Os erros foram corrigidos e American Horror Story está de volta nos trilhos!

Após um grande deslize no capítulo anterior, a antologia de terror criada por Ryan Murphy parece ter dado um salto considerável em sua linha narrativa, buscando elementos essencialmente do gênero terror para compor a história a ser apresentada no oitavo episódio, intitulado Winter of Our Discontent. Resgatando inclusive elementos próprio da série que há muito haviam se perdido em trâmites políticos e sociais sobre ideologias opostas, este talvez uma pequena obra-prima que pode ser considerada o início do retorno de Murphy e de seu time criativo para aquilo que os tornaram conhecidos para começo de história.

Como bem sabemos pelos episódios predecessores, as tensões entre Kai (Evan Peters) e Beverly (Adina Porter) aumentaram drasticamente após o líder do culto ser elegido para conselheiro regional e instaurar uma nova ordem comandada apenas por homens, submetendo o quórum feminino para tarefas domésticas e de total submissão às necessidades dos “mais fortes”. Através de diálogos explícitos e sem total preocupação de mascarar um dos temas que até hoje é discutido na sociedade contemporânea, vemos inúmeros recrutas objetificando o corpo e as atitudes das personagens de Cult, permitindo-lhes internalizar uma frustração que, mais cedo ou mais tarde, culminará em uma tragédia. Apesar disso, sabemos que Kai, na verdade, não está nem um pouco interessado em quebrar as evoluções sociais e transformar o lugar em que vive em um simulacro dos anos 1950, mas sim permitir que o caos corra solto e que ele emerja como o messias, como o real salvador que poderá guiá-los através da destruição.

E isso nos leva a uma figura que já estava esquecida em meio a tantos joguinhos e disputas pelo poder – Ally (Sarah Paulson) cuja brusca maturidade encontrou seu equilíbrio após confrontar aqueles que lhe causavam mal. Ela não apenas viu sua família ruir, impotente, permitindo que um complô quase generalizado a deixasse cada vez mais próxima da loucura e a levasse a presenciar cenas medonhas, como o suicídio de Meadow (Leslie Grossman) e a separação dela e de seu filho Oz (Cooper Dodson), mas também foi tachada como incompetente, assassina e tornou-se uma presença solitária que começou a vagar em meio às incontáveis fobias que a perseguiam diariamente – claustrofobia, agorafobia, courofobia, tripofobia…

Entretanto, apesar da linearidade de sua angústia, que encontrava certo equilíbrio pontualmente na série, a personagem parece ter despertado para uma nova conquista e uma nova perspectiva daqueles que lhe faziam mal após descobrir que sua ex-esposa (Alison Pill), além de estar dormindo com a babá Winter (Billie Lourd), faz parte do culto que passou a aterrorizá-la e a tirar a vida de todos que ousavam se colocar contra os ideais de medo e submissão que desejavam espalhar. E ela não foi apenas traída por aqueles que mais amava, mas também pela própria personificação da ajuda – seu terapeuta, Dr. Rudy Vincent (Cheyenne Jackson), o qual revelou para Ally que Kai e Winter eram seus irmãos mais novos e que, após colocá-la numa clínica de reabilitação por três semanas, acreditava em tudo o que ela havia contado.

Se estivéssemos no lugar da personagem de Paulson, nossa atitude provavelmente teria sido a mesma: utilizar toda a mágoa guardada para se vingar e encontrar um lugar de conforto em meio a tantas mentiras. E é por isso que ela resolve chamar Kai, seu arqui-inimigo, para sua própria casa, oferecendo-lhe um acordo que pode mudar o curso da história principal e transformar duas forças opostas em dois aliados complementares – no caso, é exatamente isso o que acontece ao final do terceiro ato: após realizar um sacrifício fraternal eliminando seu irmão, o qual tornou-se um obstáculo para seu reinado, e prendendo sua mais nova nêmeses (Beverly), Kai apresenta a todos a nova integrante do culto, Ally. Agora, precisamos saber exatamente quais são seus planos e como a organicidade do grupo irá se manter, visto que ela e Ivy não estão em uma situação equilibrada, por assim dizer.

De fato, quem rouba a cena no episódio é Lourd. Já conhecemos sua personalidade blasé e conivente às atitudes do irmão, tenta provar que ele é uma vítima do próprio sistema que criou e que jamais a machucaria, considerando o conturbado passado compartilhado por ambos. Isso no leva para o ano de 2015, no qual Kai e Winter foram convidados a participar de uma exposição sobre tabus sociais: aborto, drogas e homossexualidade, tudo arquitetado pela doentia mente do Pastor Charles (interpretado pelo assustador Rick Springfield), um personagem tão medonho quanto sua própria caracterização cênica. Afinal, ele capturou pessoas que considerava impuras e utilizou-se da interpretação mais crua e mais extremista da Bíblia e dos conceitos católicos para julgá-las à ruína, submetendo-as ao “caminho tortuoso e pecador” que escolheram.

A partir daí, Kai tornou-se um salvador, lutando pelo direito à redenção e a uma segunda chance que todos devem ter – e gradativamente, foi perdendo-se em meio à cegueira pelo poder, transformando-se em uma máquina revolucionária que percebeu que o medo pode ser utilizado com arma de manipulação e recrutamento para fins individualistas e generalistas, ao mesmo tempo. E quem permaneceu ao seu lado todo esse tempo? Winter. A irmã caçula abriu mão até mesmo de sua sororidade para apoiar aquele que sempre teve como ídolo, inclusive nos momentos de desespero e depressão – como a morte dos pais, por exemplo.

Winter of Our Discontent é um episódio interessante e que traz inúmeros elementos bem lapidados para a franquia de terror idealizada por Murphy. Toques de terror e do sobrenatural mesclam-se harmonicamente com uma backstory um tanto quanto profunda que adiciona mais entendimento aos personagens e que prepara terreno para o que pode ser uma grandiosa season finale – assim esperamos.

American Horror Story – 07×08: Winter of Our Discontent (Idem, 2017 – EUA)

Criado por: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Direção: Barbara Brown
Roteiro: Joshua Green
Elenco: Sarah Paulson, Evan Peters, Cheyenne Jackson, Billie Lourd, Alison Pill, Colton Haynes, Billy Eichner, Leslie Grossman, Adina Porter, Lena Dunham, Emma Roberts
Emissora: FX
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 45 minutos