Gray
Elenco: Sarah Paulson, Evan Peters, Cheyenne Jackson, Billie Lourd, Alison Pill, Colton Haynes, Billy Eichner, Leslie Grossman, Adina Porter, Lena Dunham, Emma Roberts
Emissora: FX
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 45 minutos

Confira AQUI o nosso guia de episódios da temporada!

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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