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Crítica | American Horror Story – 07×06: Mid-Western Assassin

O medo é algo incrivelmente sedutor e perigoso.

Já é mais óbvio dizer que a sétima temporada de American Horror Story tem como principal tema o medo. Mas é sempre bom reforçar o modo como uma das sensações mais primitivas do ser humano é tratada nessa antologia: sem quaisquer escrúpulos. Diferentemente de outros produtos audiovisuais, a antologia de Ryan Murphy e Brad Falchuk analisa com bastante cautela os limites entre a sanidade e a loucura e, por fim, bane essas linhas para bem longe. A visceralidade é o que conta – e não importa o quão chocante ou aterrorizante seja, a dupla por trás dessa série fará o que for necessário para passar a mensagem que querem, mesmo que tenham que causar um banho de sangue em cena ou divagar profundamente no subconsciente humano, buscando o que existe de mais assustador nos abismos da mente.

Em Mid-Western Assassin, como foi intitulado o mais novo episódio, vemos um passo a mais para compreender a complexa e insana mente de Kai (Evan Peters), o qual já se provou completamente afastado das disputas entre republicanos e democratas no período anterior e posterior às eleições presidenciais dos Estados Unidos. Apesar de ter demonstrado afinidade com os ideais de Donald Trump, o personagem aproveitou esse inesperado acontecimento para utilizar-se de sua ideologia crua e tenebrosa para espalhar o caos pela cidade onde morava. Em seu culto, ele conseguiu unir todas as pessoas que abraçaram seu medo e entregaram-se a um “bem” muito maior para poderem expandir um novo conceito de comunidade – a regida pelo pânico e pela constante reafirmação de submissão e dominação sociais.

A priori, podemos pensar que Kai estava recrutando apenas membros que conversassem com seus ideais revolucionários, mas vemos que o buraco é bem mais embaixo. Ivy (Alison Pill), Harry (Bill Eichner), Gary (Chaz Bono), Beverly (Adina Porter) e inúmeros outros representam a multilateralidade necessária para que essa perigosa perspectiva ganha cada vez mais terreno, além de endossas sua arquitetura: até o episódio em questão, percebemos que o personagem em questão tem apoio da mídia, das minorias sociais e até mesmo dos reacionários, firmando seu poder de persuasão e transformando indivíduos tão diferenciados em uma massa amorfa que precisava de seu “messias”.

Nesta nova iteração, as coisas tomam um rumo ainda mais assustador quando nos vemos em uma sequência que faz alusão direta ao tiroteio ocorrido em Las Vegas nos últimos dias – ainda que não propositalmente. Aqui, um plano sequência muito bem estruturado segue Ivy tentando se proteger de um atirador desconhecido, escondendo-se atrás de uma fonte enquanto tentamos entender o que está acontecendo. Eis que um grupo de policiais chega e logo depois aponta suas armas para uma assustada e indefesa Ally (Sarah Paulson), a qual poderia sim ter todos os seus motivos para invadir o comício eleitoral liderado por seu inimigo.

Mas as coisas não são exatamente o que parecem e, logo após a tenebrosa introdução da temporada, somos transportados para o momento em que Ally ajuda Meadow (Leslie Grossman) – supostamente morta por seu marido e a mando do fanático líder – a fugir de sua casa para ouvir uma versão muito mais profunda do culto que está aterrorizando sua cidade. E, bom, tudo indica que todas as pessoas que conhece – incluindo sua esposa e o policial no qual confiou sua própria segurança – estão envolvidas. Kai e toda sua retórica incisiva conseguiu linearizar um pensamento antigamente considerado muito radical, mas que agora mostrava-se a única saída para recuperar a glória do povo estadunidense e “tornar a América ótima de novo”. Meadow, apaixonada pela convicção de seu líder, acabou seguindo-o até perceber no que havia se metido; entretanto, quando pensou em desistir de continuar, foi amarrada e quase sepultada.

Essa versão muito mais pessoal dos acontecimentos permitiu a Ally livrar-se de suas inúmeras fobias – todas elas fruto de um psicológico abalado e que foi bombardeado com uma constância inimaginável de gatilhos. Sua personalidade tornou-se mais resiliente, construindo ao redor de si mesma uma barreira contra ameaças externas que a permitiu ir atrás de respostas – as quais se materializaram na figura da candidata ao cargo de conselheira estadual Sally Keffler (Mare Winningham), a qual se mostrou como uma das únicas a se opor publicamente aos ideais distorcidos de Kai. Seu futuro já pode ser previsto no momento em que se levanta para contradizer os argumentos do oponente: uma morte dolorosa e perscrutada pela assustadora presença dos palhaços demoníacos – e posso dizer com segurança que esse é um dos poucos deslizes de Cult: a presença exacerbada de personagens coadjuvantes descartáveis que entram apenas como uma superficial backstory para os protagonistas.

Mas, mais uma vez, Murphy e seu time criativo surpreende nas escolhas narrativas ao transgredir a cronologia do episódio com uma gama de “cenas deletadas”. Acontece que Meadow nada mais é que mais uma peça no jogo de Kai, o qual a recrutou para um trabalho muito perigoso e arquitetado às minúcias: para emergir como o real messias, ele teria que ser assassinado e ressuscitar – uma alegoria um tanto quanto assustadora do extremismo religioso que se relaciona com a necessidade de uma estrutura simbólica em meio à perdição. Para tanto, a personagem de Grossman deveria cometer um último ato de sacrifício antes de entrar para a história como a responsável pela continuidade do legado de seu parceiro.

American Horror Story: Cult mais uma vez surpreende nesta semana com mais viradas incríveis e uma narrativa que abandona os maneirismos sobrenaturais das temporadas anteriores para entregar-se à dura realidade do fanatismo e do medo – temas que assolam o ser humano desde seu surgimento.

American Horror Story – 07×06: Mid-Western Assassin (Idem, 2017 – EUA)

Criado por: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Direção: Bradley Buecker
Roteiro: Todd Kubrak
Elenco: Sarah Paulson, Evan Peters, Cheyenne Jackson, Billie Lourd, Alison Pill, Colton Haynes, Billy Eichner, Leslie Grossman, Adina Porter, Lena Dunham, Emma Roberts
Emissora: FX
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 45 minutos

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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