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Quando Ryan Murphy prometeu se entregar de corpo e alma para a oitava temporada de American Horror Story, ele não estava brincando. Sua antologia, conhecida pela excessiva e proposital distorção da realidade e por uma perspectiva inédita ao saturado gênero do terror, caminhava para um trágico e sobrenatural fim, prenunciado até mesmo pelo subtítulo do novo ano, Apocalypse. E apesar da inconstância rítmica dos primeiros episódios, cada novo capítulo surpreende na reestruturação, ainda que se valha de vários maneirismos do showrunner para caracterizar a iteração como parte da série. De qualquer modo, este quinto episódio se afasta da roupagem filler e dá ainda mais aberturas a serem exploradas até o aguardado season finale.

Como bem sabemos, Cordelia (Sarah Paulson) delineia dois arcos principais, com a ambiência permanecendo no passado e explicando ao público de que modo a catástrofe planetária ocorreu. No primeiro, lida com o fato de uma força poderosa estar emergindo do clã de warlocks, sempre submisso às bruxas e, ao que tudo indica, pode ter encontrado o até então ficcional Alfa – feiticeiro capaz de superar as habilidades e o poder da Suprema. Em outro, enfrente seus demônios interiores à medida que uma herdeira em potencial insurge em sua própria Academia, encarnada pela quase fabulesca Mallory (Billie Lourd), dotada de habilidades incríveis que preconizam um futuro conflito de interesses.

Entretanto, Cordelia não parece pronta para abrir mão de seus poderes, mesmo sentindo a força deixar-lhe dia após dia, mas não devido a um egoísmo desmedido, e sim a uma visão assustadora. Em reunião com o clã opositor, ela decide que o caminhado a ser trilhado pela humanidade se resume às suas próximas escolhas – e, como podemos ter percebido, ela não teve um senso de julgamento muito bom. Mesmo assim, ela resolve dar um voto de confiança ao chanceler Ariel (Jon Jon Briones) e permite que o jovem Michael Langdon (Cody Fern) realize as Sete Maravilhas. Dependendo do resultado, a Suprema deverá abdicar de seu patamar – e o secular equilíbrio entre os mundos místico e mundano estará ameaçado com nunca antes.

Desde o capítulo anterior, Murphy faz escolhas interessantes que mantém o público à beira de um colapso nervoso. Afinal, o envolvimento ganha mais força porque nós, como meros espectadores, sabemos o perigo representado pela figura de Michael – afinal, ele é o próprio Anticristo. A cada minuto, rezamos para que ambos os lados da história percebam os erros que estão cometendo, abram os olhos e unam forças contra as Trevas. Ora, até os antagonistas da trama sabem disso e fazem questão de manterem-se em segredo sigiloso para um “bem maior” que culminará na extinção sumária da raça humana. Porém, essa angústia é o que permite mobilidade para a narrativa e fidelidade por parte da audiência.

Não é apenas nas soberbas escolhas que Boy Wonder ganha força. A diretora Gwyneth Horder-Payton retorna à cadeira e entrega-se às claras homenagens a Murphy de forma bem mais clara que antes. Apesar da crueza nostálgica, as construções cênicas funcionam e se assemelham a um retorno gradativo a Coven, seja pelos enquadramentos angulosos e propositais, seja pelo bom uso da excessiva simetria e das lentes em grande angular, distorcendo a realidade e transformando o covil subterrâneo em uma claustrofóbica prisão. A caracterização de Michael e de Cordelia corresponde às emoções que procuram nos passar, e a química entre os dois atores é inegavelmente sedutora.

De qualquer modo, o roteirista John J. Gray não se vale apenas dos sacrifícios obrigatórios – o personagem de Cheyenne Jackson nos dá adeus em uma sequência cruel e sanguinária, por exemplo. Ao chegar à última das Sete Maravilhas, Cordelia desafia o jovem feiticeiro a resgatar uma personagem conhecida e amada por grande parte dos fãs de AHS: Misty Day (Lily Rabe). Como bem sabemos, a bruxa não conseguiu sair de seu inferno pessoal e foi condenada a passar toda a eternidade em um sofrimento cíclico. Entretanto, Michael, já tendo resgatado Queenie (Gabourey Sidibe) e Madison (Emma Roberts) de suas próprias penúrias, consegue trazê-la de volta e dá início a um plot twist conspiratório que tem tudo para ser bem utilizado.

Não é apenas nisso que o episódio ganha força: a criatividade artística também ganha mais voz, transformando o que poderia ser uma simples investida dramática em uma ode aos clássicos filmes de terror das décadas de 1920 e 1930 do cinema hollywoodiano. Aqui, Horder-Payton utiliza-se de suas habilidades técnicas e imagéticas para nos colocar cara a cara com um pequeno filme em preto-e-branco, realizando alusões a gênios como Charles Chaplin e suas irreverências performáticas, e George Meliès e seus inovadores efeitos especiais. Claro que, considerando o contexto contemporâneo, tal cena é uma sátira ao mesmo tempo macabra e cômica.

American Horror Story continua em sua onda positiva e aumenta as expectativas para os próximos capítulos. E falando nisso, o mote do crossover ganha mais endossamento agora: está na hora de voltar a Murder House.

American Horror Story – 08×05: Boy Wonder (Idem, 2018 – EUA)

Criado por: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Direção: Gwyneth Horder-Payton
Roteiro: John J. Gray
Elenco: Sarah Paulson, Kathy Bates, Evan Peters, Billie Lourd, Adina Porter, Cheyenne Jackson, Leslie Grossman, Emma Roberts, Gabourey Sidibe, Lily Rabe, Frances Conroy, Taissa Farmiga
Emissora: FX
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 45 minutos